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O médico explica: Tudo o que deve saber sobre cancro na cabeça e pescoço

A médica oncologista Cláudia Margarida P. Vieira, clínica no Instituto Português de Oncologia do Porto Francisco Gentil (IPO-PORTO) falou em pormenor com o Lifestyle ao Minuto sobre o cancro da cabeça e pescoço - o oitavo cancro mais comum em Portugal, que deixa profundas marcas, não só físicas, mas também psicológicas nos doentes.

O médico explica: Tudo o que deve saber sobre cancro na cabeça e pescoço
Notícias ao Minuto

08:40 - 11/09/18 por Liliana Lopes Monteiro  

Lifestyle Entrevista

Todos os anos registam-se mais de 1.800 novos casos de cancro da cabeça e pescoço em Portugal, que mata três portugueses por dia. Este tipo de cancro foi, durante anos associado ao tabagismo e consumo excessivo de bebidas alcoólicas, mas, hoje em dia, embora 85% das vítimas continuem a ser fumadores ou ex-fumadores, afeta pessoas mais jovens (30-45 anos) que não fumam e não bebem.

Aliás, o cancro da cabeça e pescoço é a quarta patologia com maior incidência em Portugal em indivíduos do sexo masculino. Pode localizar-se na cavidade oral, orofaringe, hipofaringe, nasofaringe, laringe, seios perinasais, glândulas salivares e envolvimento das cadeias ganglionares cervicais por um tumor primário oculto, iniciando-se, geralmente, na mucosa e crescendo por infiltração local. Os  principais sintomas, facilmente confundidos com sintomas de outras doenças, podem ser lesões que não curam (cavidade oral), dor e dificuldade na deglutinação, rouquidão, dor de garganta e/ou ouvido persistente, tosse, dispneia e uma tumefação cervical.

A médica oncologista Cláudia Margarida P. Vieira partilhou com o Lifestyle ao Minuto tudo aquilo que deve saber, sobre esta doença fatal que não discrimina sexo ou idades. 

Existem mais de 30 áreas dentro da cabeça e pescoço onde o cancro se pode desenvolver. Explique-nos melhor como este processo se desenvolve.

O cancro de cabeça e pescoço (CCP) é mais frequentemente do subtipo espinocelular ou epidermóide e atinge a cavidade nasal, nasofaringe, cavidade oral, faringe e laringe. Neste tipo de cancro, não estão incluídos os tumores do cérebro (ou sistema nervoso central). Se considerarmos cada localização em particular, estes tumores são considerados raros segundo a definição da Organização Mundial de Saúde. Os aparelhos respiratórios e digestivos são revestidos por um epitélio (camada superficial de células), que, quando sujeito à ação de cancerígenos, como o álcool, o tabaco ou a inflamação crónica associada à infeção pelo Vírus do Papiloma Humano (HPV), sofre gradualmente alterações negativas. Essas alterações permitem às células do epitélio de revestimento deixar de funcionar normalmente, tornando-as agressivas e invasivas - adquirem a capacidade de viajar pelos vasos sanguíneos ou linfáticos. Muitas vezes, o paciente tem vários focos tumorais, em diferentes órgãos, simultaneamente, porque ocorre um fenómeno de cancerização de campo, por exemplo todo o epitélio exposto ao tabaco está em risco.

Os principais sintomas são facilmente confundidos com sintomas de outras doenças e podem ser negligenciados até fases avançadas

Quais são os principais fatores que contribuem para a incidência do cancro da cabeça e do pescoço?

Os pacientes que apresentam maior risco são os fumadores, particularmente se associam o consumo de álcool, que devem ser referenciados para consulta de evicção tabágica. O risco associado ao tabaco é favorecedor de vários cancros - 90% dos doentes têm histórico de tabagismo e um risco 5 vezes superior a desenvolver cancro na cavidade oral, orofaringe e hipofaringe e 10 vezes da laringe. Esse risco mantem-se mesmo após deixarem de fumar, pelo que as orientações internacionais recomendam um seguimento apertado dos ex-fumadores durante um período de cerca de 15 anos.

