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Bolsonaro? "Não somos nós que vamos alterar o destino político do Brasil"

O Brasil vive aquela que será a eleição mais polarizadora das últimas décadas. Portugal, que partilha com o Brasil língua e história, está atento ao que se passa do lado de lá do Atlântico. Mas Bruno Maçães lembra-nos que há que ter cautela na hora de fazer cenários – e que, na hora de votar, terão de ser os brasileiros a fazer e a conviver com as suas escolhas.

Bolsonaro? "Não somos nós que vamos alterar o destino político do Brasil"

Bruno Maçães vive atualmente em Pequim mas passou por Portugal por estes dias para apresentar ‘O Despertar da Eurásia’, a sua mais recente obra.

O Notícias ao Minuto esteve à conversa com o antigo secretário de Estado do Executivo de Passos Coelho, numa entrevista que poderá ler brevemente em Vozes ao Minuto. Mas antes de nos aventurarmos pelos caminhos da Eurásia, a conversa focou-se no momento político que está a marcar a atualidade.

É neste domingo, 28 de outubro, que os eleitores brasileiros voltam às urnas para eleger o próximo presidente do Brasil.

Jair Bolsonaro, o candidato de posições polémicas que tem sido apontado como figura da extrema-direita, lidera todas as sondagens contra o antigo prefeito de São Paulo e candidato do PT, Fernando Haddad.

Para Maçães, não há dúvida de que o atual momento da política brasileira nos traz algumas reminiscências da eleição de Donald Trump. De resto, admite que há “riscos” caso Bolsonaro seja o escolhido. Mas o ex-governante prefere manter-se “cauteloso” em assumir os piores cenários. E explica porquê.

Nenhuma sondagem nesta segunda volta deu a derrota de Jair Bolsonaro. O que podemos esperar deste momento político do Brasil?

Acho que nos faz pensar em momentos como a vitória de Trump. Ninguém conseguia prever. Lembro-me bem de aqui há uns meses Bolsonaro ser apresentado como alguém que seria incapaz de subir acima dos 30% e, subitamente, a partir de um dia para o outro, isso inverteu-se. Tornou-se claro que vai ganhar. Se estou preocupado? Sim, mas talvez não tanto como a maioria dos comentadores em Portugal, e por duas razões.

Quais são?

Parece-me que as instituições políticas no Brasil continuam sólidas. É uma democracia estabilizada. Não tem os freios e contrapesos que os Estados Unidos têm mas é uma democracia com instituições fortes e com um sistema judicial que funciona. Esse é o ponto número um.

O ponto número dois é que tenho sempre alguma relutância em acusar mais de metade do eleitorado de não saber o que é a democracia e de ter esta espécie de tentação permanente para eleger ditadores. Prefiro ser um pouco mais cauteloso quanto a isso porque me lembro também que esse foi o discurso antes da vitória de Trump e – no caso de Trump, especificamente – não me parece que exista uma ameaça à democracia americana. Se vai existir da parte de Bolsonaro ou não, os riscos parecem-me mais elevados. Isso é óbvio.

Em Portugal, mais de 40 mil brasileiros votaram na primeira volta. Se a primeira volta fosse decidida só por eleitores brasileiros em Portugal, Bolsonaro teria vencido com maioria à primeira volta. Como é que se explica a escolha feita, numa social-democracia europeia, por uma comunidade que por vezes sofre com discriminação no nosso país, em contra-ponto com o que veem na sua terra natal?

Bolsonaro teria ganho facilmente em Portugal à primeira volta. Não me surpreende de todo porque o elemento que coloca um freio à vitória de Bolsonaro é um receio sobre o futuro do Brasil, sobre a instabilidade ou o caos ou riscos para a democracia de uma vitória de Bolsonaro. Vi também números de norte-americanos a viver no Reino Unido que votaram facilmente em Trump.

Há um desejo de mudança, de reformar o Brasil de cima a baixo. Ora, um brasileiro que viva fora do país está mais disposto a correr esses riscos que essa mudança radical implica, porque está menos exposto.

E se o discurso de pendor mais ditatorial vier a verificar-se na realidade? Estamos a falar do país com mais falantes de língua portuguesa. Em que posição é que isto coloca Portugal?

Temos de ter consciência da nossa dimensão. Não somos nós que vamos alterar o destino político do Brasil. Temos também que fazer distinções importantes: há discursos de Bolsonaro que são inaceitáveis do ponto de vista ético e uma parte do discurso que é inaceitável do ponto de vista político e que tem que ver com a transformação de um regime político e com os riscos para a democracia.

São pontos diferentes.

Acho que Portugal tem de ser muito duro neste segundo ponto mas não no primeiro, porque na verdade também não nos compete a nós pronunciar-mo-nos sobre questões de política social ou cultural. Temos de saber fazer distinções apropriadas: ser duro nos pontos em que, por exemplo, temos o apoio de outros países europeus, mas com a consciência de que não é Portugal que vai levar o Brasil para um sítio diferente do que os brasileiros querem levar o Brasil.

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