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"Jantei na mesma mesa da Ivana Trump, atores de Hollywood e príncipes"

Grande parte das pessoas conhece Paula Bobone pelas intervenções que faz em televisão relativamente a figuras públicas ou regras de etiqueta. Contudo, aos 72 anos, a mesma garante que sempre foi muito mais do que isto. A sua carreira, rica em lugares, pessoas e relações foi o assunto que ocupou a conversa que se segue.

"Jantei na mesma mesa da Ivana Trump, atores de Hollywood e príncipes"
Notícias ao Minuto

07:00 - 25/11/17 por Mariline Direito Rodrigues

Fama Paula Bobone

Paula Bobone é uma pessoa igual a si mesma: única. O Fama ao Minuto esteve à conversa com a escritora, professora (entre tantas atividades que já desempenhou) no Grémio Literário, no Chiado. Foi num ambiente acolhedor, que remetia para outras décadas, que Paula nos recebeu com um sorriso e com a boa disposição - com um toque de ironia - que lhe é característica. A conversa veio a propósito do seu novo livro, no entanto, aquela que ficou conhecida por ser a 'rainha da etiqueta' revelou um outro lado seu: o de mulher solitária, que deseja partilhar com os outros a sua "lógica", leia-se, conhecimento.

A Paula acabou de lançar o seu mais recente livro, ‘Domesticália’. Do que fala em concreto?

Tal como o nome indica fala sobre a vida doméstica, mas tem ali um sufixo, uma terminação - ‘ália’ - que já percebi que está a fazer confusão às pessoas. Há imensas palavras que terminam assim, no próprio livro conto a origem das mesmas. Sou uma mulher não de cultura, mas da própria cultura, porque estudei na Faculdade de Letras, sou do tempo em que se aprendia latim ou grego. Acho muito importante as pessoas conhecerem [a origem das palavras]. Domesticália é, portanto, tudo o que trata a vida doméstica.

Assim sendo, em que sentido é que a Paula aborda a vida doméstica?

Este livro tem o subtítulo ‘Pelos Empregados Se Reconhecem os Patrões’. A profissão mais procurada hoje em dia é empregado/a doméstico/a. Agora, é modesta? Ganha mal? Mas isso é o país todo a ganhar mal. Por outro lado, a atividade profissional que tem mais oferta é a vida doméstica, e não só em Portugal, mas no mundo.

Sou consultora de algumas personalidades, enfim, famílias, casas, que me pedem para dar formação e ensinar as formas de servir, de estar, e foi aqui que tudo começou. Trabalho na área da formação pedagógica, das boas maneiras e da imagem. Por exemplo, em relação à primeira-dama de Moçambique, antes de o marido tomar posse do seu cargo, estive em sua casa, diariamente, a dar-lhe formação durante duas semanas.

O que mais exportamos são empregadas domésticas. No Mónaco, onde estive há pouco tempo, aquelas que têm mais procura são as portuguesas. Apenas me preocupo em ser útil

Como tem lidado com as críticas em relação ao livro?

Em relação a este livro, não fui eu que me lembrei, foram as pessoas das empresas que me sondaram e que me solicitaram, porque querem empregados domésticos com comportamentos com um certo estatuto tradicional. Por exemplo, que não os tratem por tu, que não passem à frente… o livro está com as regras todas que é preciso cumprir para se ser um bom empregado doméstico e serve para milhões de pessoas - estou a traduzi-lo agora em inglês. Pelos vistos, uma das coisas que as pessoas não sabem para me estarem a criticar nas redes sociais é que o que mais exportamos são empregadas domésticas. No Mónaco, onde estive há pouco tempo, aquelas que têm mais procura são as portuguesas. Apenas me preocupo em ser útil para quem quer levar as coisas a sério.

Há uma minoria que vive infeliz, certamente, porque só critica. O Facebook, que faz tremer muitas pessoas, a mim não me faz tremerAgora, há uma minoria que vive infeliz, certamente, porque só critica. O Facebook, que faz tremer muitas pessoas, a mim não me faz tremer. Porque a cultura é uma base que me dá tranquilidade e da qual gosto. Eu não domestico. [O meu objetivo] é transmitir à nova geração uma cultura, que se se perder dará origem a um retrocesso civilizacional e ao regresso à idade da pedra. 

Além deste livro, já lançou outras 10 publicações. Também trabalhou durante mais de três décadas no Ministério da Cultura e deu aulas em universidades. Qual era o projeto que gostava de ter e que ainda não alcançou?