Embora, hoje em dia, 85% das vítimas continuem a ser fumadores ou ex-fumadores, estes tumores afetam também pessoas mais jovens (30-45 anos) que não fumam e não bebem. São doentes em risco: os doentes imunossuprimidos (por outras doenças ou tratamentos), aqueles com infeção pelo HPV e os doentes com lesões pré-malignas (leucoplasia ou eritroplasia), que podem anteceder o cancro cerca de 6 a 8 anos. Estes pacientes devem ser observados regularmente pelo médico para despiste de CCP.

Quais são os principais sintomas deste tipo de cancro?

Os principais sintomas são facilmente confundidos com sintomas de outras doenças e podem ser negligenciados até fases avançadas. Não é incomum, o paciente tomar vários anti-inflamatórios e até antibióticos sem sucesso antes do diagnóstico de cancro.

Um sintoma ou sinal que permanece mais do que 3 semanas (e sem causa conhecida) justifica uma consulta médica, com particular atenção para queixas de nariz entupido, sangramento (hemorragia) nasal, língua dorida, feridas (úlceras) e/ou manchas vermelhas ou brancas na cavidade oral, dificuldade em engolir, dor de garganta, rouquidão persistente e caroços (nódulos) no pescoço.

Que cuidados devemos ter como forma de prevenção?

A prevenção começa com uma boa higiene oral e saúde dentária e um auto-exame regular da cabeça e do pescoço. No auto-exame devemos procurar mudanças na cor da pele e mucosa da cavidade oral, manchas, caroços ou endurecimentos que não desaparecem e feridas/ sangramentos que não cicatrizam em 20 ou 30 dias (mesmo que não causem dor). Deve-se, igualmente, observar os lábios em frente de um espelho, o céu-da-boca, a língua (de frente e dos lados), o pavimento da boca (debaixo da língua), a face interior das bochechas e por último apalpar o pescoço e a região por baixo do queixo.

 Morrem três pessoas por dia em Portugal devido a esta doença Em que estádio é que é mais comummente diagnosticado?

Atualmente, dois em cada três pacientes com CCP são diagnosticados em estado avançado, e a maioria destes não viverá mais do que cinco anos. Um diagnóstico e tratamento precoces podem melhorar a taxa de sucesso.

Quais são as hipóteses de sobrevivência? E quais são as sequelas para os doentes?

Na Europa, existem cerca de 143 mil casos de cancro da cabeça e do pescoço, ocorrendo mais de 68.000 mortes em cada ano. Em Portugal, mantemos taxas de incidência e mortalidade das mais elevadas da Europa: 8º cancro mais comum, com 1.800 novos casos por ano. Morrem três pessoas por dia no país devido a esta doença. O homem é mais afetado, com uma incidência bruta (em 2015) de 52 casos por 100.000 habitantes/ ano e uma taxa de mortalidade de 20 pessoas por 100.000 habitantes/ ano (4ª patologia com maior incidência). Na última década, a sobrevivência global aos cinco anos aumentou de 40 para 56%, quando analisados todas as localizações e estádios da doença. Em fases (estádios) iniciais da doença, há uma taxa de sobrevivência de 80 a 90%.

O tratamento do cancro de cabeça e pescoço deixava várias sequelas a nível estético e funcional (a nível da respiração, alimentação e comunicação). Uma sequela muito temida é a que resulta da laringectomia total (retirada total da laringe), com impacto definitivo na fala e necessidade de colocação de uma prótese fonatória para permitir a comunicação. Mas o tratamento dos tumores da cavidade oral e orofaringe podem também afetar a modulação da voz, sendo necessário a reabilitação dentária e um programa de terapia da fala para tornar a voz percetível. A modernização dos aparelhos e planos de tratamento da radioterapia permitiram minimizar as sequelas associadas a este tratamento (exemplo fibrose cervical e xerostomia ou boca seca).

Quais são os principais tratamentos e mais eficazes?

O tratamento mais eficaz é a cirurgia. Se a doença for suficientemente pequena, poderá ser retirada na totalidade e com margens de segurança, sem grandes sequelas. Mas, frequentemente, o doente necessita de apoio da cirurgia plástica, para reconstrução das estruturas envolvidas.

