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Uma câmara na fronteira pode bastar para reacender conflito na Irlanda

O 'backstop' é essencial para a paz na Irlanda porque a reintrodução de uma fronteira, mesmo que fosse apenas uma câmara de vigilância, pode evoluir rapidamente para um reacendimento do conflito, alerta a embaixadora da Irlanda, Orla Tunney.

Uma câmara na fronteira pode bastar para reacender conflito na Irlanda
Notícias ao Minuto

08:14 - 16/02/19 por Lusa

Mundo Embaixadora

O 'backstop' - uma cláusula de salvaguarda no acordo do 'Brexit' que visa garantir que não haverá uma fronteira física entre a Irlanda e a Irlanda do Norte se, até 2020, não tiver sido concluído um acordo sobre a relação futura entre o Reino Unido e a União Europeia - está no centro do impasse que tem impedido o voto favorável do parlamento britânico.

Irlanda, Reino Unido e todos os outros Estados-membros estão de acordo na importância de não haver uma fronteira física, com controlos aduaneiros, para não pôr em risco o Acordo de Sexta-Feira Santa, de 1998, que pôs termo a três décadas de conflito entre nacionalistas e unionistas.

Mas, porque o 'backstop' implica manter todo o Reino Unido na união aduaneira, setores do Partido Conservador alegam que ela vai manter o país indefinidamente vinculado às regras comerciais da UE.

"Acredite, assim que houver uma câmara na fronteira, a minoria que nunca aceitou o acordo de paz vai questionar porque foi ali posta. Depois, talvez tentem explodir a câmara, depois virá a polícia investigar quem tentou explodir a câmara, depois talvez tentem atacar a polícia. É muito fácil imaginar uma situação assim", explica Orla Tunney em entrevista à Lusa em Lisboa.

"A seguir vem o exército para proteger a polícia, que foi o que aconteceu da última vez", prossegue, referindo-se ao início do conflito na Irlanda do Norte nos anos 1970.

Nessa altura, conta, a presença do exército britânico na província destinava-se a apoiar as forças de segurança, manter a lei e a ordem.

"Mas, depois, o exército tornou-se ele próprio um alvo e toda a província passou a ter um ambiente altamente militarizado".

Qualquer pequena coisa, mesmo "algo que soa tão inofensivo como uma câmara" pode "transformar-se numa bola de neve".

"De repente, temos uma pequena infraestrutura. Mas depois constrói-se mais qualquer coisa à volta, mais qualquer coisa e mais qualquer coisa, e acabamos com enormes barreiras de arame farpado, torres de vigilância, soldados, armas, zonas desmilitarizadas, controlo de automóveis...", relata, para explicar como a escalada pode ser muito rápida.

"Há quem diga 'Oh, por favor, isso nunca vai voltar a acontecer'. Espero que estejam certos, mas, olhando para a história, temos de ser realistas e dizer que é muito arriscado", frisa.

O acordo de paz foi aprovado por mais de 70% dos irlandeses em referendos nos dois territórios, sublinha Orla Tunney, mas "ainda há pessoas que, por qualquer razão, rejeitam o acordo e preferem continuar na via da violência" e, "infelizmente, a experiência ensina-nos que aproveitam qualquer oportunidade".

"Uma bomba explodiu em Derry há algumas semanas. Felizmente não matou ninguém, mas podia ter morto", exemplifica.

A embaixadora critica por outro lado a rejeição por Londres da primeira proposta europeia de 'backstop', que previa a extensão do mercado único à Irlanda do Norte.

"Aquele canto do Reino Unido, que tem níveis acima da média de desemprego, pobreza ou exclusão social, tinha a oportunidade fantástica de ter o melhor de dois mundos: continuava a fazer parte do Reino Unido e ficava no mercado único".

A proposta foi recusada pelo governo de Theresa May, que viu nela uma ameaça à sua integridade territorial que separava a Irlanda do Norte do resto do reino.

"O governo irlandês está 100% comprometido com o que assinou no acordo de paz: só haverá uma Irlanda unida se e quando uma maioria das pessoas o escolher pelo voto. Portanto, não era de todo uma tentativa de arrebanhar sorrateiramente a Irlanda do Norte", frisa.

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