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Rouca e desautorizada, May continua determinada à frente do governo

Rouca e desautorizada no parlamento britânico, a primeira-ministra, Theresa May, continua a desafiar as crescentes pressões para se demitir e mantém-se determinada em avançar com o 'Brexit'.

Rouca e desautorizada, May continua determinada à frente do governo
Notícias ao Minuto

08:45 - 16/03/19 por Lusa

Mundo Brexit

Desde novembro, quando o Acordo de Saída do Reino Unido da União Europeia (UE) foi concluído, a primeira-ministra já esteve em pé, na Câmara dos Comuns, mais de dezanove horas, fazendo intervenções e respondendo a perguntas.

Na terça-feira, cumpriu com dificuldades, mas perseverou até ficar afónica. Perdeu a voz e também a segunda votação daquele que é muitas vezes designado por "acordo da primeira-ministra", por 391 votos contra e 242 votos a favor, uma margem de 149 votos.

"Ao longo deste processo, ela mostrou firmeza, tenacidade, consideração, diligência e, acima de tudo, um patriotismo altruísta e irresistível", elogiou o ministro do Ambiente, Michael Gove, no dia seguinte.

Na quarta-feira, o dia culminou com outra derrota e o episódio caricato de um governo votar contra a própria proposta, de rejeitar uma saída sem acordo, desobediência essa, de vários membros do governo, que se repetiu na quinta-feira, quando mais ministros contrariaram a posição oficial e votaram contra o adiamento da data de saída para depois de 29 de março.

A dissensão no governo levou correligionários, como o antigo assessor George Freeman, a concluir que "este caos não pode continuar" e que May devia apresentar a demissão para conseguir passar o Acordo e "permitir que um novo líder una o país e conduza a próxima fase" de negociações com a UE.

Philip Johnston, o editor adjunto do The Daily Telegraph, um jornal de orientação conservadora, escreveu que a intervenção de May após o chumbo, pela segunda vez, do Acordo, foi "um exercício de auto ilusão que raiou o trágico" e que não tem condições para continuar em funções.

"Talvez, em momentos diferentes, ela tivesse sido uma boa primeira-ministra. Determinação e perseverança são qualidades que podem sempre ser utilizadas no interesse nacional, mas, neste caso, revelaram-se uma desvantagem", deplorou, lamentando a falta de qualidades políticas e diplomáticas.

O jornal The Times, de centro direita, num editorial próximo de um obituário político, deduzia que "em quaisquer circunstâncias normais" seria de esperar que May renunciasse após duas derrotas enfáticas.

"Sem confiança e autoridade, é difícil ver o que ela tem a oferecer, tendo sido triturada duas vezes. O Partido Conservador pode decidir agora que apenas um novo líder pode encontrar um caminho para um Brexit adequado", proclamava.

Theresa May, de 62 anos, já sobreviveu a duas investidas à sua liderança. Uma monção de censura interna no partido Conservador desencadeada pelos eurocéticos insatisfeitos com a abordagem moderada ao 'Brexit' e outra do partido Trabalhista de Jeremy Corbyn destinada a forçar eleições legislativas.

Quando sucedeu a David Cameron, nos dias imediatos ao referendo de 2016 que determinou o 'Brexit', Theresa May, foi considerada a escolha segura e competente, fama conquistada devido aos seis anos à frente do ministério do Interior e ensombrada recentemente pelo escândalo "Windrush".

Era descrita como uma política sóbria e eficiente, prometendo estabilidade e unidade no partido, mas dura nas convicções, o que lhe valeu do antigo colega Ken Clarke o epíteto de "mulher extremamente difícil", reputação que May invocou ao preparar as negociações com Bruxelas.

O espírito estoico é-lhe atribuído à educação austera mas plena de princípios como filha de um vigário da igreja anglicana, que depois estudou na universidade de Oxford.

Mas há quem lhe aponte o defeito de muitos políticos: o desejo de evitar um lugar inglório nos livros de História, mais não seja o de ter ficado em funções menos tempo do que o trabalhista Gordon Brown, precisando de resistir até pelo menos 28 de maio.

"É inquestionavelmente verdade que May falhou na sua tarefa - um acordo parece mais distante do que nunca e o Reino Unido está à beira do colapso da União, cenário que o mais ardente 'brexiter' está desesperado por impedir. Mas, ignorando o apontar de dedos, é realmente culpa dela que os partidos, o Parlamento e o país estejam todos irremediavelmente divididos?", questiona a biógrafa Rosa Prince.

As potenciais alternativas à frente do executivo, sejam Boris Johnson, Michael Gove, Jacob Rees-Mogg ou até Jeremy Corbyn, não são melhores, afirma, alertando para o risco de uma transição política nesta altura.

"Theresa May foi a escolha óbvia para liderar o país através do 'Brexit' no verão de 2016 por uma razão - porque não havia ninguém mais bem preparado do que ela. Nada mudou desde então", conclui.

O politólogo Tim Bale, da Universidade Queen Mary, louva a "paciência de santo" da líder conservadora, que frequenta regularmente a igreja, ironizando no uso da metáfora com a religião.

"O que é uma sorte, pois foi ela quem cometeu o pecado original de insistir após o referendo num 'Brexit' que não é suficientemente suave para os trabalhistas apoiarem nem é suficientemente duro para os [conservadores] ultra eurocéticos", resume.

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