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Acordo de paz confronta-se com duplicidades, ataques e tráfico de armas

Ataques contra populações civis, "discurso dúplice" dos rebeldes e tráfico de armas. Seis meses depois da assinatura do acordo de Cartum entre o Governo e 14 grupos armados, a paz tarda a afirmar-se na República Centro-Africana (RCA).

Acordo de paz confronta-se com duplicidades, ataques e tráfico de armas
Notícias ao Minuto

06:36 - 06/08/19 por Lusa

Mundo RCA

Bem entendido que a tarefa é imensa neste país devastado por crises e conflitos, onde foram celebrados 13 acordos de paz em 10 anos.

Mas, como lembraram os peritos da Organização das Nações Unidas (ONU), num relatório divulgado na quarta-feira, "nenhum dos cinco outros acordos assinados desde o início da crise (mais recente) do fim de 2012 mobilizou tantos esforços da parte dos protagonistas nacionais e internacionais".

Esforços estes que tardam em concretizar-se fora da capital, uma vez que o país está controlado em 80% pelas várias milícias e pelos grupos rebeldes.

A situação militar está estabilizada desde fevereiro. Mas, na província, os combates entre grupos armados e os ataques à população civil continuam. Assassínios, violações, ataques, detenções arbitrárias, ataques aos trabalhadores humanitários... Entre 10 a 70 violações do acordo são registadas todas as semanas pela missão da ONU no país (MINUSCA, na sigla em inglês).

"Nada ou quase pode provar que os combatentes tenham mudado verdadeiramente de comportamento ou que os seus chefes tenham procurado identificar e sancionar os culpados", estimaram os peritos da ONU no seu documento.

Única força capaz de se deslocar rapidamente pelo país para responder à violência, a MINUSCA privilegia o diálogo à ação militar desde a assinatura do acordo.

Esta posição é por vezes difícil de conciliar com o seu mandato de proteção das populações civis. As tropas da ONU agiram em abril para desimpedir o corredor económico entre Bangui e os Camarões, que estava bloqueado pelos milicianos da Frente Democrática do Povo Centro-Africano (FDPC), de Abdoulaye Miskine.

Mas já não utilizaram a força contra os elementos do grupo 3R, responsáveis pelo massacre de 46 civis, em 22 de maio, em Paoua, no norte do país.

Uma decisão que provocou a incompreensão de numerosos centro-africanos, que esperam medidas mais firmes para acabar com os abusos e as violências.

"Paoua não será esquecida", garantiu Mankeur Ndiaye, o representante especial da ONU no país. "Estamos a trabalhar no caso, a pressionar os dirigentes para procurar saber exatamente quem deu as ordens para os deter", acrescentou.

Apesar de passíveis processos judiciais, vários chefes de grupos armados foram integrados no novo Governo inclusivo formado em 03 de março, como acertado nas negociações de Cartum.

Mas alguns dos seus líderes mostram-se pouco inclinados a respeitar as disposições previstas pelo acordo.

Entre estas, a participação no processo de "desarmamento, desmobilização, reinserção e repatriamento" (DDRR), lançado em dezembro de 2018.

Mais de 450 milicianos pertencentes a grupos de menor envergadura foram desarmados no oeste do país, zona onde a autoridade do Estado começa a restabelecer-se de forma tímida.

Porém, o processo anuncia-se mais difícil nas regiões do centro, ocupados pelos dois grupos armados mais poderosos da RCA, a Frente Popular para o Renascimento da RCA (FPRC), de Abdoulaye Hissène e Nourredine Adam, e a União para a Paz na RCA (UPC), de Ali Darassa.

Estes dois grupos resultaram da Séléka, o movimento armado que derrubou em 2013 o Presidente François Bozizé.

"A FPRC multiplica as declarações de paz, mas não tem a intenção de desarmar os seus homens", admitiu uma fonte no seio desta milícia.

Criticada com frequência pela MINUSCA, o "discurso dúplice" dos grupos armados atrasa também o levantamento das barreiras nas vias de comunicação, onde os comerciantes são vítimas de extorsão.

Nas zonas controladas pela FPRC e UPC, o número de barreiras levantadas desde fevereiro conta-se pelos dedos de uma mão.

"Eles levantam uma barreira, mas depois instalam outra um pouco mais longe", afirmou o comandante da MINUSCA, o general senegalês Balla Keita.

Além desta obtenção de receitas ilegal, os grupos armados obtêm recursos da exploração das jazidas de ouro e diamantes situadas nas zonas que controlam.

Beneficiando deste maná financeiro e da acalmia da situação de segurança, "os principais grupos armados, em particular os que saíram da ex-Séléka, não só conservaram os seus postos de controlo, como reforçaram o seu controlo sobre alguns territórios e compraram armas", afirmaram os peritos da ONU.

Segundo o seu documento, a FPRC e a UPC continuam a comprar material de guerra nas fronteiras com o Chade e o Sudão, apesar do embargo imposto ao país e das promessas feitas em Cartum.

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