"É preciso ter uma abordagem integrada: desenvolvimento, segurança e governação. E isso é muito mais difícil de fazer do que chegar com boa vontade, construir um poço ou fornecer medicamentos em quantidades limitadas, porque há sempre o risco do neocolonialismo", referiu Josep Borrell num seminário da Fundação Robert Schuman intitulado, "A União Europeia, um ator mundial".
Referindo que o grande desafio nas relações entre a UE e o continente africano é o de descobrir como agir "enquanto catalisador", o chefe da diplomacia europeia sublinhou que, face à "dinâmica demográfica da África", a ajuda ao desenvolvimento "diminui 'per capita'" por haver cada vez mais pessoas e torna-se insuficiente.
"As necessidades são tão grandes que a ajuda ao desenvolvimento será sempre homeopática. É preciso um processo catalisador porque os recursos que podemos pôr em cima da mesa serão largamente insuficientes", frisou.
Borrell defendeu assim que é necessário "incentivar o investimento e abrir os mercados", salientando que "não se pode fechar as fronteiras às pessoas" que querem imigrar para a Europa e "fechar as portas aos seus produtos".
"As parcerias começam por partilhar aquilo que somos capazes de produzir com algumas vantagens comparativas. Se não for desenvolvido o ponto de vista económico, não há segurança possível", afirmou.
Nesse âmbito, o Alto Representante abordou a situação no Sahel, frisando que a UE "não vencerá a guerra se não vencer a paz".
"Se os governos do Sahel não forem vistos pela população da região enquanto fornecedores de serviços públicos --- saúde, educação, transportes ---, se não forem vistos como nós vemos os nossos governos na Europa, se se basearem na segurança e no Exército, então a porta para a instabilidade ficará aberta", defendeu.
Frisando que, quando "olha de perto" para África, pergunta-se se os "Europeus se apercebem verdadeiramente" do "grande desafio" e da "oportunidade" que representa para a UE, Borrell utilizar o exemplo do Pacto Ecológico Europeu para clarificar a sua abordagem.
"Quando falamos do Pacto Ecológico ou dizemos 'é preciso ser verde', os nossos amigos africanos vêm isso como uma certa tentação protecionista ou como um luxo a que os Ocidentais se podem permitir enquanto que eles têm outros problemas. Mas não é um luxo e, se os africanos, por infortúnio, seguissem o mesmo sistema de desenvolvimento energético que nós, não haveria soluções para a transição climática", referiu.
Borrell disse assim que é preciso ajudar os parceiros africanos "a fazer as coisas de maneira diferente" -- o que referiu ser mais difícil do que "subsidiar um investimento em carvão" -- e salientou que, face ao crescimento populacional do continente africano, "o quantitativo muda o qualitativo".
"Tudo se torna mais sofisticado e ganha uma escala maior. Não é a mesma coisa lidar com um continente com mil milhões de pessoas ou com dois milhões de pessoas", afirmou.
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