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Trump/Biden: O debate de "insultos" em que a democracia foi 'derrotada'

No final do primeiro debate entre os dois candidatos à Presidência dos EUA, os analistas dividiram-se sobre quem terá estado melhor, mas concordaram sobre a confusão em que a discussão se transformou e na derrota da razão política.

Trump/Biden: O debate de "insultos" em que a democracia foi 'derrotada'

O republicano Donald Trump precisava deste debate para recuperar votos, quando a quase totalidade das sondagens o dão como perdedor nas eleições de 3 de novembro, enquanto o democrata Joe Biden precisava de afastar a ideia de que não está física e mentalmente preparado para esta campanha, sabendo que não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão.

No final do debate, na madrugada de hoje, os analistas mostraram-se desapontados com a incivilidade de Trump e com a tibieza política de Biden e questionam mesmo se valerá a pena os eleitores perderem o seu tempo a assistir aos dois debates que restam, nos dias 15 e 22 de outubro.

"O debate ficará na história da política norte-americana como a noite em que o caos e a violência verbal derrotaram a democracia", disse à Lusa Nuno Gouveia, um politólogo que atira as culpas para a estratégica retórica do republicano Donald Trump e para "as fragilidades óbvias" do democrata Joe Biden.

Nos écrans dos canais televisivos mais próximos de Trump, como o da estação Fox News, não demoraram os elogios à prestação do Presidente em exercício, embora reconhecendo que em alguns momentos o candidato republicano exagerou nos atropelos ao adversário.

No canal MSNBC, bem mais simpático para Biden, Trump foi trucidado pelos analistas, que o acusaram de ter eliminado qualquer possibilidade de civilidade na discussão, gritando argumentos sem sustentação factual e atropelando repetidamente o candidato democrata, incapaz de esboçar as suas ideias.

Márcia Rodrigues, jornalista e antiga correspondente da RTP em Washington, disse que não se lembra de assistir a um debate tão vazio de ideias, em que, no final, pouco se conheceu sobre os planos dos candidatos para o próximo mandato presidencial.

"Limitaram-se a insultos e ataques pessoais", explicou a jornalista, lamentando que os eleitores não tenham podido compreender melhor as diferenças fundamentais que separam os dois partidos.

A responsabilidade pela decadência foi imputada, especialmente, ao Presidente em exercício, pela forma como arrastou o debate para a "lama política".

"Trump trouxe a natureza caótica da sua presidência para o palco do debate", acusou Alex Conant, um estratega republicano, que admitiu que o Presidente falhou na tarefa fundamental de "tirar Biden do jogo", limitando-se a lembrar aos eleitores independentes "por que razão votaram contra ele" em 2016.

Também Nuno Gouveia partilha desta responsabilização de Trump na sua falha em "recuperar eleitorado, para readquirir uma dinâmica de vitória", que os estrategas republicanos reconhecem ser essencial nesta fase da campanha.

"Trump falhou em demonstrar aos eleitores que não gostam da sua personalidade, mas que gostam das suas políticas, que podem confiar nele para mais um mandato", explicou este especialista e autor de obras sobre as eleições presidenciais nos EUA.

Gouveia acrescenta que Trump também precisava de fragilizar Biden, demonstrando que o democrata é um "candidato fraco, sem capacidade de liderança e com graves problemas cognitivos", o que não conseguiu, perante um adversário que teve ainda o mérito de dizer que o Partido Democrata é ele mesmo, afastando as suspeições de que esteja refém da ala mais radical do seu movimento.

A maioria dos analistas reconhece que Trump começou bem o debate, com uma intervenção em que foi mais eficaz do que Biden a explicar as razões da urgência da sua nomeação para o Supremo Tribunal dos EUA, contrariando os que esperavam que o Presidente se atrapalhasse na argumentação técnica do assunto.

Mas demorou poucos segundos até que Trump abandonasse o terreno da racionalidade política, para enveredar por uma estratégia de atropelos discursivos - obrigando o moderador, Chris Wallace, a admoesta-lo por desrespeitar as regras do debate -- a que Biden respondeu com uma retórica agressiva, pouco comum no democrata, chegando mesmo a chamar o Presidente de "palhaço", "mentiroso", "tonto" e "racista".

Nuno Gouveia conclui que Biden poderá sair beneficiado deste debate, não porque o tenha vencido, mas porque a postura de Trump impediu o republicano de recuperar terreno junto do eleitorado que precisa de conquistar, nomeadamente o eleitorado feminino, que está a fugir decisivamente para o lado democrata.

Poucos minutos depois do debate, Wolf Blitzer, jornalista da estação televisiva CNN, interrogava-se sobre a utilidade destas iniciativas de campanha e admitia mesmo que os dois confrontos que estão agendados possam ser cancelados, por falta de comparência de um ou de ambos os candidatos.

"Não ficaria surpreendido se este fosse o último debate presidencial entre o Presidente dos Estados Unidos o ex-vice-Presidente dos Estados Unidos", concluiu Blitzer, exprimindo um desalento partilhado por muitos dos analistas que assistiram ao duelo Trump-Biden.

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