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Redes mosquiteiras de combate à malária cobrem túmulos em Moçambique

As autoridades espantam-se e as igrejas tentam reverter o cenário, mas, na cidade de Chimoio, as redes mosquiteiras de combate à malária passaram a cobrir túmulos, acompanhando quem as usava, mesmo depois da morte.

Redes mosquiteiras de combate à malária cobrem túmulos em Moçambique
Notícias ao Minuto

06:03 - 16/02/19 por Lusa

Mundo Chimoio

Em Nhauriri, Manjoro e Matequenha, principais cemitérios informais da capital de Manica, centro de Moçambique, a nova prática chama a atenção.

A vegetação cresce e toma conta do espaço e de boa parte dos túmulos, mas as redes mosquiteiras saltam à vista e são colocadas em jeito de tenda.

No interior, são colocados todos os objetos do falecido, em redor da campa.

Em vez de serem usadas no combate à malária, as redes são "esticadas" três dias após o enterro, num simbolismo que divide opiniões entre os praticantes e as igrejas.

"A rede (mosquiteira) no túmulo é aquela que o falecido usava", explica à Lusa Jorgina Vasco, uma moradora de Nhauriri, enquanto limpa a campa do seu ente querido.

Jorgina segue a crença de que "os bens dos mortos devem ser enterrados com eles" num processo a que chama "desapegar das lembranças".

O uso de redes mosquiteiras nos túmulos é recente nos cemitérios informais e tradicionais de Chimoio.

Até agora era comum os defuntos serem enterrados com os seus bens, sendo penduradas nas cruzes, por cima das campas, malas e outros utensílios.

Na urna tem sido costume seguir a roupa, bens preciosos e fotos - e não raras as vezes, dinheiro.

"As redes começaram a ser colocadas nos túmulos desde os finais do ano passado", diz à Lusa Nunes Juliasse, zelador no cemitério de Nhauriri, que se espanta com a situação.

Inicialmente "pensava que era uma forma de manifestação da população, pelas sucessivas mortes causadas pela malária".

"A situação passou a ser mais frequente já este ano" frisa, adiantando que as pessoas "são motivadas por antigas crenças, de que bens dos mortos podem trazer azares aos vivos", quando usados.

Entretanto, vários líderes religiosos em Chimoio consideram a nova prática "antibíblica", por acomodar "crenças tradicionais", que podem prejudicar o esforço no combate à malária.

"Como líder da igreja, sinto tristeza e preocupação, pelo mau uso das redes mosquiteiras nos cemitérios" diz à Lusa José Vasco António, pastor evangélico. "São redes que recebemos de doações para nos prevenir da malária", mas que "frequentemente são usadas, ainda novas, em campas para cobrir túmulos".

Por sua vez, António Macilau, representante do Conselho Cristão, em Manica, diz que com a proliferação do hábito, a população esta a menosprezar um dos métodos de prevenção e combate à doença mais mortífera nas comunidades moçambicanas.

"Há um problema de falta de conhecimento", defende.

"Nós vemos pessoas a usarem as redes mosquiteiras nas campas, para pesca e ou para vedação de hortas", diz António Macilau, apelando para que as igrejas continuem com o papel persistente, na consciencialização das comunidades sobre crenças nocivas.

A Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), uma organização não-governamental, também ligada ao combate à malária, reuniu líderes religiosos e comunitários em Chimoio, para, entre outros pontos, travar o uso de redes mosquiteiras nos cemitérios.

"Não é uma coisa que mude do dia para noite. Vamos ter que lutar para passar a mensagem", disse Dani Chirinza, diretor de projeto na FDC.

Uma proposta de lei, datada de 2011, aguarda apreciação pela Assembleia Autárquica de Chimoio para travar a proliferação de utensílios domésticos nos cemitérios locais.

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