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"É tão difícil sentirmos que a nossa metade tem mais 60 anos que nós"

Sempre com um sorriso no rosto e boa disposição, Lídia Muñoz abriu as portas de sua casa ao Notícias ao Minuto, de forma virtual, para partilhar alguns dos seus pontos de vista ao falar da paixão pelo teatro, uma ‘herança’ da avó, Eunice Muñoz. 

"É tão difícil sentirmos que a nossa metade tem mais 60 anos que nós"

Neta de uma das grandes atrizes portuguesas, Lídia Muñoz garante que o apelido não lhe traz vantagens. “Posso dizer que não há aqui grandes cunhas, no meu caso não há”, afirma. No entanto, apesar de todos os desafios que esta profissão acarreta, o amor pela arte de representar falará sempre mais alto e mantém viva a esperança de dias melhores. 

Atualmente a percorrer os teatros portugueses ao lado da avó com a peça ‘A Margem do Tempo’, espetáculo de despedida de Eunice Muñoz dos palcos, a também atriz não deixa de destacar a grande “emoção” com que tem vivido esta experiência. 

Já com vários espetáculos feitos e com outras tantas datas marcadas para várias regiões do país, Lídia Muñoz confidencia: “A intenção é continuar com esta peça para o ano. A avó faz questão de ir a todo o lado com este espetáculo para se despedir de toda a gente. Se calhar não vamos conseguir fazer isso este ano, mas para o ano, com certeza, conseguimos terminar estar tournée de uma maneira inesquecível”. 

‘A Margem do Tempo’. Já disse no Instagram que “não tinha palavras para agradecer a forma como os portugueses têm recebido este espetáculo”. Sente que este carinho se intensificou por ser a despedida dos palcos da sua avó?

Acho que, felizmente, os portugueses têm um carinho muito especial pela minha avó. Consegui perceber isso desde muito pequenina - que a minha avó era muito acarinhada e amada. E ela também faz por isso porque é uma pessoa que recebe muito bem o seu público, as pessoas e os portugueses, e acarinha-os muito também. Por isso acho que é merecido, além de ser a grande atriz que é.

Neste espetáculo intensifica-se tudo por sermos só as duas em cena, por ser o último espetáculo, por ser a comemoração dos 80 anos de carreira e por tudo e mais alguma coisa. Há de ser o espetáculo mais especial da minha vida, e há de ser um dos mais especiais da vida dela, com certeza. 

Profissionalmente não posso pedir mais nada do que estar com a melhor atriz do mundo em cena 

Como é que descreve esta experiência e o que lhe tem dado a nível profissional?

Dá-me tudo, porque que atriz é que não ia querer estar no sítio onde eu estou?! Que sorte a minha! Não é bem sorte, foi sorte eu ter nascido da filha da minha avó e depois de termos criado uma ligação tão forte que fez com que eu escolhesse e fosse estudar teatro, que quisesse escolher o teatro para o resto da vida. E foi muita sorte ela ter dito que queria fazer um último espetáculo e que queria despedir-se do público comigo. Não sei se é sorte ou o que é, mas sou muito agradecida. Profissionalmente não posso pedir mais nada do que estar com a melhor atriz do mundo em cena.

Desde sempre soube que queria seguir a profissão da avó?

Não sei bem, porque desde pequenina que fui arrastada para o teatro e ficava lá muito quietinha a ver tudo. Adorava ver os espetáculos dela… Estou a lembrar-me especialmente da ‘Madame’, porque foi um espetáculo que me fascinou imenso, com a Eva Wilma, que faleceu agora há uns dias. Lembro-me muito bem, vi esse espetáculo quase todos os dias, tinha dez anos na altura. Depois acho que foi um bocadinho natural. Não sabia bem o que queria e quando saí do 9.º ano decidi experimentar ir para teatro, era a única coisa que gostava de ver e que sentia alguma coisa. Quando estou num teatro sinto que é mesmo aquilo – até pode nem ser a representar, pode ser a fazer outra coisa qualquer. Decidi ir estudar teatro e foi aí que se intensificou. 

A minha avó não é muito de me dizer como fazer as coisas, o que é muito interessante. Ela nunca se mete no meu trabalho

Qual a melhor herança que a Eunice lhe deixa nos palcos? Quais os melhores conselhos e memórias?

