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Morte de médico que denunciou vírus gera apelos à liberdade de expressão

O tópico 'eu quero liberdade de expressão' tornou-se hoje viral nas redes sociais chinesas, na sequência do anúncio da morte do médico que alertou para o novo coronavírus.

Morte de médico que denunciou vírus gera apelos à liberdade de expressão

Li Wenliang morreu esta madrugada (hora local) vítima do coronavírus para o qual alertou, em dezembro passado, os colegas de profissão num grupo 'online'.

O alerta à comunidade médica de Wuhan, centro do surto do coronavírus, valeu-lhe uma repreensão por parte da polícia, que o obrigou a assinar um documento no qual denunciava o aviso como um boato "infundado e ilegal".

A notícia da morte, apesar de ter sido feita durante a noite, levou a reações imediatas nas redes sociais chinesas, com o 'hashtag' #woyaoyanlunziyou ('eu quero liberdade de expressão', em chinês) a tornar-se viral.

"O reacionário é quem mais teme a liberdade de expressão", escreveu no Weibo um internauta, citando o fundador da República Popular da China, Mao Zedong. "Ele recorre a todos os tipos de métodos sujos e baixos para tapar os olhos, os ouvidos e a boca do povo", acrescentou.

O jornal oficial do Partido Comunista Global Times lamentou a morte do médico, mas instou a população a apoiar a luta do governo contra a epidemia. "O fato de Li Wenliang não ter escapado com vida mostra o quão árdua e complexa é esta batalha", lê-se no editorial do Global Times. "Neste momento crítico, devemos mantermo-nos unidos", sublinhou.

Li, cuja mulher está grávida de uma segunda criança, era um oftalmologista desconhecido, mas tornou-se, nas últimas semanas, num ícone para muitos chineses, à medida que o surto do coronavírus se alastrou por toda a China, paralisando o país.

Além de Li, morreram mais 72 pessoas na China nas últimas 24 horas, elevando o número de vítimas mortais devido ao novo coronavírus para 636. Existem ainda mais de 31 mil infetados.

Inicialmente, as autoridades de Wuhan reportaram apenas 41 pacientes, e descartaram que a doença fosse transmissível entre seres humanos. Durante semanas, o número de pacientes manteve-se inalterado.

Em 20 de janeiro, dias antes de a China relatar os primeiros casos fora de Wuhan, já a Tailândia e o Japão tinham registado infeções. Nas redes sociais chinesas, internautas comentaram que o vírus era "patriótico", pois parecia só afetar estrangeiros.

No entanto, já no final de dezembro, Li alertou os colegas para os perigos de uma nova doença desconhecida.

Entretanto, o presidente da câmara de Wuhan, Zhou Xianwang, sugeriu que a divulgação tardia do surto se deveu à crescente centralização do poder na China. "Espero que entendam porque é que não houve divulgação mais cedo", disse.

"Após ter sido informado sobre o vírus, precisava de autorização antes de tornar a informação pública", explicou.

A morte de Li também expõe um aspeto preocupante sobre o surto que não é detalhado nas estatísticas: o número de funcionários de saúde infetados pelo vírus. No início, um proeminente especialista chinês em doenças infecciosas indicou que um único paciente tinha infetado 14 funcionários num hospital em Wuhan.

Quando Li avisou os colegas, o novo coronavírus não tinha ainda sido identificado, mas ele detetou semelhanças com a pneumonia atípica, ou Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), um coronavírus que abalou a China há quase duas décadas.

Em entrevista à revista chinesa Caixin pouco tempo antes de morrer, Li defendeu maior liberdade de expressão no país.

"Acho que um sociedade saudável não devia ter apenas uma voz", apontou.

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