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O médico explica: Tudo o que deve saber sobre o Cancro do Colo do Útero

Sabia que, em Portugal, o Cancro do Colo do Útero é responsável pela morte de uma mulher por dia? A Consultora de Ginecologia e Obstetrícia Teresa Fraga, falou em pormenor com o Lifestyle ao Minuto sobre aquele que é o segundo ginecológico maligno mais frequente nas mulheres portuguesas com menos de 50 anos.

O médico explica: Tudo o que deve saber sobre o Cancro do Colo do Útero
Notícias ao Minuto

08:30 - 12/02/19 por Liliana Lopes Monteiro  

Lifestyle Entrevista

"O cancro do colo do útero tem sempre como causa primeira uma infeção com um vírus – o Vírus do Papiloma Humano – a que nos referimos habitualmente pela sigla HPV. Estes vírus existem há milhares de anos e infetam os homens e as mulheres de uma forma muito comum. Existem mais de 40 vírus HPV que infetam o aparelho genital feminino e desses só cerca de 14 é que estão implicados nestes cancros (vírus de risco oncogénico). Destes, o HPV 16 e o HPV 18 são responsáveis por mais de 72% dos casos de cancro do colo e o HPV 31, 33, 45, 52 e 58 por mais cerca de 20%", explica a ginecologista. 

Todos os anos, a nível mundial, estima-se que ocorram 530 mil novos casos de Cancro do Colo do Útero. Em Portugal, a incidência é de cerca de 720 novos casos por ano, sendo que 390 acabam por ser fatais.

O Cancro do Colo do Útero é causado por uma infeção persistente do Vírus do Papiloma Humano (HPV), - como refere Teresa Fraga - que poderá levar a lesões e, caso não sejam detetadas e tratadas precocemente, poderão evoluir para Cancro.

Um Programa Nacional de Vacinação bem implementado e bem sucedido, tal como existe em Portugal, constitui uma forma altamente eficaz de prevenção primária do Cancro do Colo do Útero e de outras doenças associadas à infeção por HPV, sendo que Portugal é um dos países, a nível mundial, com maior taxa de cobertura vacinal, consistentemente acima dos 85%. A vacina inserida no Programa Nacional de Vacinação (PNV) confere uma percentagem de proteção de 90% para o Cancro do Colo do Útero

Na entrevista que se segue Teresa Fraga explica tudo aquilo que deve saber, sobre este tumor muitas vezes mortal, incluindo sintomas, fatores de risco, tratamentos e o prognóstico da patologia para o futuro. 

Em que consiste o cancro do útero?

Cancro é a designação de uma alteração do desenvolvimento normal dos tecidos do corpo humano, na qual as células – que são as unidades mais pequenas destes tecidos –, deixam de perceber que vivem em comunidade e começam a multiplicar-se de uma forma desordenada, descontrolada e egoísta, fazendo com que o órgão a que pertencem perca a sua forma, a sua função e o seu aspeto normais e se transforme numa massa (tumor). Existem tumores benignos mas, nos cancros, este tumor é maligno porque pode destruir o órgão a que pertence e invadir (alastrar-se) aos órgãos à sua volta e mesmo lançar células cancerosas na circulação, dando origem a tumores noutros órgãos distantes – metástases.

O cancro do colo do útero é, portanto, este fenómeno localizado no colo do útero, que é a parte do útero que se situa no fundo da vagina e que se vê nos exames ginecológicos quando se coloca o espéculo.

Que órgãos afeta?

Como o próprio nome indica, o órgão de origem do cancro do colo do útero é o colo do útero. Por isso, o colo é o primeiro afetado. No entanto, a pergunta tem razão de ser se pensarmos que o processo de crescimento do Cancro do Colo do Útero é maioritariamente feito para baixo, ou seja, o órgão mais frequentemente afetado quando há um processo invasivo é a vagina. Depois, pode afetar também os paramétrios – tecidos laterais ao colo do útero – e, em estádios mais graves e avançados, os órgãos vizinhos: a bexiga e o recto.