São todas as heranças e todos os conselhos que ela me deixa. A minha avó não é muito de me dizer como fazer as coisas, o que é muito interessante. Ela nunca se mete no meu trabalho, só quando está alguma coisa ao lado e ela acha que pode afinar um bocadinho. De resto, ela tem muito respeito por mim, diz que nós somos atrizes diferentes e que eu tenho de encontrar e fazer o meu caminho. E, pelas palavras dela, acho que estou a fazê-lo muito bem. O que ela me ensinou sempre, desde que eu escolhi esta profissão, e que é aquilo que guardo sempre e que penso antes de ir para cena, é: “Apaixona-te por aquilo que estás a fazer e pela tua personagem. Se te apaixonares, tudo acaba por fluir e acontecer”. Tento levar isso sempre comigo em cada projeto, em tudo o que faço.

O problema da minha geração é que não pode fazer o que quiser, tem outra espécie de censura, porque não há teatros, não há acolhimentos, não há trabalho

Com certeza que já ouviu muitas histórias do início de carreira da avó Eunice… Comparando com o seu início de carreira, sente que teve mais ou menos dificuldades em entrar neste meio?

Acho que tive mais dificuldades porque era muito menos gente [na altura dela], por aquilo que a minha avó me diz - apesar de ela ter passado pela censura que deve ter sido uma coisa terrível, houve muitos textos que não conseguiram fazer… Eu, felizmente, não passo por isso, posso fazer o que quiser. O problema da minha geração é que não pode fazer o que quiser, tem outra espécie de censura, porque não há teatros, não há acolhimentos, não há trabalho. Acho que está ela por ela, porque para nós também é muito difícil e o meu percurso tem sido muito difícil. Tenho feito sempre muito teatro todos os anos, mas é uma luta constante. Muitos meses a ganhar muito pouco, muitos meses a batalhar muito para poder ter algum ao final do mês… Não é nada fácil.

Nunca foi uma coisa muito positiva ser neta na Eunice Muñoz aos olhos dos outros

Ser neta de Eunice Muñoz ajuda ou é um desafio extra para florescer neste meio?

Não ajudou muito. Nunca foi uma coisa muito positiva ser neta na Eunice Muñoz aos olhos dos outros. No início, qualquer coisa que fizesse [diziam] que só estava ali por ser neta da Eunice. Nada era por mim. Dificultou-me a vida, tem-me dificultado a vida, mas sinto que isso não é um problema, porque sinto-me tão afortunada por ser neta dela que isso para mim não vale nada. Vou fazer o meu caminho como posso. 

Tem-se focado mais no teatro… É uma escolha ou é por falta de oportunidades na televisão portuguesa?

Gosto muito e adoro fazer teatro, mas não é uma escolha. Para mim tem sido mais fácil entrar no teatro. Tenho sido mais convidada por vários encenadores para trabalhar, e na televisão não há essa oportunidade - para mim, claro. Fiz algumas participações muito pequeninas, mas nada [de especial]. A maior parte das pessoas que conheço, os meus colegas que estudaram tanto na Escola Profissional de Teatro de Cascais como na Escola Superior de Teatro e Cinema, não têm acesso aos castings e não fazem ideia de como entrar no mundo da televisão. No meu caso é igual a toda a gente, por isso, posso dizer que não há aqui grandes cunhas - no meu caso não há porque não tenho acesso a castings, não sei onde procurar… Tenho feito muito teatro e sinto-me muito afortunada por isso e feliz, mas também gostava de experimentar outras áreas, o cinema e a televisão…

É um ano de gente com fome, a querer trabalhar e a não conseguir. De repente, vem uma notícia a dizer que alguém teve acesso a um casting que mais ninguém teve 

Recentemente houve a polémica perante a contratação da filha de Maria Cerqueira Gomes para a nova novela da TVI. A Lídia foi uma das vozes a destacar-se. Na televisão a imagem sobrepõe-se ao talento?

Acho que sim. Não sou nada contra a imagem, gente bonita. Gosto muito de ver gente bonita na televisão, só que tive tantos colegas (mulheres e homens) muito bonitos que estudaram e que deviam ter, pelo menos, a oportunidade de fazer um casting e de se mostrar… Devíamos ter a oportunidade de ir a esses castings e não temos. De repente, há um casting que ninguém sabe, nenhum ator teve acesso, ninguém sabe como é que alguém chegou a esse casting. E isto está sempre a acontecer, não tem nada que ver com esse caso em particular. Isso teve que ver com muita gente fechada em casa há um ano sem trabalho e por isso é que estourou agora. É um ano de gente com fome, a querer trabalhar e a não conseguir. De repente, depois desse ano, vem uma notícia a dizer que alguém teve acesso a um casting que mais ninguém teve. Até podia ser ela a escolhida naturalmente, podia ser melhor que qualquer um de nós, mas queríamos ter acesso a esse trabalho também, e não temos. É muito triste.

