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'Cão negro' de Churchill é real e 'morde'. Eis a epidemia do século XXI

"Sabe que o stresse, a ansiedade e a depressão podem gerar um burn out? Previna-se. Conhece os sintomas e os sinais de perigo?" São estas as questões que o médico João Bravo, que conversou com o Lifestyle ao Minuto, coloca no seu novo livro 'Burn Out - O tratamento natural para o Stress, a Ansiedade e a Depressão'.

'Cão negro' de Churchill é real e 'morde'. Eis a epidemia do século XXI

"O Burn out (ou burnout) é aquilo que as pessoas vulgarmente conhecem como 'esgotamento'. É um estado de exaustão física, emocional e mental. O conceito burn out foi descrito pela primeira vez em 1974 por Herbert Freudenberger. Burn out define-se como um estado de fadiga ou frustração motivado pela consagração a uma causa, a um modo de vida ou a uma relação que não correspondeu às expetativas", é assim que João Bravo descreve aquele que já pode ser considerado o grande mal dos tempos modernos e do século XXI. E Portugal, "não foge à regra. O esgotamento está a tornar-se uma epidemia em todo o mundo". 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou, aliás, no passado mês de maio que passou a incluir na lista de doenças o 'burn out', estado de esgotamento físico e mental causado pelo exercício de uma atividade profissional.

A entrada do 'burnout' (ou stress profissional) na nova classificação internacional de doenças da OMS, que vigorará a partir de 1 de janeiro de 2022, baseia-se nas conclusões de peritos de saúde de todo o mundo e foi adotada pela Assembleia-Geral da organização. 

Na classificação internacional de doenças da OMS, que serve de base para as estatísticas de saúde, o burnout surge na secção consagrada aos "problemas associados" ao emprego e desemprego, sendo descrito como "uma síndrome resultante de 'stress' crónico no trabalho que não foi gerido com êxito".

Porém, apesar de o burn out ser considerado um termo atual, a verdade é que o conceito é conhecido por ter afetado inclusive algumas figuras históricas. "Já Winston Churchill sofria com este problema e popularizou a expressão – 'cão negro' - como sinónimo de depressão e burn out ao descrever o seu sofrimento, uma vez que sofria desta patologia", refere o escritor. 

Embora o sintoma mais evidente da Síndrome de Burnout seja o esgotamento físico e emocional, nem sempre os sinais são tão claros e é isso que João Bravo pretende desmistificar no seu novo livro 'Burn Out - O tratamento natural para o Stress, a Ansiedade e a Depressão'. Para além, das causas que vão desde a alimentação, ao sedentarismo, até à falta de sono ou desidratação.

Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, o médico explora o conceito e o seu impacto na saúde mental e física dos indivíduos. 

Explique-nos o que é o burnout?

O burnout é aquilo que as pessoas vulgarmente conhecem como esgotamento. É um estado de exaustão física, emocional e mental. O conceito burnout foi descrito pela primeira vez em 1974 por Herbert Freudenberger e define-se como um estado de fadiga ou de frustração motivado pela consagração a uma causa, a um modo de vida ou a uma relação que não correspondeu às expetativas.

O burn out ou esgotamento é uma caraterística apenas dos tempos modernos? Ou considera que também poderá ter ocorrido em outros períodos da história?

Já Winston Churchill sofria com este problema e popularizou a expressão – 'cão negro' - como sinónimo de depressão e burn out ao descrever o seu sofrimento, uma vez que sofria desta patologia. Por volta de 2010, a OMS publicou um filme intitulado 'O cão negro', que pode ser visualizado no próprio site da instituição, que descreve o que as pessoas nesta situação enfrentam.

Quais são os sintomas do burnout?

O sintoma mais evidente da Síndrome de Burnout é o esgotamento físico e emocional, que acaba por se desdobrar noutros sintomas e atitudes negativas, tais quais como: agressividade, alterações bruscas de humor, Irritabilidade, problemas de concentração, lapsos de memória, ansiedade, pessimismo, baixa autoestima, dor de cabeça, enxaqueca, cansaço físico, sudação excessiva, palpitação, pressão alta, dor muscular, insónia, crises de asma, distúrbios gastrointestinais.

E as causas?