Em alguns casos de doença localmente avançada e no sentido de evitar uma cirurgia mutilante (por exemplo com retirada de toda a laringe), o doente poderá realizar radioterapia com quimioterapia radiossensibilizante.

No caso de doença avançada, com metastização à distância (mais frequentemente para o pulmão e osso), os progressos na terapêutica multimodal (radioterapia, cirurgia, quimioterapia e imunoterapia) têm permitido aumentar a taxa de sobrevivência.

Fale-nos da imunoncologia?

Após quase uma década sem a aprovação de novos fármacos para o tratamento do cancro espinocelular ou epidermoide da cabeça e pescoço, foi com grande entusiamo que os Oncologistas assistiram à apresentação dos dados dos primeiros estudos com pembrolizumab e nivolumab. Estes fármacos pertencem a uma nova classe de medicamentos contra o cancro, conhecida por imunoncologia.

A imunoncologia não é quimioterapia ou radioterapia, é imunoterapia que funciona ajudando o sistema imunitário do paciente a lutar contra o cancro - estimulando as defesas naturais do corpo, consegue-se ajudar o sistema imunológico a aumentar a sua eficácia na deteção das células cancerígenas, evitando que o cancro se espalhe. Este tratamento apresenta, ainda, menos efeitos secundários que as terapêuticas tradicionais.

Estes fármacos estão aprovados para tratamento da doença avançada, particularmente metastizada. Mas estão em curso vários estudos, por exemplo, para associação destes medicamentos à radioterapia e quimioterapia, de forma a aumentar a taxa de cura, em estádios mais iniciais.

Só uma sociedade empenhada poderá combater este flageloComo é que este tipo de cancro afeta os pacientes física e psicologicamente?

No momento do diagnóstico, muitos dos nossos doentes encontram-se muito fragilizados a nível físico, pela disfagia, dificuldade a deglutir e consequente emagrecimento. O seguimento por Nutrição é obrigatório e frequentemente é necessário a colocação de uma sonda nasogástrica ou gastrostomia (tubo no estômago) para melhorar o estado geral e nutricional do paciente antes do tratamento. O impacto na função respiratória associado ao tumor e às sequelas a nível pulmonar do tabagismo obrigam também à implementação de um programa de evicção tabágica e reabilitação respiratória, para diminuir as complicações pós-operatórias e as sequelas dos tratamentos. O isolamento social associado ao impacto estético e funcional do tumor e das sequelas dos tratamentos deve também ser monitorizado. Estes pacientes devem ser acompanhados por uma equipa multidisciplinar, que para além das especialidades associadas ao tratamento, deve incluir apoio de Estomatologia, Nutrição, Medicina Física e Reabilitação, Terapia da Fala, Pneumologia, Psicologia, Psiquiatria, Serviço Social e Enfermagem Especializada.

Estimativas para 2020 indicam que a incidência de cancro da cabeça e do pescoço aumentará em 30%. Como é que esta tendência pode ser contrariada?

Só uma sociedade empenhada poderá combater esse flagelo. As campanhas antitabágicas e sobre o consumo excessivo de bebidas alcoólicas devem começar logo no jardim-de-infância, pois as crianças são muito sensíveis à noção de saúde, adoção de hábitos saudáveis e implementação de medidas de prevenção do cancro e de outras doenças. Para os adultos, deve-se manter a promoção de campanhas frequentes de sensibilização e alerta para os principais sintomas e sinais. Devemos fomentar o fácil acesso a consultas de evicção tabágica, desintoxicação de álcool e drogas, e consultas de diagnóstico precoce. Desde Janeiro de 2017, as meninas com 10 anos de idade, residentes em Portugal, tem acesso, de forma gratuita, através do Serviço Nacional de Saúde, à vacina 9-valente contra o HPV. Acreditamos, por isso, que a inclusão da vacina contra o HPV no Plano Nacional de Vacinação, mesmo ainda apenas disponível para as raparigas, permitirá, a longo prazo, também diminuir a incidência do cancro da cabeça e pescoço.

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