Quais são os sintomas deste tipo de tumor?

Os sintomas dos tumores malignos dependem sempre da fase em que estão. Nas fases precoces, enquanto o cancro tem dimensões muito pequenas e é tratável, este tumor é assintomático, ou seja, silencioso, sem queixas, podendo permanecer assim durante muito tempo. Em mulheres que não tenham atividade sexual, a ausência de sintomas pode mesmo acompanhar fases muito avançadas.

Quando já existem queixas – que são perdas de sangue espontâneas pela vagina ou depois das relações, corrimento abundante, queixas urinárias, dores ou peso no baixo ventre –, o prognóstico deste tumor é reservado, porque isto pode querer dizer que o tumor está numa fase mais avançada.

Há que ter em mente que a causa necessária para o cancro do colo do útero é uma infeção a HPV. Necessária, mas não suficiente! Quais são as causas para o aparecimento desta patologia?

O cancro do colo do útero tem sempre como causa primeira uma infeção com um vírus – o Vírus do Papiloma Humano – a que nos referimos habitualmente pela sigla HPV. Estes vírus existem há milhares de anos e infetam os homens e as mulheres de uma forma muito comum. Existem mais de 40 vírus HPV que infetam o aparelho genital feminino e desses só cerca de 14 é que estão implicados nestes cancros (vírus de risco oncogénico). Destes, o HPV 16 e o HPV 18 são responsáveis por mais de 72% dos casos de cancro do colo e o HPV 31, 33, 45, 52 e 58 por mais cerca de 20%.

Portanto, há que ter em mente que a causa necessária para o cancro do colo do útero é uma infeção a HPV. Necessária, mas não suficiente! E ainda bem que não chega uma infeção por HPV para se ter um cancro do colo do útero, porque, como já dissemos, a infeção por HPV é uma realidade muito frequente em homens e mulheres após o início das relações sexuais. Cerca de 70-80% de nós teve, alguma vez na vida, contacto e contaminação ou mesmo infeção por HPV, mas, na grande maioria dos casos, as nossas defesas (imunidade) eliminam estes vírus sem que eles provoquem grande alteração. Só cerca de 1-2 % vêm a desenvolver lesões pré-malignas (que podem ou não vir a dar origem a cancros).

Existem fatores de risco que contribuem para o seu aparecimento?

Existem sim, porque, como dissemos, se o sistema imunitário estiver competente, mesmo após a tal infeção a HPV, não vai acontecer um cancro do colo do útero. Então, os fatores de risco têm a ver com causas que diminuem a capacidade de defesa do organismo, permitindo a persistência da infeção a HPV e a sua entrada nas células provocando as tais perturbações de desenvolvimento de que falamos na primeira resposta.

Assim, enquanto fatores de risco, o mais importante a ter em consideração é não ter feito a vacina contra o HPV (a nonavalente protege de cerca de 92% dos casos de cancro do colo), sendo esta prevenção primária; o segundo mais importante é não fazer o rastreio das lesões prémalignas – prevenção secundária – deteção de HPV (teste de HPV) e / ou teste de Papanicolau (citologia).

Outros fatores importantes são a idade de início das relações sexuais, os múltiplos parceiros, não usar preservativo, tabagismo, uso de contracetivos orais por muito tempo, infeções vaginais de repetição, doenças que diminuam a imunidade – HIV positivos –, diabéticos, pacientes sob terapêutica com corticosteróides, transplantados, etc .

Em Portugal surgem cerca de 720 novos casos por ano e existem 390 mortes por cancro do colo do útero, o que significa que morre uma mulher por dia com este tipo de doença

Geralmente surge em que idade?

