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Crimeia demonstrou "clara vontade" de se unir à Rússia

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Alexander Grushko, assinalou em entrevista à Lusa que a população da Crimeia manifestou "clara vontade" de se unir à Rússia e que a decisão "respeita" a Carta das Nações Unidas.

Crimeia demonstrou "clara vontade" de se unir à Rússia
Notícias ao Minuto

09:18 - 20/04/19 por Lusa

Mundo Alexander Grushko

"Existiu uma clara vontade do povo da Crimeia de se unir à Federação da Rússia. Esteve totalmente em consonância com a Carta das Nações Unidas. Quando se diz que existe uma crescente tensão na região do Mar Negro, não existem de todo ameaças militares", assinalou o responsável russo, 63 anos, no serviço diplomático desde 1977 e que entre 2012 e 2018 foi o representante permanente da Rússia na NATO, em Bruxelas.

A Rússia anexou a península da Crimeia em março de 2014, após o derrube do Governo "pró-russo" em Kiev, e promoveu um referendo sobre o regresso do território à federação russa, que obteve uma aprovação de mais de 97%, segundo os dados oficiais.

A presença de forças militares na NATO e da Rússia tem vindo a ser reforçada no Mar Negro, que se converteu num novo ponto de fricção entre o Ocidente e Moscovo.

Ao abordar esta situação, o vice-MNE russo considera desnecessária a presença militar de países que não pertencem à região, ao recordar que três Estados banhados pelo Mar Negro, Roménia, Bulgária e Turquia, pertencem à NATO, sendo o último país "militarmente muito poderoso", e que sempre existiu um equilíbrio de forças nesta sensível região nos limites da Europa.

"A Federação da Rússia sempre esteve presente na Crimeia. Quando a Crimeia pertencia ao império russo, quando foi parte da União Soviética, quando foi dada por Nikita Khrushchov à Ucrânia, a frota da marinha da federação russa sempre esteve presente. Tinha uma componente marítima, aérea e terrestre, incluindo defesa costeira e fuzileiros", disse.

"Assim, nesta perspetiva não houve mudanças drásticas", adiantou Alexander Grushko, que na quinta-feira manteve em Lisboa consultas políticas bilaterais centradas na intensificação do comércio e investimento e no reforço da cooperação no domínio cultural, para além da troca de pontos de vista sobre temas da agenda internacional.

A segurança no Mar Negro, na perspetiva do diplomata russo, assenta em iniciativas conjuntas onde devem participar todos os Estado do litoral e que promova o reforço da confiança e da cooperação económica.

No entanto, e ao referir-se ao incidente no estreito de Kerch em novembro de 2018, entre o Mar Negro e o Mar de Azov e que envolveu navios russos e ucranianos, com a detenção das tripulações ucranianas, limita-se a assinalar uma "provocação" de Kiev.

Em paralelo, define o conflito armado no leste da Ucrânia com os separatistas pró-russos como uma "questão interna" do país vizinho.

"Trata-se de um conflito interno na Ucrânia e estamos muito empenhados na aplicação integral do Acordo de Minsk por todas as partes, pelas autoridades de Kiev, de Donetsk e de Lugansk", numa referência às duas autoproclamadas repúblicas pró-russas do Donbass, que Kiev e o Ocidente dizem receber apoio militar direto de Moscovo, que tem sido negada.

"Uma das pré-condições para resolver esta crise é o diálogo direto entre Donetsk e Lugansk com as autoridades de Kiev. [Petro] Poroshenko [Presidente da Ucrânia] recusou fazê-lo e isso é muito mau porque não se pode encontrar uma fórmula própria para resolver todos os problemas, seja política ou prática", defendeu o vice-MNE russo, reconduzido neste cargo em janeiro de 2018 após ter ocupado as mesmas funções entre 2005 e 2012.

O diplomata russo admite que a aplicação do Acordo de Minsk, firmado em 2015, poderá integrar Donetsk e Lugansk "no território legal ucraniano", mas garantindo o respeito integral das populações russófonas dessas regiões, e após um conflito que desde 2014 provocou mais de 13.000 mortos e milhares de deslocados.

"Trata-se da língua, direito a celebrar os feriados de acordo com o que dita o seu coração, um estatuto especial... esses parâmetros foram acordados ao mais elevado nível político, durante o encontro de todos os presidentes do "formato da Normandia" [os quatro países -- França, Alemanha, Rússia e Ucrânia -- que patrocinaram os Acordos de Minsk]", disse.

Para além de acusar o Governo de Kiev de não aplicar o Acordo de Minsk, o diplomata russo também acusa os responsáveis ucranianos de não terem promovido a retirada de material militar pesado da linha da frente, como estava previsto no documento, mas garante o envolvimento de Moscovo num processo destinado a criar pré-condições para garantir paz, estabilidade e diálogo direto entre as partes.

"Para nós, é muito claro que devem ser aplicados todos os acordos alcançados em Minsk e na 'fórmula da Normandia'. Não podemos abrir a caixa de Pandora, foi muito difícil negociar, foi um equilíbrio de interesses. E penso que toda a comunidade pretende a aplicação dos acordos. Não é questão de quem participou, antes a preparação das autoridades de Kiev para cumprir o que foi decidido neste formato", acrescentou.

A geopolítica da energia, muito presente nesta região, foi outro aspeto que o diplomata abordou, ao recordar a já longa cooperação da Rússia com a Europa nesta área, e os contenciosos que se agravam com os Estados Unidos e a Ucrânia.

"No meu país discutiu-se muito o facto de estarmos a ficar demasiado dependentes da UE [na exportação de energia], mas acreditamos que é uma dependência mútua positiva, porque quando existe uma forte cooperação há um pilar de segurança, aproxima os países. Esta cooperação deve continuar (...), e os EUA não devem impor aos países europeus o que devem ou não devem comprar", salientou.

Ainda numa referência à atual situação na região dos Balcãs, "uma região muito importante" como sublinhou, considerou os bombardeamentos da NATO contra a Sérvia em 1999, que conduziram à posterior independência da província do Kosovo, como um "desastre para a política russa" e um "duro golpe nas tentativas para construir um novo sistema de segurança na Europa".

A necessidade de garantir uma solução durável para o conflito que continua a opor a Sérvia ao Kosovo, no âmbito do acordo de Bruxelas, foi defendida pelo diplomata, e quando a Rússia se inclui entre os países que, com Belgrado, se recusou reconhecer a independência proclamada pelos albaneses kosovares.

Em paralelo, o alargamento da NATO nos Balcãs (Roménia, Bulgária, Eslovénia, Croácia, Albânia, Montenegro, e proximamente Macedónia do Norte) também mereceu uma observação do responsável russo, que considerou "esta política de 'porta aberta'" como "muito perigosa pelo facto de não unir os países, mas fomentar divisões adicionais" entre os Estados da região.

"Acreditamos que não será possível por meios militares construir uma Europa unida. E sobretudo garantir a paz e a estabilidade na região dos Balcãs. Houve muitas possibilidades para pensar nos sistemas de segurança regional com proteção e garantias", concluiu.

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