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Comunidade internacional "precipitou-se" ao avaliar mudanças em Angola

O professor universitário Domingos da Cruz disse hoje à Lusa que os observadores internacionais foram "precipitados" em decretar uma mudança política em Angola, salientando que o objetivo do Presidente é manter o poder através de uma nova narrativa.

Comunidade internacional "precipitou-se" ao avaliar mudanças em Angola
Notícias ao Minuto

06:09 - 20/10/19 por Lusa

Mundo Domingos da Cruz

"Terá havido uma precipitação, ao nível externo, em tirarem conclusões relativamente a Angola, foram demasiado precipitadas, rápidas, e baseadas naquilo que se chama impressão", disse o académico e ativista Domingos da Cruz, em entrevista à Lusa, em Lisboa.

"Devemos ser mais cautelosos e criteriosos e dois anos depois da chegada ao poder de João Lourenço não é suficiente para fazer afirmações, sobretudo as que vejo a partir de fora", acrescentou.

Para Domingos da Cruz, autor da tradução do livro 'From dictatorship to Democracy: A Conceptual Framework for Liberation', escrita por Gene Sharp, pela qual foi condenado a uma pena de prisão, "há uma mudança radical" na maneira como os angolanos olham agora para o sucessor de José Eduardo dos Santos.

"Internamente as perceções estão a mudar consideravelmente, de 8 para 80, os que acreditavam que há uma mudança radical hoje expressam um ponto de vista completamente diferente", afirmou, apontando o exemplo do diretor da Open Society Fundation em Angola.

"João Lourenço recebeu um conjunto de ativistas, onde participou Elias Isaac, e após o encontro Elias Isaac terá saído bastante esperançoso e disse que estamos numa nova era, mas agora ele diz-se completamente dececionado, que não acredita e chama a sociedade civil para montar uma nova estratégia e diz que é preciso adaptarmo-nos ao novo homem que, na verdade, não está a agir à semelhança do que parecia", salientou o investigador angolano.

"Do meu ponto de vista, o comportamento de João Lourenço visa estrategicamente manter o grupo, ou seja, o partido do qual faz parte e não há qualquer projeto de nação, de interesse nacional que vise incluir e integrar todos os angolanos, e mais cedo ou mais tarde quem ainda tem dúvidas de que este homem não tem boas intenções ha de perceber que não é o que parece", sentenciou.

Questionado sobre as reformas lançadas pelo Governo, Domingos da Cruz relativizou a legislação e apontou que as alterações legais passam pela construção de uma narrativa destinada a mudar a perceção externa do país.

"Pode-se dizer que ele tentou construir uma nova narrativa, trazer uma nova gramática política para Angola baseada em jargões e adjetivações sobre o passado, para passar a ideia que doravante construiremos um país diferente, mas é preciso que fique claro que há uma distância clara entre o discurso e a prática", alertou.

Para Domingos da Cruz, houve uma confusão generalizada entre o discurso dos novos governantes e a prática do Executivo que sucedeu a José Eduardo dos Santos.

"Eu não estou dececionado porque chamei a atenção de que Angola não mudou; particularmente, a imprensa portuguesa contribuiu para o reforço dessa ideia, confundiram a alternância de Presidente com a alteração da cultura política, mas são coisas completamente diferentes", alertou, apontando que "a Rússia muda de Presidente mas o sistema é o mesmo", acrescentou, apontando ainda Cuba e Coreia do Norte como exemplos.

"Isso é muito fácil de perceber do ponto de vista do sistema política, mas mesmo em países onde muitos jornalistas são pessoas com formação sólida, não perceberam a diferença entre sucessão presidencial e alteração de regime, e em Angola não aconteceu a alteração de regime, é isso que se confundiu", concluiu.

Em junho de 2015, Domingos da Cruz foi detido com outros 16 ativistas angolanos e, um ano depois, foi condenado a oito anos e meio de prisão, por atos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores, a pena mais dura do grupo.

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