O cancro do colo do útero é o segundo mais frequente em Portugal em mulheres em idade jovens (abaixo dos 50 anos). Em países em desenvolvimento, este tipo de cancro é mesmo o mais frequente. Mas, atenção, porque pode surgir em qualquer idade – é muito raro abaixo dos 25 e, em mulheres rastreadas, acima dos 70.

Em Portugal qual é a taxa de incidência deste tipo de cancro?

Em Portugal surgem cerca de 720 novos casos por ano e existem 390 mortes por cancro do colo do útero, o que significa que morre uma mulher por dia com este tipo de doença.

E no mundo?

No mundo, são 530 mil os novos casos de cancro do colo e cerca de 250 mil mortes por ano. Trata-se de uma doença prevenível, pelo que cancros que se podem prevenir não podem continuar a existir!

É geralmente fatal?

Como em todos os tipos de cancro, o prognóstico, ou seja, a perspetiva de sobrevida varia com muitos fatores mas o mais importante é a fase em que a doença é detetada. Pelo menos neste tipo de cancro, as fases precoces da doença têm um bom prognóstico e permitem tratamentos conservadores (possibilitando que as mulheres mantenham qualidade de vida e, eventualmente, a sua fertilidade).

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico de qualquer tipo de cancro é feito através de uma biópsia. Uma biópsia é a recolha de um pedacinho da lesão que, no caso do colo do útero, é feita durante um exame ao espéculo. Idealmente, nas fases precoces da doença, por exemplo, nos cancros 'in situ' (fase muito inicial da doença assintomática e não visível a olho nu) esta biópsia deverá ser dirigida por colposcopia, que é um exame que permite a identificação do sítio em que a lesão é mais grave e é nesse local que deve ser feita a recolha. Este tecido é depois analisado ao microscópio e então o cancro é classificado e feito o diagnóstico final.

Quais são os tratamentos mais eficazes?

A escolha do tipo de tratamento e a eficácia dos mesmos são também muito dependentes da fase em que a doença é detetada (mais até do que da idade e restantes características da doente, embora estes parâmetros também tenham que ser tidos em conta).

De uma simples conização (a remoção de um fragmento do colo do útero) – que pode ser eficaz nos estádios mais precoces –, passando pela remoção de todo o colo (traquelectomia), com mais ou menos tecidos adjacentes (radical) pela cirurgia, remoção de todo o útero (histerectomia) com extração dos tecidos adjacentes e gânglios (pélvicos e lomboaorticos) e tratamentos complementares de quimioterapia e/ou radioterapia. Atualmente, em casos raros, a remoção de todos os órgãos pélvicos, a exenteração. Todos são equacionáveis e mais ou menos eficazes. Não há doenças, há doentes…

Há um dado que faz toda a diferença: a existência da vacina profilática que previne a grande maioria (se não a totalidade) destas doençasQual é o prognóstico para o futuro, há esperança de se vir a encontrar uma cura?

Em termos de cura, depois de a doença existir, a cura é sempre condicionada por vários fatores. Falou-se de vacinas terapêuticas que estão em estudo, mas ainda não estão disponíveis para população geral. Mas há um dado que faz toda a diferença: a existência da vacina profilática que previne a grande maioria (se não a totalidade) destas doenças.

Aí a aposta não é na cura mas sim na prevenção: a eliminação do cancro do colo do útero é uma realidade que se pode perspetivar num futuro mais ou menos próximo, conforme a capacidade de difundir a vacina. Em Portugal, a taxa vacinal no PNV a meninas está acima dos 85% e o alargamento da vacinação gratuita aos rapazes permitem-nos pensar num futuro sem cancros do colo (e numa diminuição dos outros cancros relacionados com o HPV – vagina, vulva, ânus, pénis, orofaringe).

No resto do mundo, há que seguir o nosso exemplo e o da Austrália, que, tendo sido pioneira na vacinação até aos 26 anos, está atualmente a comprovar os resultados desta ação com diminuições significativas das lesões precursoras e mesmo dos números de cancro do colo do útero.

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