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Anedonia. O sintoma preocupante e muitas vezes ignorado da depressão

Ir à praia, ao cinema, beber um copo de vinho com os amigos, sair para dançar, ler um livro, fazer compras... para muita gente, essas são atividades que geram imenso prazer. Mas, e se nunca sentisse prazer?

Anedonia. O sintoma preocupante e muitas vezes ignorado da depressão

Existe uma grande parte da população que é incapaz de sentir prazer. Como reporta a BBC News, tal é o  caso da biomédica Alice (nome fictício), de 40 anos. Diagnosticada com depressão em 2005, convive com um dos seus sintomas mais difíceis, a anedonia, caracterizada pela perda significativa ou incapacidade de sentir prazer em atividades que antes eram consideradas agradáveis.

"Sempre fui estranha. Na adolescência tinha momentos em que simplesmente queria ficar sozinha, trancada no quarto. Mas as coisas começaram-se a complicar quando chegou a altura de escolher uma profissão e, depois, qual especialização a fazer. Nada me atraía ou me dava satisfação, e a situação piorou de vez com o fim de um relacionamento. Naquele momento definhei". 

Sem saber o que fazer, Alice tentou o suicídio.

"Acabei por sobreviver, mas não tenho vontade de sair da cama, de viver. Perdi o desejo e o prazer por tudo". 

O que é anedonia?

Citada pela primeira vez em 1896 pelo psicólogo francês Théodule-Armand Ribot, a anedonia atinge, segundo o psiquiatra Luiz Scocca, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e da Associação Americana de Psiquiatria (APA), cerca de 70% dos pacientes com depressão. E os números da doença são altíssimos, sendo que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) afeta 322 milhões de pessoas em todo o mundo. 

"A anedonia é o sintoma nuclear da depressão. É um problema complicado e que varia de intensidade de acordo com a gravidade do transtorno. Isso significa que o paciente pode perder o prazer por uma coisa específica e que sempre gostou muito, como ouvir música e comer, ou por todas", explica.

O médico relata ainda que essa condição inibe os comportamentos saudáveis, fundamentais para uma vida plena e feliz.

"Com ela, a pessoa deixa de se relacionar com os outros, mantendo-se socialmente isolado, e passa a ter mais pensamentos negativos", acrescenta.

O que também ocorre é que o doente se torna indiferente consigo mesmo, não tendo apego por nada ou ninguém. O indivíduo parece estar emocionalmente vazio ou 'congelado', sem sofrer alterações de humor, independentemente do que aconteça ao seu redor. E nem sempre se dá conta disso - em muitos casos, são os familiares que observam e fazem o apontamento.

Tendo grande impacto na qualidade de vida, a anedonia provoca ainda uma sensação de desconexão com o mundo e, o que é pior, eleva o risco de suicídio. 

"Se o problema não for tratado logo e de forma eficaz, as chances de o depressivo atentar contra sua própria vida sobem consideravelmente, assim como de surgirem doenças associadas e abuso de substâncias entorpecentes. São fatores que se vão acumulando", analisa o psiquiatra da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, Alfredo Maluf Neto.

Apesar de não haver dados efetivos sobre a relação entre a falta de prazer e o número de suicídios, é importante destacar que eles têm aumentado de forma assustadora. A OMS informa que são cerca de 800 mil por ano, o que significa uma morte a cada 30 segundos no mundo. 

Causas

A anedonia nunca vem sozinha. Normalmente, é acompanhada de desânimo, cansaço, fadiga, apatia, diminuição de energia e dificuldade de concentração. E, apesar de ser o sintoma central para o diagnóstico da depressão mais severa, também pode acometer usuários de drogas e álcool, sobretudo durante as crises de abstinência, e quem sofre de esquizofrenia, neurastenia, Parkinson, cancro, stress pós-traumático, distúrbios alimentares e transtornos de ansiedade.

Ao contrário do que muita gente pensa, a condição não ocorre apenas em adultos, podendo afetar também crianças e adolescentes, e é mais comum em mulheres. Mas o que causa exatamente esse problema? Scocca comenta que a origem exata ainda não é totalmente conhecida.

"É uma questão neurobiológica, e o que sabemos por enquanto é que está associada à diminuição da atividade no circuito de recompensa do cérebro". 

Seu surgimento também parece estar ligado ao aumento da atividade na região frontal do córtex pré-frontal, que, entre outras funções, controla a inibição das respostas emocionais, e aos baixos níveis de dopamina, importante neurotransmissor responsável pelas sensações de bem-estar e prazer.

Tratamento

Por ser um sintoma, e não um transtorno propriamente dito, a anedonia obrigatoriamente necessita de ser tratada juntamente com a doença. No caso da depressão, antes de mais nada, explica a psiquiatra Doris Moreno, do Programa de Transtornos do Humor do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP), é necessário identificar o grau (leve, moderada ou grave) e o tipo.

"As depressões são heterogéneas e multifatoriais, por isso não existe um tratamento único. Fora que o que funciona para uma pessoa não necessariamente será bom para outra. No entanto, de maneira geral, o que propomos é o uso de fármacos, podendo ser antidepressivos, estabilizadores de humor e ansiolíticos, associados ou não a terapia", descreve.

Se estiver a sofrer de depressão, tiver pensamentos auto-destrutivos ou simplesmente necessitar de falar com alguém deverá consultar um psiquiatra, psicólogo ou clínico geral.

Pode ainda contactar a organização SOS Voz Amiga (213 544 545 - 912 802 669 - 963 524 660 / Diariamente das 16h às 24h Linha Verde gratuita - 800 209 899 / Entre as 21h e as 24h). 

Leia Também: Depressão no prato? Entenda como a alimentação afeta a saúde mental

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