Já alguma vez viveu um episódio que a deixou com o maior sentimento de injustiça a nível profissional?

Sentimos muito a toda a hora. Isto é uma profissão muito dura. Nós estudámos com muita gente e vemos muita gente com muito talento a ir embora, a trabalhar noutras coisas. E não são coisas menores, ninguém trabalha em coisas menores, mas eles estudaram porque queriam muito seguir este caminho. Passamos a vida a ver esse tipo de injustiças e é muito triste não existir oportunidades para nós atores.

É gerir muita coisa porque temos 60 anos de diferença, somos pessoas muito parecidas e muito teimosas… O normal de quem vive junto, seja marido e mulher, mãe e filha... avó e neta é exatamente a mesma coisa

Mas continua a acreditar que possa haver um ponto de mudança e passar a haver mais oferta?

Eu acredito muito e luto por isso, e acho que devíamos lutar todos por um mundo mais justo. Todos temos de ter as mesmas oportunidades.

Há pouco referiu que também não tem tido muitos trabalhos no cinema português. Mas como é que vê a sua evolução?

Adoro ver cinema em português, gosto muito do nosso cinema… É pena fazermos pouco, não há muito dinheiro, a Cultura está sempre em último lugar. Só gostava que existisse mais para nós, para todos, para o cinema, para o teatro, para a televisão, para toda a gente…

Viveu esta fase da quarentena junto da sua avó… O que fica desse momento?

Nós vivemos juntas há dez anos, por isso já é natural. Houve uma altura mais complexa porque passávamos 24 sobre 24 horas juntas, e num dia normal isso não acontece porque eu trabalho e ela também. As pessoas têm as suas vidas e encontram-se em casa ao fim do dia. É gerir muita coisa porque temos 60 anos de diferença, somos pessoas muito parecidas e muito teimosas… O normal de quem vive junto, seja marido e mulher, mãe e filha... avó e neta é exatamente a mesma coisa. E como temos uma grande paixão uma pela outra, ainda se intensifica mais. Mas foi muito bom, é sempre bom estar com a minha avó, por isso é que vivemos juntas há tanto tempo. 

É tão difícil isto de sentirmos que a nossa metade tem mais 60 anos que nós. E gerir isto todos os dias não é fácil. Não é muito justo 

No Instagram, numa das publicações que fez, falou num sonho da sua avó de conhecer Florença e que foi cumprido a seu lado. Que sonhos faltam realizar ao lado dela?

Para mim todos! Para mim são todos os meus sonhos que faltam cumprir ao lado dela. Quero que tudo seja com ela. Para a avó, acho que também tem alguns sonhos comigo, nós sonhamos tudo juntas. Mas esta viagem a Florença era uma viagem que ela falava desde sempre e que nunca tinha tido oportunidade. Já viajou por muitos sítios e este era um sítio que ela queria mesmo ir, e fomos.

E quais são os maiores sonhos da Lídia?

É que ela esteja cá sempre para me ver. Quero muito ser mãe, e queria muito que ela estivesse cá para conhecer os bisnetos da minha parte – porque ela já tem outros bisnetos. O meu sonho era que ela nunca se fosse embora, e se pudéssemos ir as duas ao mesmo tempo daqui a muitos anos era o ideal. É tão difícil isto de sentirmos que a nossa metade tem mais 60 anos que nós. E gerir isto todos os dias não é fácil. Não é muito justo.

Apesar de continuarmos ainda em pandemia, para mim 2021 foi um ano muito feliz porque está a ser incrível

Que desafio/tipo de trabalho na sua área que gostava muito de conseguir fazer um dia?

Fazer todos os clássicos, os dos William Shakespeare, esses textos todos que agora já ninguém faz – alguns fazem, mas muito poucos, porque são sempre muitos atores e não há dinheiro para fazer espetáculos com 20 atores. Mas o meu sonho era fazer só clássicos o resto da vida. Se pudesse fazer isso até aos 100 anos, era muito feliz.

Depois de ter estado um ano parada e de agora estar em palco com a peça ‘A Margem do Tempo’, o que é que espera deste 2021 (que já vai a meio)?

Apesar de continuarmos ainda em pandemia, para mim 2021 foi um ano muito feliz porque está a ser incrível. Sempre que entramos em cena as duas é uma emoção mesmo muito grande, não há explicação para aquilo que se sente. Apesar de tantas perdas que tivemos de amigas, de pessoas muito importantes para nós, tenho  de agradecer muito porque tem sido mesmo uma experiência sobrenatural e maravilhosa. 

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