As causas podem ser imensas, é muito difícil isolar uma única causa. Sabe-se que a genética bem como o meio familiar onde se cresce pode influenciar. Contudo, as causas mais comuns são os excessos: excesso de trabalho, excesso de preocupações, excesso de stress, excesso de tentar agradar os outros, excesso de mentiras emocionais, e por aí fora. Vivemos num mundo extremamente competitivo e obcecado com resultados.

Que tipo de pessoas podem estar mais expostas a esse risco?

Regra geral, as pessoas perfeccionistas, com baixa autoestima, ou ainda pessoas com 'bom coração' são as que mais sofrem com este problema. As pessoas que não gerem bem os seus limites também são muito afetadas. Para além disso pessoas com problemas familiares, financeiros, conjugais ou laborais, também são mais propensas a esta patologia.

Nunca na história de toda a humanidade foram prescritos tantos ansiolíticos, antidepressivos e medicamentos para o cansaço como na atualidade

Os portugueses são especialmente afetados por este tipo de esgotamento?

O esgotamento está a tornar-se uma epidemia em todo o mundo e o nosso país não foge à regra. Nunca na história de toda a humanidade foram prescritos tantos ansiolíticos, antidepressivos e medicamentos para o cansaço como na atualidade. Mesmo assim, existem cada vez mais pessoas a sofrer deste problema e a tentar encontrar uma solução para resolvê-lo.

No seu livro fala sobre a Síndrome de Pensamento Acelerado, pode explicar no que consiste?

É o processo de pensamento involuntário que ocorre dentro da cabeça das pessoas e que faz com que o pensamento se torne contínuo e compulsivo: não conseguir deixar de pensar. Ora estão a pensar no passado, ora estão a pensar no futuro, e desta maneira deixam de viver o único momento que existe – o presente. Não ser capaz de travar os pensamentos traduz-se num sofrimento terrível. Esse ruído mental conduz à ansiedade, uma vez que traz consigo medos, inseguranças, insatisfações e pensamentos negativos. Posso afirmar que, hoje em dia, pensar tornou-se uma doença e é, para além de outros fatores, uma causa de esgotamento, quer físico, quer psíquico.

Notícias ao Minuto© Casa das Letras

Qual é o papel da tecnologia na pressão diário que os indivíduos sofrem?

Vivemos numa sociedade extremamente obcecada com demasiadas expetativas irrealistas. Ser o melhor, ter o melhor carro, ser o mais saudável, ter a melhor casa, o melhor telemóvel, o melhor físico, o melhor relacionamento, a melhor foto de capa das redes sociais, fazer as melhores festas, as melhores viagens, ser o mais rico, o mais atraente, o mais admirado, o mais produtivo, o mais, o mais, o mais e o mais... A grande questão é que esta obsessão pelo que é melhor, mais valorizado, obriga-nos a recordar constantemente que ainda não atingimos as nossas necessidades e que a nossa felicidade está dependente do 'se' e do 'quando': 'Se eu ganhar mais dinheiro'; 'se me sair o euromilhões'; 'quando ficar sem celulite'; 'quando atingir o peso ideal'; 'quando comprar aquele carro'; 'se eu tivesse aquela carteira'; 'se eu fizesse aquela viagem'; 'se eu fosse almoçar fora todos os dias'; 'se eu não tivesse de trabalhar'; 'quando tiver o último modelo de televisão'... e por aí fora.

A nossa felicidade está tão dependente do 'se' e do 'quando' que deixamos de viver no hoje, quando na realidade é a única coisa que efetivamente temos, e passamos a viver na ansiedade e no stresse associado a um futuro. Como se a nossa verdadeira felicidade só pudesse ser atingida se atingíssemos determinados objetivos.

É a sociedade que coloca esta pressão nos indivíduos ou as próprias pessoas?

