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Mais de 600 mulheres paquistanesas vendidas como noivas a homens chineses

Foi divulgada uma lista de nomes de mulheres vítimas de tráfico humano.

Mais de 600 mulheres paquistanesas vendidas como noivas a homens chineses
Notícias ao Minuto

10:45 - 04/12/19 por Sara Gouveia 

Mundo Tráfico humano

Foram 629 as meninas e mulheres de vários locais do Paquistão a serem vendidas como noivas para homens chineses e levadas para a China. A lista foi obtida pela Associated Press e compilada por investigadores paquistaneses determinados a acabar com as redes de tráfico humano que exploram o país pobre e vulnerável.

O documento contém o número mais concreto até agora para o número de mulheres apanhadas em esquemas de tráfico desde 2018. Mas desde o momento em que foi montado, em junho deste ano, a busca dos investigadores por mais informação sobre as redes encontrado vários obstáculos. As autoridades responsáveis que tomaram conhecimento da investigação dão conta de que os entraves surgiram devido aos responsáveis governamentais temerem romper os laços lucrativos entre o Paquistão e Pequim.

O maior caso contra os traficantes humanos caiu por terra em outubro, depois de um tribunal em Faisalabad ter absolvido 31 homens de nacionalidade chinesa das acusações. Várias das mulheres que tinham inicialmente sido questionadas pela polícia recusaram testemunhar, na sequência de ameaças ou subornos, segundo contou um responsável judicial e um investigador da polícia revelou à agência. Os dois falaram sob condição de anonimato por terem receado represálias.

Ao mesmo tempo, o governo pôs "imensa pressão" sobre os agentes da Agência de Investigação Federal para tentar restringir as investigações sobre as redes de tráfico, disse Saleem Iqbal, um ativista cristão que ajudou os pais a resgatarem várias jovens da China e prevenir outras de serem enviadas para lá. "Alguns dos agentes foram inclusivamente transferidos", explicou numa entrevista.

Vários responsáveis de altos cargos próximos dos factos disseram que as investigações sobre o tráfico têm ficado mais lentas, que os investigadores estão a ficar frustrados e que os meios de comunicação paquistaneses foram pressionados para reduzirem as reportagens sobre o assunto. 

"Ninguém está a fazer nada para ajudar estas raparigas", disse um dos responsáveis, novamente sob anonimato pela possibilidade de surgirem consequências. "Toda a rede está a continuar e a crescer. Porquê? Porque sabem que conseguem sair impunes. As autoridades não dão seguimento e toda a gente está a ser pressionada para não investigar e o tráfico está a aumentar", frisou.

Questionado, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês disse desconhecer a existência da lista. "Os dois governos da China e do Paquistão apoiam a formação de famílias felizes entre os seus povos de uma forma voluntária e de acordo com as leis e regulamentos, enquanto ao mesmo tempo tem tolerância zero para e irá lutar contra qualquer pessoa que participe em comportamentos de casamentos para passar fronteiras", disse Wang Yi em comunicado.

Numa investigação da Associated Press feita no início deste ano já tinha sido revelado que a minoria cristã paquistanesa tornou-se o novo alvo para redes que pagam a famílias pobres para casarem as suas filhas, algumas delas adolescentes, com maridos chineses. Por sua vez, as noivas são levadas para a China, isoladas e abusadas, forçadas à prostituição, muitas vezes acabando por entrar em contacto com as famílias a pedir para regressar.

A comunidade cristã é uma das mais atacadas por ser uma das mais pobres num Paquistão maioritariamente muçulmano.

Os investigadores montaram a lista de 629 mulheres através do sistema integrado de gestão de fronteiras, que grava digitalmente os documentos de viagem nos aeroportos. A informação inclui os números de identidade das noivas, os nomes dos seus maridos chineses e a data dos casamentos. Todas as uniões, salvo algumas exceções, ocorreram desde 2018 até abril de 2019.

"Os intermediários chineses e paquistaneses fazem entre 4 e 10 milhões de rúpias (23 e 58 mil euros) da parte do noivo, mas apenas 200 mil rúpias (1.350 euros) são entregues à família", explicou um dos responsáveis de alto-cargo à AP. A mesma fonte deu conta de que em várias conversas com mulheres envolvidas nessas situações falaram em tratamentos de fertilidade forçados, abusos físicos e sexuais e em alguns casos prostituição.

A procura por noivas estrangeiras na China deve-se à composição da população chinesa, com 34 milhões de homens a mais do que mulheres, resultado da política de filho único, que vigorou entre os anos 1980 e 2015, e uma preferência por meninos, que levou a abortos seletivos e infanticídio feminino.

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