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Portugal pode ter "grande papel" para salvar acordo nuclear com o Irão

O embaixador do Irão considera que Portugal poderá assumir "um grande papel" e reunir todos os signatários do acordo nuclear iraniano durante a sua presidência semestral rotativa da União Europeia (UE), que se inicia em janeiro.

Portugal pode ter "grande papel" para salvar acordo nuclear com o Irão
Notícias ao Minuto

10:18 - 03/12/20 por Lusa

Mundo Irão

"Portugal pode assumir um grande papel ao tentar juntar à mesma mesa as diferentes partes, devido às boas relações com os Estados Unidos (EUA), e às suas relações com os países europeus", indicou em entrevista à Lusa o embaixador iraniano Morteza Damanpak Jami numa referência ao Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), assinado entre Teerão e os EUA, Reino Unido, França, China, Rússia e ainda Alemanha em 2015.

Este acordo encontra-se moribundo após a retirada unilateral de Washington três anos depois, com a imposição simultânea de draconianas sanções económicas a Teerão.

Na perspetiva do representante diplomático de Teerão em Portugal, e "apesar de na atual estrutura da União Europeia" a presidência do Conselho Europeu não ter o peso político como sucedia há alguns anos, "ainda tem um significado, e tem prioridades".

Morteza Jami recordou que logo após Portugal assumir a presidência semestral, em 01 de janeiro de 2021, e menos de três semanas depois, tomará posse nos Estados Unidos a nova administração do Presidente eleito, Joe Biden.

"Penso que será muito importante que na sequência da divisão que ocorreu nas relações entre a UE e os EUA durante a administração Trump, a preservação da JCPOA constitua um importante elemento da política externa da União Europeia", explicitou.

O representante de Teerão em Lisboa argumentou que um dos pilares do sucesso da política externa da UE relaciona-se com o JCPOA, após os países europeus terem optado por permanecer no acordo.

"Caso pretendam prosseguir a atividade diplomática com o Irão, trabalhar com o Irão para garantir a paz e a segurança na nossa região, na Ásia ocidental, então as responsabilidades de Portugal serão muito importantes", frisou.

O embaixador iraniano acredita que a diplomacia portuguesa pode adotar "muitas iniciativas" e recordou que em 2007, quando Portugal assumiu pela última vez [no segundo semestre] a presidência da UE, organizou um encontro entre o chefe negociador do Irão e o então secretário-geral do Conselho da UE, Javier Solana.

"Se os EUA regressarem ao acordo, o Irão também aplicará totalmente as suas limitações e compromissos deste acordo nuclear, haverá uma grande agenda de contactos, de movimentações, de delegações", com Portugal a assumir destacado protagonismo, sublinhou.

"Seria voltar a acreditar no multilateralismo, nos tratados internacionais, na lei internacional. Estes são os valores aos quais Portugal pode recorrer para reforçar o papel da diplomacia, em particular no JCPOA".

Morteza Jami lamentou que a União Europeia, no seu conjunto, não tenha condenado "nos mais fortes termos" o atentado que na passada sexta-feira matou o cientista Mohsen Fakhrizadeh, diretor da organização de pesquisa e inovação do ministério da Defesa do Irão, e que Teerão atribuiu a Israel.

"Não vimos isso por parte da maioria dos países europeus, incluindo Portugal. Também referimos aos nossos amigos no Governo português que este atentado deveria ser condenado em termos firmes. Não interessa que tenha ocorrido em Teerão ou Lisboa, deveria ser condenado. É isso que esperamos dos nossos amigos no Governo português, a sua condenação de um ato terrorista, e que para além do Irão, que o terrorismo deve ser combatido em conjunto".

O mecanismo financeiro INSTEX, criado em janeiro de 2019 pela França, Alemanha e Reino Unido (o designado grupo E3), destinado a favorecer as trocas comerciais com o Irão sem utilizar o dólar norte-americano, uma forma de contrariar as sanções norte-americanas, também mereceu reparos do diplomata.

"O INSTEX nada fez em termos de comércio entre o Irão e a UE. Em 2017, o comércio bilateral ascendia a cerca de 30 mil milhões de dólares [25 mil milhões de euros], hoje é menos de três ou quatro mil milhões. O INSTEX deveria intensificar este comércio, mas não o fez", frisou.

No âmbito deste mecanismo, uma segunda medida definida por "bloqueio das regulações, destinado a ajudar e apoiar qualquer país europeu que fizesse negócios com o Irão e contornar as sanções dos EUA" também não foi acionada no apoio "a uma única empresa europeia" que negociasse com Irão, assegurou.

"Devido às ameaças de sanções pelos EUA, as empresas europeias retiraram-se do mercado iraniano, como o caso da Total [o gigante francês do setor petroquímico e energético] que tinha um contrato de cinco mil milhões para o desenvolvimento, juntamente com o Qatar, de um campo de gás no sul do Irão. Vieram, iniciaram o projeto, mas após a reimposição das sanções a Total abandonou o mercado. Por que motivo a UE não encorajou e apoiou esta empresa para ficar?", questionou.

As sanções reimpostas pelos Estados Unidos em 2018 provocaram o afundamento da economia iraniana, que em 2019 se contraiu 9,5%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), e originaram uma inflação superior da 30%, em parte devido à desvalorização da moeda nacional.

"Também fizemos um contrato com a Airbus e outras empresas europeias para a compra de 120 aviões de passageiros, mas apenas alguns foram entregues ao Irão e o contrato cancelado. Estes são os exemplos do não apoio da UE às suas empresas para negociarem com o Irão", concluiu o embaixador.

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