Muitas vezes as pessoas que convivem connosco, bem como as redes sociais, a televisão e os outros média colocam-nos esta pressão e querem fazer-nos acreditar que a chave para a felicidade será encontrada quando tivermos um emprego melhor, um carro melhor, uma relação perfeita, filhos bonitos e bem-educados, e tomarmos cálcio para os ossos. O meio ambiente em que estamos inseridos faz-nos acreditar, e passa-nos essa informação constantemente, uma vez que estamos a toda a hora a ser bombardeados com anúncios na televisão, na rádio, nas redes sociais e até em publicações dos nossos amigos que nos levam a acreditar que a felicidade e a tranquilidade serão alcançadas quando tiver mais, mais, mais – comprar mais, ter mais coisas, as melhores coisas, fazer mais coisas, ser sempre mais. Isto conduz ao sentimento de falta, de necessidade. Este sentimento é ótimo para quem vende produtos, uma vez que vende mais, mas péssimo para nós porque estamos sempre a viver na expetativa e isso gera muito stresse e ansiedade. Na realidade, deixamos de viver o presente, importamo-nos mais com o supérfluo, com o falso, com as coisas superficiais, vivendo na perseguição de uma falsa imagem de felicidade e satisfação.

A Internet e as redes sociais são elementos pouco benéficos para a saúde mental dos indivíduos?

Existimos numa sociedade onde a cultura de consumo e prazeres imediatos, juntamente com o advento das redes sociais, acabaram por criar uma nova geração de pessoas que não se permite ter experiências negativas. Imagine que está a passar por uma experiência negativa e resolve olhar para o feed da sua rede social, o que é que vê? Se for como a maioria das pessoas, vê gente feliz porque conseguiu um novo emprego, uma selfie e numa praia maravilhosa, uns pais a carregarem o filho ao colo com um ar fresco e radiante, a felicidade de uns noivos recém-casados, vê tanta coisa positiva que o leva a pensar que realmente a sua vida não presta para nada – 'como é que é possível tanta felicidade e posts de tantas coisas super fixes e eu em casa de pantufas, com uma depressão em frente ao computador?'

No tempo dos nossos avós, as coisas não funcionavam assim, quando se sentiam menos positivos pensavam: 'bolas, hoje estou feito um caco. Bem, a vida é mesmo assim. Vamos lá cavar a horta que isto acaba por passar'. E a realidade é que na generalidade dos casos passava. Isto porque a informação era demasiado lenta e acabavam por não ter termo de comparação. Hoje as coisas não funcionam da mesma maneira, uma pessoa sente-se mal e é bombardeada com centenas de mensagens de pessoas felizes a viver uma vida plena e fascinante

A alimentação moderna é parte do problema?

Conhece a expressão: 'Nós somos o que comemos'? Pois bem, nunca essa frase festa tanto sentido como nos dias de hoje. Existem alimentos que pelas suas características, grau de toxicidade e quantidade de anti-nutrientes (roubam as nossas, vitaminas, minerais, sais minerais e outros nutrientes fundamentais), fazem aumentar, ainda mais, o nosso cansaço, a ansiedade e a irritabilidade, uma vez que descompensam o nosso sistema nervoso. Por outro lado, existem alimentos que ajudam a melhorar o nosso estado de ânimo e, ainda, nos ajudam a tratar as doenças que nos afetam. Sendo assim existem alimentos que devemos eliminar tais como a cafeína, chá, colas e bebidas alcoólicas, carnes vermelhas, enchidos, açúcar e hidratos de carbono simples (refrigerantes, rebuçados, pastilhas elásticas, pão branco, entre outros). Do outro lado, existem alimentos que devemos privilegiar: gérmen de trigo, pólen de abelha, levedura de cerveja, carnes brancas, peixes gordos, hortaliças e frutos secos.

Para si qual é o papel da psiquiatria para lidar com problemas como a depressão, ansiedade ou stress? Considera que a toma de fármacos pode ajudar?

Nunca na história de toda a humanidade foram prescritos tantos ansiolíticos, antidepressivos e medicamentos para o cansaço como na atualidade. Mesmo assim, existem cada vez mais pessoas a sofrer deste problema e a tentar encontrar uma solução para o resolver. Como me disse uma vez um psiquiatra de renome, os ansiolíticos e os antidepressivos podem fazer sentido em alguns casos, contudo, dificilmente um paciente pode ser tratado só com medicação. A medicação é uma ferramenta importante, que pode fazer sentido em determinado momento, mas, se não se não se procurarem outras formas de tratar e reduzir os níveis de ansiedade e stresse, o problema pode persistir até à exaustão total. Existem técnicas, algumas das quais eu abordo no livro, para aprender a relaxar e que, se fizer parte da nossa rotina, nos ajuda a aliviar a tensão, a ansiedade e a angústia.