Um espaço na televisão para transmitir aquilo que considero útil na minha formação. É tudo à base da cultura, da seriedade, embora tenha muito sentido de humor. Talvez seja esse o meu problema.

Em Portugal as pessoas não têm muito sentido de humor. Ou então dizem disparatesAcha que as pessoas não entendem essa sua faceta?

Em Portugal as pessoas não têm muito sentido de humor. Ou então dizem disparates. Há dias em que vou ao cinema e quando há aquela piadinha, por exemplo, ‘aquele cabrão’ , riem-se todos. Por outro lado, perante certas piadas, profundíssimas, engraçadíssimas, ninguém se ri. Só se riem da prevaricação, do palavrão que não se pode dizer.

As pessoas mais cultas ficam mais bonitas, não no sentido de ‘Miss Portugal’, mas do bom ar, do saber comunicar  Em que aspetos o país poderia melhorar na sua opinião?

Acho que poderia ser melhor do que aquilo que já está a ser, porque agora está a ter uma fama brutal. Daí o meu gosto por este lado pedagógico. Não sei porquê, mas nasci com esta ‘pancada’ de gostar de ensinar, transmitir, dar formação. As pessoas mais cultas ficam mais bonitas, não no sentido de ‘Miss Portugal’, mas do bom ar, do saber comunicar. Muitas das coisas que vejo na televisão já não servem para formar as pessoas.

Considera que atualmente as pessoas não são tão civilizadas?

Tudo começa com a boa educação. Os pais hoje em dia acham que não devem pôr os filhos a 'funcionar' como deve ser. Não têm capacidade crítica, não têm autoridade para lhes transmitir aquilo que aprenderam. Também depende da classe social, não gosto de falar disto porque pode ser mal interpretado, mas acho que a herança familiar está em queda e deve ser preservada.

Posso até ser estúpida, mas não, sou conservadora, mas sempre modernaçaPor outro lado, penso que o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura se deveriam juntar. Educação e Cultura deveriam andar juntas para serem mais 'chiques', para serem mais performativas. A parte do saber ler, escrever e fazer contas, já não me quero meter nisso. Posso parecer estúpida, mas não, sou conservadora, mas sempre modernaça.

Em termos de boa educação, qual considera ser o maior lapso na nova geração?

Escrevi vários livros sobre isso… ‘Profissionalmente Correto’, ‘Socialmente Correto’, etc. Não posso dizer que haja uma falha que marque a má educação das pessoas, mas o falar muito alto em público é uma coisa horrível, falar mal português é assustador. A falta de cortesia masculina em relação às mulheres é outro exemplo.

Acho que a mulher bem educada deve aceitar a cortesia Em relação a isso, há mulheres que não concordam com o lado cavalheiresco dos homens. Como é que vê esta questão?

Compreendo e aceito, mas aceito com uma profunda dor no coração. Não posso dizer que os homens são mais fortes do que as mulheres, nem que as mulheres são mais fortes do que os homens. Os tempos mudaram. Acho que a mulher bem educada deve aceitar a cortesia. Porque é que um homem não há-de ser bem educado? Até nas formas de tratamento há razões históricas por trás.

Como é que classifica o seu estilo?

Sou extravagante na roupa, é uma questão estética, uma questão de moda. Para as mulheres portuguesas, hoje em dia as meninas mais novas já têm a vantagem de estarem expostas ao mercado internacional. Vestem-se como as outras, mas isso antes não existia. Vestir com graça em Portugal era muito difícil. Não havia mercado, portanto, ou eram coisas caríssimas, ou então eram de mau gosto.

Vestir bem é vestir adequado à ocasião Mas a Paula sempre se vestiu assim?

Quando fui para a faculdade já tinha muito charme, não seguia muito os padrões instalados. Sempre gostei muito de moda e roupa e lembro-me de gostar de viajar para comprar coisas diferentes. Gostava de marcar a diferença por fora e por dentro também.

Já tenho uma idade em que dá para olhar para trás e avaliar. Também sou muito avaliada, sou muito criticada. Penso sobre isso, mas não perco muito tempo. Sou espontânea, igual a mim própria, tenho um gosto enorme em arte, que é a moda. Nós somos criativos diariamente quando nos vestimos. Estamos a usar cultura, a imaginação, o poder de compra, as opções que o mercado oferece. Na minha opinião, vestir bem é vestir adequado à ocasião. Há sítios internacionais onde vou e tenho uma boa aceitação por causa dessa originalidade.

 Falam mal no sentido de ‘ridícula’, ‘essa velha devia ir para casa’, ‘devia meter-se na vida dela’, ‘ela é um monstro’. Ouço isso e fico na mesma. Sou levada a pensar que qualquer coisa está mal Sempre foi levada a sério?

