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Após Guerra Fria desperdiçou-se oportunidade de nova ordem internacional

O escritor e ensaísta Amin Maalouf deteta no mundo atual a coexistência de aspetos fascinantes e fenómenos muito preocupantes, após ter sido perdida a "oportunidade única" para o surgimento de uma nova ordem internacional.

Após Guerra Fria desperdiçou-se oportunidade de nova ordem internacional
Notícias ao Minuto

07:33 - 20/07/19 por Lusa

Mundo Amin Maalouf

Na sexta-feira, o escritor de dupla nacionalidade libanesa e francesa, 70 anos, recebeu o Prémio Calouste Gulbenkian 2019 por um júri presidido por Jorge Sampaio e também justificado pela sua "promoção ativa da fluidez cultural".

Em entrevista à Lusa referiu-se a um "mundo fascinante" com "avanços extraordinários" na tecnologia, na comunicação, na medicina, e que não pode ser comparado a qualquer outra época.

"Mas em simultâneo existem aspetos muito inquietantes. Um aspeto inquietante é que há 30 anos, no momento da queda do Muro de Berlim, esperávamos que surgisse uma nova ordem internacional, de uma forma ou outra. E de facto, não ocorreu", destaca.

O período que coincidiu com o final da Guerra Fria foi um momento decisivo, mas que se revelou um equívoco, considera o autor do recente ensaio 'O Naufrágio das Civilizações' (2019) e de 'As Identidades Assassinas' (1998).

"Não quer dizer que a ordem da Guerra Fria era uma boa coisa. Mas no final da Guerra Fria houve um momento onde algo poderia ter sido estabelecido. Desperdiçámos essa ocasião. Direi que, nesse plano, nessa questão precisa, os primeiros responsáveis são os Estados Unidos, porque tinham a iniciativa", argumenta.

"Eram a primeira potência, tinham uma liderança reconhecida por todo o mundo, mas julgo que faltou um dirigente americano de alto nível que tivesse visão e fundasse uma nova ordem (...) penso que nos últimos 30 anos a América não teve um grande homem que pudesse desempenhar esse papel", considera.

O escritor, reconhecido por diversos romances e ensaios ('Leão, o Africano', 'Samarcanda', 'O Rochedo de Tanios', 'As Cruzadas Vistas pelos Árabes'), considera a Europa "um outro problema", mas inter-relacionado.

"Se a Europa tivesse conseguido construir uma identidade europeia, forte, talvez conseguisse substituir a função dos Estados Unidos e dirigir os EUA para uma certa direção. Sou um fervoroso europeu e estou um pouco triste porque tenha a impressão de que desperdiçámos inúmeras ocasiões, e que a Europa atravessa hoje uma crise importante", acrescenta.

O cidadão libanês e francês, prémio Goncourt em 1993 e membro da Academia francesa desde 2011, reconheceu uma situação "ainda mais grave" no Médio Oriente e no mundo árabe em geral.

"O mundo árabe atravessa um período muito mais sombrio. Quando falo do problema americano, é um problema de atitude estratégica, quando me refiro à Europa digo que o que foi feito foi bem feito, mas poderia ter-se feito melhor. Quando falo do mundo em que nasci é muito mais grave, permanecemos numa grande crise histórica que se prolonga há décadas, que provavelmente ainda vai durar algumas décadas, e da qual ninguém sabe como sair", assinala.

Um período "sombrio", com dirigentes sem garantirem a confiança dos seus povos, onde as instituições democráticas funcionam em poucas regiões, onde prevalecem "fenómenos estranhos de violência e barbárie em certos países".

Amin Maalouf compara estes tempos sombrios no seu Levante natal com uma Europa onde muitas sociedades caminham para "atitudes muito mais identitárias", numa deriva conduz a "desnaturar um pouco" os instrumentos modernos da tecnologia.

"Quer dizer, estamos num mundo onde procuramos constantemente a proteção, porque temos medo, temos medo da violência, da imigração, de muitas coisas. E o facto de termos medo implica que as tecnologias se tornem cada vez mais invasoras, e com uma tendência em restringir cada vez mais a liberdade", lamenta.

E o medo, que passou a assolar tantos países e tantas populações europeias, diz ser proveniente da sua região. "É de lá que vem o medo que perturba muitas sociedades através do mundo, da Europa à Índia e aos Estados Unidos". O "naufrágio" da sua região, que pode conduzir a outros naufrágios.

O escritor recusa entrar "no detalhe de cada país", refere-se à Líbia como "um espetáculo muito inquietante", mas recorda que "onde as situações se deterioram muito e desempenhou uma função muito negativa nos últimos anos é a minha região natal, sobretudo o Mediterrâneo Oriental", numa referência ao Iraque, Síria, Líbano, ou à evolução do conflito israelo-palestiniano.

No entanto, indica que este último e prolongado contencioso constitui "um dos aspetos" de um cenário mais abrangente.

"[A questão palestiniana] é um aspeto significativo, mas há diversas questões importantes, outros aspetos que hoje surgiram, por exemplo as tensões entre os países árabes do Golfo e o Irão, a forma como o negócio do petróleo foi utilizado, com personagens como Saddam Hussein ou Kadhafi. Direi que existem um conjunto de fatores nessa parte do mundo que contribuíram para a situação que vivemos hoje", diz.

Neste contexto, entende que não deverá "exagerar" a responsabilidade da Europa.

"Penso que a Europa tem uma responsabilidade, como os Estados Unidos ou a Rússia têm uma responsabilidade. Mas diria que, antes de tudo, são os dirigentes dos próprios países que têm a principal responsabilidade", defende.

O refluxo da designada Primavera Árabe "essa grande esperança", não permite um balanço encorajador, conclui o ensaísta.

"Estamos num período de repressão onde existe muito pouca democracia e na maioria dos países da região, incluindo o Egito, é óbvio que não estamos num período de democracia e liberdade, existe um retrocesso no Egito, na Síria. Da Líbia não diria um retrocesso, mas passámos de um sistema completamente aberrante para uma situação que não é melhor...", finaliza.

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