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Contestação em Macau é mais dirigida a governantes do que contra Pequim

O ativista Jason Chao considera que o descontentamento da população da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) é mais dirigido para os governantes locais do que contra Pequim ou o regime chinês.

Contestação em Macau é mais dirigida a governantes do que contra Pequim
Notícias ao Minuto

06:48 - 02/02/20 por Lusa

Mundo Ativista

Em entrevista à agência Lusa em Lisboa, Jason Chao salientou que existem muitas diferenças entre as realidades sociais de Macau e de Hong Kong, o território que tem sido palco de violentas manifestações contra a China, com exigências de maior autonomia, sufrágio universal para o líder do executivo local e a contestação à falta de liberdades civis.

Para o ativista, de 33 anos, a frequentar um doutoramento na Alemanha, as diferenças entre Hong Kong e Macau resultam da história dos dois territórios e do papel das potências ocupantes na promoção do idioma e valores ocidentais.

O espaço do gabinete de ligação de Pequim em Hong Kong é um "local de protesto contra a China", mas na RAEM essa zona "é um centro de protestos contra a gestão e más práticas do governo de Macau", exemplificou, admitindo que os residentes "tendem a pedir a intervenção do Governo chinês", porque pensam que os seus governantes "não são competentes para gerir os assuntos locais".

"Em Macau querem-se os problemas resolvidos, independentemente do sistema em que se viva", disse Jason Chao.

Por outro lado, o território antes administrado por Lisboa está demasiado dependente de Pequim para tentar qualquer tipo de rebelião.

"Se um dia a população de Macau se quiser revoltar contra a China será economicamente impossível porque está presa", já que, no território, "só há dois grandes empregadores: os casinos que são dependentes dos turistas da China" e a "administração pública que depende das receitas da indústria do jogo".

Por isso, admitiu Jason Chao, "pelo menos no curto-prazo, não é previsível que Macau vá contra a China, porque isso afeta a única fonte de rendimentos" do território.

Ao contrário do que muitos analistas defendem, o ativista considerou que o "sistema político de Macau não é formado a partir da Declaração [Conjunta] Sino-Portuguesa [celebrada em 1987 que estabelece as condições da entrega do território a Pequim]", mas sim pelo acordo entre a China e o Reino Unido sobre Hong Kong.

"A declaração em Macau foi assinada após as negociações da China com o Governo britânico" e o acordo com Portugal já introduziu mudanças impostas pela China, explicou Jason Chao.

Entre as duas leis básicas há uma "diferença crucial", porque a "China não fez qualquer promessa de sufrágio universal para o chefe do executivo de Macau", exemplificou Chao, mostrando que, já nos anos 1980, Hong Kong tinha mais exigência democrática que o território sob administração portuguesa.

Essas diferenças também "têm a ver com diferentes progressos de desenvolvimento social entre Hong Kong e Macau", com o território administrado por Londres a ser já um grande centro económico e financeiro da Ásia.

Hoje, a "China quer apresentar Macau como o melhor exemplo do princípio 'Um país, dois sistemas'", mas "quanto mais apresenta Macau como um estudante obediente mais isso é prejudicial para o autodenominado 'Um país, dois sistemas'", avisou Chao.

Em Macau, acusou o ativista, assiste-se ao "silêncio dos opositores, uma total submissão à lei chinesa e isso é algo que Taiwan e Hong Kong não querem".

O programa político 'Um país, dois sistemas' foi desenhado nos anos 1980 por Deng Xiaoping para tentar resolver pacificamente a integração de Taiwan na República Popular da China, salvaguardando os direitos cívicos e democráticos daquela ilha para onde fugiram os nacionalistas chineses após a derrota perante os comunistas na guerra civil, na década de 1940.

Hoje "podemos olhar para este princípio e vemos que essa promessa está a perder credibilidade, especialmente olhando para Hong Kong", afirmou Jason Chao.

Hong Kong vive uma situação semelhante, embora menos evidente, já que muitos dos capitais que fluem para o território devem-se às suas ligações com a China.

No entanto, desse lado do delta do Rio das Pérolas, o desenvolvimento económico é antigo e consolidado, pelo que os "jovens em Hong Kong estão a tornar-se, progressivamente, mais pós-materialistas", dando mais valor à "liberdade e autonomia".

Isto é, notou o ativista, "fundamentalmente, uma questão de progresso".

"Não rejeito que a próxima geração de Macau tenha mais desejo de autonomia", salientou Jason Chao, que se diz "otimista de longo curso", porque "nenhuma ditadura pode viver para sempre".

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