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Operação militar destruiu o Iraque mas evitou derrube de Saddam Hussein

No dia 24 de fevereiro de 1991, as forças da coligação internacional desencadeavam a ofensiva terrestre que será decisiva para a retirada das forças iraquianas do Koweit, mas que não implicou o derrube de Saddam Hussein.

Operação militar destruiu o Iraque mas evitou derrube de Saddam Hussein
Notícias ao Minuto

08:49 - 23/02/21 por Lusa

Mundo Sabre do Deserto

A operação militar terrestre 'Sabre do Deserto', iniciada em 24 de fevereiro de 1991 e de curta duração, constitui a segunda fase da 'Tempestade do Deserto' iniciada em 17 de janeiro com os bombardeamentos aéreos sobre o Iraque pela coligação internacional liderada pelos Estados Unidos do então Presidente George H. W. Bush, legitimada pela ONU e após contraditórias e pouco convincentes mediações diplomáticas.

Pouco mais de um ano após a queda do Muro de Berlim, e quando a então União soviética se encontra em processo de implosão, a invasão do Koweit pelo Iraque em 02 de agosto de 1990 tinha suscitado uma resposta de amplitude inigualável.

O Presidente do Iraque, Saddam Hussein, acusava o seu vizinho de fomentar a queda dos preços do petróleo e optou pela intervenção militar, ainda ofuscado pelo seu sucesso relativo na guerra contra o Irão na década de 1980, em que foi armado e apoiado pelo Ocidente.

Os ocidentais receavam que a apropriação pelo Iraque dos campos petrolíferos do Koweit desequilibrasse o mercado do petróleo, mas também existia a tentação dos EUA em instalar uma base militar na região petrolífera do golfo Pérsico.

As monarquias árabes, até então avessas a uma presença militar ocidental em território sagrado do islão, tinham-se deixado convencer por Washington, em particular uma Arábia Saudita alertada sobre uma suposta invasão do país pelos iraquianos. Uma alegação baseada em fotos aéreas que não são submetidas a qualquer triagem independente.

O cenário completou-se com a audição de 10 de outubro de 1990 no Congresso dos EUA, transmitida pelas televisões, sobre os horrores cometidos pelos tropas iraquianas no Koweit desde a invasão de 02 de agosto.

Uma suposta enfermeira koweitiana descreveu a invasão de uma maternidade pelos soldados de Saddam e como teriam matado bebés prematuros, arrancando-os das incubadoras e lançando-os por terra.

Mais tarde, é revelado que a "enfermeira" era afinal a filha do embaixador do Koweit nos Estados Unidos, que depôs sob falsa identidade e inventou os factos, mas este manipulatório testemunho "convenceu" o Congresso a autorizar o Presidente Bush a desencadear a guerra.

Um impressionante exército começou a concentrar-se na Arábia Saudita (operação "Escudo do Deserto") sob comando do general norte-americano Norman Schwarzkopf, e quando Colin Powell assumia então a chefia do Estado-Maior das Forças Armadas.

A coligação reúne 28 países e 605.000 homens, metade norte-americanos, armados com o mais sofisticado material de guerra, e enfrenta um exército de 540.000 iraquianos, mal comandados e desmotivados, mas apresentado por Washington como o "quarto exército do mundo".

No decurso da campanha de bombardeamentos aéreos iniciada em 17 de janeiro e que se prolonga por 42 dias são lançadas sobre o Iraque 88.500 toneladas de bombas, número nunca antes alcançado num conflito. As infraestruturas militares e civis são destruídas, com importantes "danos colaterais".

Em 22 de fevereiro, o Iraque aceitou um cessar-fogo sob pressão da vacilante União Soviética, mas a coligação rejeita a proposta, fornece um prazo de 24 horas para a retirada das forças iraquianas do Koweit e promete que não serão atacadas.

Seguiu-se a operação terrestre 'Sabre do Deserto' de 24 de fevereiro, que se depara com pouca resistência. A neutralização da Guarda Republicana iraquiana, que detinha as unidades de blindados mais perigosas para a coligação ocidental, era o objetivo estratégico e nos dias seguintes mais de 100 blindados são neutralizados.

Nesta guerra-relâmpago, a coligação militar passeia-se pelo Koweit e depois pelo Iraque. Em 26 de fevereiro, após um apelo do Presidente Bush, as populações xiitas do sul do Iraque revoltam-se contra Saddam, e o país fica à beira da desintegração.

Perante este cenário, dois dias depois, em 28 de fevereiro, com a destruição do que restava do exército iraquiano durante a sua retirada pela "autoestrada da morte" -- após ter aplicado a política de terra queimada ao incendiar os poços de petróleo koweitianos -- Bush decide interromper a entrada triunfal em Bagdad e impõe um cessar-fogo unilateral, muito mal recebido pelos seus comandos militares.

O regime de Saddam e o seu líder são poupados, permitindo-lhes utilizar helicópteros contra a insurreição xiita e novos massacres, à semelhança do que tinha ocorrido no Curdistão iraquiano. Em paralelo, o emir do Koweit Jaber al-Ahmad al-Sabah regressava ao país, após oito meses no exílio.

Esta primeira Guerra do Golfo provocou mais de 200.000 mortos do lado iraquiano, metade civis e muitos deles vítimas "colaterais" dos bombardeamentos "cirúrgicos".

As forças da coligação contabilizam algumas dezenas de mortos, na maioria ocidentais (os EUA registam 65 mortos e 43 desaparecidos, o Reino Unido seis mortos e oito desaparecidos, a França dois mortos, enquanto os aliados árabes contam com 13 mortos e 10 desaparecidos).

Em termos financeiros, os seus custos foram totalmente cobertos pelas monarquias petrolíferas do Golfo, incluindo o Koweit, e ainda Alemanha e Japão, que não se envolveram militarmente nesta guerra para evitar reavivar memórias dolorosas da Segunda Guerra Mundial.

Num Iraque destruído, Washington vai optar por evitar uma eventual tomada do poder dos xiitas iraquianos aliados do Irão.

E a manutenção de Saddam no poder também será aceite pelas monarquias árabes, que preferem a manutenção no poder em Bagdad de um autocrata desarmado e arruinado, em alternativa a um modelo mais democrático que motivasse as suas próprias populações. Em paralelo, esta guerra justifica a instalação permanente de uma base militar ocidental junto aos campos petrolíferos.

O Iraque continua a ser liderado pela minoria sunita mas é submetido a um embargo imposto pelos norte-americanos e à instauração de "zonas de segurança" a norte e a sul, que não impedem o prosseguimento dos bombardeamentos ocidentais e a repressão sobre as populações xiitas por Saddam.

O país afunda-se, começam a emergir movimentos islamitas radicais tolerados por Bagdad que afugentam as minorias cristãs do Iraque, e a ajuda internacional é controlada pelo poder, que a distribuiu consoante a sua vontade. O mercado negro prolifera.

Os atentados do 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos vão interromper este precário equilíbrio. Será George W. Bush, agora no poder na Casa Branca, quem ordenará a segunda invasão do Iraque em março de 2003 sem autorização da ONU, que implica o derrube do regime de Saddam Hussein e uma nova situação de caos que ainda hoje prevalece, com a continuada presença no terreno de tropas ocidentais.

Leia Também: Estados Unidos avisam que podem vir a responsabilizar Irão por ataques

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