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Ser criança numa das piores crises humanitárias da História

O Iémen é palco de uma guerra civil que dura há quatro anos com graves consequências para a sua população. As crianças são as vítimas mais vulneráveis deste conflito. O Notícias ao Minuto falou com a Save the Children, que já estava no terreno ainda antes da guerra começar e tem sido fundamental no apoio que presta às crianças, que acima de tudo "querem a paz".

Notícias ao Minuto

08:00 - 22/03/19 por Fábio Nunes 

Mundo Iémen

É uma das crises humanitárias mais graves da atualidade e uma das piores da História. A guerra no Iémen já dura há precisamente quatro anos. Os números são avassaladores, as imagens devastadoras e, no entanto, este é um conflito sobre o qual não se fala muito, perdido no meio da atualidade informativa.

Importa saber alguns factos e conhecer melhor a origem desta guerra. O Iémen é um dos países árabes mais pobres. Já o era ainda antes de o conflito começar e o panorama só se agravou depois do início da guerra civil que opõe o governo reconhecido pela comunidade internacional aos rebeles Houthis.

A disputa entre estes dois lados já vinha de trás. Desde 2004 que o governo do Iémen e os Houthis lutam. Mas, segundo a Al Jazeera, até 2015 o conflito era marcado por interrupções e acontecia no bastião dos Houthis, na província de Saada, no norte do Iémen.

A situação mudou em setembro de 2014 quando os rebeldes Houthis tomaram a capital do país, Sanaa. Tentaram logo de seguida apoderar-se da segunda maior cidade iemenita, Aden. A resposta militar mais organizada surgiu em março de 2015, quando uma coligação de estados árabes, liderada pela Arábia Saudita, lançou uma ofensiva que marcou o início da guerra no Iémen com o propósito de restaurar o governo e derrotar os Houthis.

Quatro anos depois o conflito perdura. As negociações de paz têm decorrido nos últimos meses e registaram-se alguns avanços. Mas não há sinais de um ponto final nesta guerra para desespero da população do Iémen, a grande vítima desta luta pelo poder.

A situação no terreno acompanhada pela Save the Children

Os números de vítimas mortais são muito díspares. A estatística oficial das Nações Unidas de março de 2018 aponta para 6.592 mortos e 10.470 feridos. Por outro lado, organizações internacionais fazem um balanço muito superior: entre 56 mil a 80 mil vítimas mortais.

As condições de um conflito destes não ajudam a perceber quem está mais próximo dos números reais e nem todas as organizações não-governamentais que avançam com dados estão no terreno. A Save the Children, fundada há 100 anos, é uma das que está de facto no Iémen. Já lá estava muito antes do cenário de uma guerra pairar sobre aquele país árabe.

Notícias ao MinutoOs bombardeamentos da coligação liderada pela Arábia Saudita mataram e feriram muitos civis© Reuters

A organização começou a trabalhar no Iémen em 1963, apoiando um hospital em Taiz, que ainda se mantém em funcionamento num país dilacerado pelo conflito. A Save the Children, como o nome indica, acompanha e ajuda as vítimas que menos compreendem as razões desta guerra, as crianças. Os seus números são assustadores. A organização refere que 85 mil crianças morreram de fome desde o início do confronto. Apesar de já terem tratado de quase 100 mil crianças que sofriam de mal-nutrição, a Save the Children lembra que 11 milhões precisam de ajuda urgente.

De forma a saber mais sobre o trabalho desta ONG no Iémen e a ter uma perspetiva de quem está mais a par das consequências da guerra naquele país, o Notícias ao Minuto entrou em contacto com Sylvia Ghaly, a diretora de Advocacia, Media e Comunicações da Save the Children no Iémen.

“A situação no Iémen é muito difícil, especialmente depois de quatro anos de escalada de conflito. O deslocamento, as doenças (já se registaram milhares de casos de cólera) e a ameaça de fome são fatores que contribuem para tornar a situação ainda mais difícil. Muitos funcionários públicos não recebem os seus salários desde setembro de 2016, os sistemas de saúde e de educação colapsaram, o mercado está à beira de colapsar e as pessoas esgotaram todos os seus recursos e estão a recorrer agora a mecanismo negativos para sobreviverem. O impacto nas crianças, claro, é mais devastador pois são as mais vulneráveis”, explica Sylvia Ghaly.

A responsável realça que a Save the Children “providencia serviços em seis setores de nove regiões administrativas tanto no norte como no sul” do Iémen. “Providenciamos serviços de saúde, nutrição, de WASH (água, saneamento e higiene), de segurança alimentar, proteção infantil e educação”, acrescenta.

Além da infraestrutura montada no terreno, os elementos da Save the Children desempenham um papel muito importante na forma como apoiam as crianças e como as ajudam a lidar com um conflito desta dimensão.

“Tentamos apoiar as crianças e as suas famílias para lidarem com esta crise humanitária tanto quanto podemos, mas a necessidade é sempre maior do que a nossa capacidade de resposta e os números crescem diariamente. As crianças dizem-nos que querem paz. Estão fartas de acordar a meio da noite com o som de bombardeamentos. Falam connosco sobre a sua esperança de viverem num Iémen em paz, num Iémen em que possam ir à escola para receber uma educação de qualidade, brincarem no recreio sem estarem preocupados com a sua segurança, e sonharem com um futuro pacífico e mais radiante”, frisa Sylvia Ghaly.

Notícias ao MinutoCrianças num campo de deslocados perto da cidade portuária de Hodeidah© Reuters

A Save the Children destaca um “maior interesse e melhor consciencialização das pessoas face à situação no terreno”, mas lembra que, por tratar-se da “maior crise humanitária do nosso tempo” como as Nações Unidas a descreveram, “o nível de interesse nunca é suficiente”.

Paz no horizonte?

Com as negociações de paz a serem mediadas pelas ONU, a Save the Children mostra-se “muito positiva e otimista”, mas há um passo importante que já poderia ter sido dado e que continua a prejudicar a população. “Pouco mudou no terreno em termos de facilitar a assistência humanitária e a situação humanitária continua a deteriorar-se rapidamente com 24 milhões de pessoas ou 80% da população a necessitar de algum tipo de ajuda”, refere a diretora de Comunicações da Save the Children no Iémen.

Sylvia Ghaly deixa um desejo que a organização partilha com todos os iemenitas. “Esperamos uma solução política pacífica para acabar com este conflito e trazer a tão necessária paz ao Iémen”.

Até que a paz se concretize e mesmo depois dos sons de balas e de bombardeamentos desvanecerem, a Save the Children vai continuar a servir de apoio e como uma das poucas barreiras de proteção que as crianças iemenitas têm. Na esperança de que as crianças possam voltar a brincar num Iémen pacífico.

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