No seu livro fala de outras alternativas para lidar com burnout, como mudar os hábitos alimentares, a importância do sono, da água ou do exercício físico. Fale-nos mais sobre esses métodos alternativos?

Relativamente à agua, quando a ingerimos, o corpo envia ao cérebro uma mensagem positiva que ajuda a melhorar o humor e a diminuir o cansaço. Uma das causas associadas ao cansaço pode ser a desidratação. A água ajuda a eliminar as toxinas e os resíduos que se encontram dentro do organismo. Muitas vezes a razão para as dores de cabeça também se deve à falta de água. A água é mesmo vital para o funcionamento correto do nosso organismo. Beba no mínimo oito copos de água por dia.

Relativamente ao exercício físico, sabe-se que, níveis elevados de stresse dificultam as ligações entre os biliões de neurónios que existem no nosso cérebro. Verificou-se também que pacientes que sofrem de depressão têm certas áreas do cérebro contraídas. Por outro lado, praticar exercício físico, nem que seja apenas meia hora de caminhada, liberta um fluxo de neuroquímicos que ajudam a reverter este processo além de melhorar as funções cognitivas no geral. A sensação de bem-estar sentida após a prática de exercício físico deve-se ao facto de este aumentar a libertação de endorfinas, que ajudam também a regularizar o sono.

O sono deveria ser um processo totalmente natural, contudo, num estudo realizado com milhares de pessoas, concluiu-se que apenas 30% dos analisados adormeciam com facilidade, dormiam bem, acordavam revitalizados e cheios de energia. Os outros 70% queixavam-se de insónia, dificuldade em adormecer, dificuldade em manter o sono, sono agitado, espasmos musculares, sonhos confusos e cansaço ao despertar. Alguns referiam que acordavam mais cansados do que quando se deitaram. A insónia, ou má qualidade do sono, está-se a tornar numa epidemia mundial que sem dúvida nenhuma conduz a diversas patologias, dentre as quais a depressão e o burn out. Na realidade, não se sabe qual é que conduz a qual uma vez que a depressão e o burn out conduzem à insónia, mas o contrário também se aplica. Uma pessoa que sofra de insónia acabará por sofrer de cansaço, esgotamento mental e psíquico e também terá sintomas ansiosos depressivos.

Como é que a respiração pode ser uma fonte de energia?

Quando respiramos de forma regular, tranquilamente e com calma, conseguimos irrigar melhor o cérebro, aumentando desta forma a performance intelectual, para além de ajudar a reduzir os níveis de ansiedade e irritabilidade. Sugiro que pratique a respiração consciente de meia em meia hora, que consiste em fazer dez inspirações e dez expirações, sentindo o ar a entrar nos pulmões.

Que outras medidas o cidadão comum pode incorporar no dia-a-dia para se sentir melhor física e psicologicamente?

Existem várias medidas que podem ser implementadas. Basicamente é isso que explico no meu livro tais como a alimentação, o exercício físico, o relaxamento, a meditação, a suplementação. Creio que devemos viver mais para nós, com menos tecnologia e sobretudo – estar-se nas tintas para o que os outros pensam de nós. Parece um processo simples, mas exige treino. O livro foca-se e ensina a por em prática todos estes aspetos, sem 'roubar' tempo a o nosso dia, que já por si é bastante preenchido.

A depressão já é considerada pela OMS como a grande epidemia do século XXI, havendo milhões de indivíduos em todo o mundo a padecer desta condição debilitante, como é que acha que este problema poderia ser invertido a nível social e até governamental?

O primeiro passo será consciencializar a sociedade, os governos e as empresas que a depressão e o burnout são doenças como qualquer outra doença física e por essa questão, as pessoas que sofrem com estes problemas têm o direito de ser aconselhadas e a receber os mesmos cuidados terapêuticos que são prestados no caso de qualquer outra doença. Deveriam apostar mais em técnicas de gestão de stresse e ansiedade, incentivar o exercício físico, a boa alimentação e sobretudo, valorizar as pessoas pelo seu mérito, bem como pelos resultados obtidos e não tanto pelo número de horas que trabalham. No fundo, é necessário reduzir a pressão a que as pessoas estão expostas.

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