Não, eu gosto de rutura. Sinto que aqui faço imenso estrondo, principalmente, publicamente. As pessoas têm reações em relação à minha pessoa. Sempre que vou à TVI e colocam isso nas redes sociais, daí a cinco minutos está meia Lisboa a dizer as piores coisas a meu respeito. As pessoas falam muito mal de mim. Falam mal no sentido de ‘ridícula’, ‘essa velha devia ir para casa’, ‘devia meter-se na vida dela’, ‘ela é um monstro’. Ouço isso e fico na mesma. [Mas] Sou levada a pensar que qualquer coisa está mal.

Tenho um comportamento original, sou transgressoraE porque acha que isso acontece?

Tenho um comportamento original, sou transgressora, gosto de transgredir, mas numa base que não faça mal ao próximo, só para as pessoas sentirem que a vida é uma coisa engraçada. A vida pode ser divertida e nós só ganhamos em aumentar a nossa sensibilidade, o nosso distanciamento em relação aos outros. Sou uma pessoa perfeitamente normal no meu dia a dia, no meu currículo normal, de dona de casa, mãe de família. A minha motivação, para além disto, é nunca parar de investigar. Gosto de estudar e de desenvolver. Quero ser útil, até porque já tenho alguns anos. Constato que estar viva e ter capacidade de usar a vantagem de acumulação de informação para a pôr ao serviço dos outros é uma enorme vantagem. Sinto-me cada vez mais inteligente, estou cada vez mais segura da minha lógica. A minha lógica é o bem do mundo e das pessoas à minha volta.

Jantei na mesma mesa da Ivana Trump, de grandes atores de cinema de Hollywood, príncipes britânicos. Fui aos maiores jantares em Versalhes. É uma história de vida giraA Paula costuma ser muito associada ao 'Jet Set'. Essa foi uma imagem que sempre procurou?

A palavra 'Jet Set' tem uma nota de rodapé, porque é altamente depreciativa. Trata-se de um grupo que nos anos 1950 viajava de avião para ir às festas na altura em que eram mais grandiosas. Escrevi um livro chamado ‘Eventologia’ e cheguei a dar aulas em universidades sobre isso. O mundo das festas é uma indústria importantíssima. Depois abandalhou-se um pouco. Hoje em dia já não existe. Tive oportunidades de, na minha vida pessoal, ter acesso a uma cultura de altíssimo nível, através de amigos poderosos, de patamares muito elevados da sociedade inglesa, francesa, norte-americana, espanhola. Dei-me com pessoas de topo. Jantei na mesma mesa da Ivana Trump, de grandes atores de cinema de Hollywood, príncipes britânicos. Fui aos maiores jantares em Versalhes. Pode parecer mentira, mas é tudo verdade. É uma história de vida gira.

As pessoas não se aproveitavam dessa posição que ocupava?

Sim, mas não muito. Levei muitos amigos meus aos bailes de Mónaco, a grandes festas nas embaixadas de Londres. Mas depois houve comportamentos [menos bons]… e eu também mudei, porque já não tinha paciência.

Muitas pessoas põem-se de pontas nos pés para ganharem projeção mediática O verdadeiro 'Jet Set' já não existe?

Não, até em França as coisas estão a mudar. Tenho vários convites, mas é-me completamente indiferente. Acho que é giro, mas já não me enche o ego. Além disso, agora há uma nova elite. Muitas pessoas põem-se de pontas nos pés para ganharem projeção mediática.

Estou muito virada para dentro, sou uma mulher muito solitária Se pudesse mudar alguma coisa no seu passado, mudaria?

Não. Acho que fiz tudo o que tinha para fazer. Gostava de ter mais saúde. As coisas que me aconteceram na vida, todas foram por acaso. Não programei nada, não programei o meu marido, a minha filha que só tive aos 39 anos. Sou uma sobrevivente, equilibrada, económica. Não sei bem o que é ter saudades. A não ser dos meus pais. Estou muito virada para dentro, sou uma mulher muito solitária.

Ainda no outro dia estava a pensar que estou ótima para morrer A ideia da morte costuma vir à cabeça?

Ainda no outro dia estava a pensar que estou ótima para morrer. Já vivi a vida, o que é que ando aqui a fazer? Tenho a impressão de que quando desaparecesse não deixaria um grande vazio. Acho que estou preparada para partir. Contudo, ainda me podem acontecer coisas extraordinárias. Oportunidades de escrever livros, vou gostar muito, ver as minhas netas crescer, também.

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