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Rita Loureiro: "Nunca fiz nada só a pensar no cheque ao fim do mês"

Estivemos à conversa com a atriz Rita Loureiro.

Rita Loureiro: "Nunca fiz nada só a pensar no cheque ao fim do mês"

Resposta rápida e gargalhada fácil: foi desta forma que a atriz Rita Loureiro, de 51 anos, se mostrou durante a entrevista que lhe fizemos. Com mais de três décadas de carreira, é considerada uma das grandes referências da representação em Portugal.

A mãe queria que fosse advogada, no entanto, o amor de Rita Loureiro pelo ato de dar vida a outras histórias falou mais alto. Quanto ao pai, aconselhou-a a não ser "medíocre" ou "mediana". 

Considera ser dona de uma rebeldia mas com diplomacia, característica herdada pela filha, Francisca, de 15 anos.

Integrou o elenco da série da RTP 'Até Que A Vida Nos Separe'. Para quem não viu, pode-nos falar um pouco sobre este trabalho?

Foi um projeto que me encantou logo desde o início. Quando recebi dois ou três guiões para ler fiquei completamente viciada naquela escrita. Depois é realizado por Manuel Pureza, com um universo muito interessante e fresco. É uma série que se destaca no panorama da ficção nacional, traz  uma frescura àquilo que se faz.

Frescura que é necessária neste momento?

Acho que sim, sobretudo agora com o acesso a plataformas de streaming [como] a Netflix, HBO, etc. Há uma oferta enorme e uma evolução muito mais rápida de como fazer diferente e de uma forma mais inovadora. Precisamos que se evolua e não que se regrida. 

Até ao aparecimento dessas plataformas, acha que a televisão estava a regredir?

Estas novas plataformas vieram desafiar essa produção. Se havia ficção que estava ali um bocadinho instalada no conforto de 'temos este nível de audiência, não precisamos de subir a fasquia', agora vão se sentir mais ameaçadas, portanto é bom que acordem para não ficarem para trás.

Um cenário completamente diferente daquele quando começou ainda em 1989...

Ah sim! [exclama, entre risos]. Nada a ver. A nível de teatro mudou tudo. Hoje em dia não há um terço do tempo que havia quando comecei. Agora os projetos têm de ser concluídos em dois meses porque não há dinheiro, então só há a possibilidade de pagar dois cachets, seja aos atores ou aos técnicos. Dois meses levávamos nós só em trabalho de mesa. A diferença é abissal. Também em cinema e em televisão tempo é dinheiro, dizem eles, mas não sei se haverá assim tão pouco dinheiro.

Isso aparenta ser uma realidade bem portuguesa. Normalmente os atores que trabalham lá fora falam dessa diferença em termos de orçamento...

É isso que eu também não percebo. Não sei se o que dizem é verdade, mas haverá dinheiro para mais. Em Espanha e em França só os subsídios que os profissionais de espetáculo recebem quando não estão a trabalhar são completamente diferentes. Costumo dizer que fazemos autênticos milagres porque somos efetivamente muito bons. Temos excelentes profissionais em todas as áreas e a maior parte das vezes, infelizmente, não nos são dadas as condições que nós merecemos. 

Com a pandemia ficou evidenciada a falta de apoio em relação aos profissionais da Cultura.

É um efeito lupa. O que a pandemia veio fazer foi expor de uma forma muito mais crua as injustiças e a ausência de política cultural e social que este país tem. As medidas que, supostamente, se anunciam de proteção social, depois vêm-se a revelar autênticas armadilhas.

É uma política de lucro para o governo e não de ajuda social. Isto é escandaloso e revoltanteUm trabalhador do espetáculo que está numa situação de precariedade extrema e que, por isso, não consegue pagar a segurança social porque não tem dinheiro para a pagar, não recebe este apoio social.  Que política é esta? No fundo uma política em que só se recebe quando se pagou muito mais. É uma política de lucro para o governo e não de ajuda social. Isto é escandaloso e revoltante.

A Rita chegou a partilhar na sua conta de Instagram a resposta ao pedido de apoio ao governo que vários profissionais da Cultura têm recebido. 

Sim, e no Dia Mundial do Teatro, ironicamente. Parece quase cinismo.

Momentos como este levaram a uma necessária união entre os atores?

Há uma união, mas é algo superficial. Para haver união efetiva há muito para se fazer ainda. São décadas e décadas de percurso em que as pessoas não se uniram como classe. Há uma união na indignação, porque é transversal, mas isso só não chega. 

O que é precisa de ser feito?

É tão difícil isto, porque é uma questão de sobrevivência. Às vezes as pessoas estão tão preocupadas em sobreviver que não têm a consciência de que se calhar é preciso criar um sindicato. É terrível. A questão da sobrevivência acaba por minar o caminho. Muita gente sente que está numa luta, mas depois há uma oferta de trabalho que é paga muito abaixo do que deve ser e acabam por aceitar. Só isso já vai minar a dita luta. É quase história de mentalidades que se tem de trabalhar aqui e isso requer muito tempo. 

Neste momento há artistas que estão com dificuldades para conseguir aceder às coisas mais básicas.

Sim. O arroz, o pão, o leite, para pagar a renda. É grave, muito grave.

Gosto muito de ser atriz. Não é pela segurança financeira que me rejo, porque senão já tinha mudado de profissão há muito tempoEm fases como esta ainda pensa que poderia ter optado por outra profissão mais segura?

Já não me assalta esse pensamento, porque não saberia ser feliz a fazer outra coisa. Gosto muito de ser atriz. Não é pela segurança financeira que me rejo, porque senão já tinha mudado de profissão há muito tempo. 

E agora a pergunta clássica: porquê atriz?

Porque gosto de promover a escuta e gosto de contar histórias e de viver outras histórias.

E o que vem para além da profissão? O egocentrismo, a fama, como é que lida com isto?

Lido muito bem porque não dou importância. Sou muito observadora, sempre fui, de facto às vezes dá perfeitamente para perceber o motivo pelo qual as pessoas estão na profissão. Para mim nunca foi importante essa lado da fama, nunca tive uma necessidade absoluta de protagonismo, gosto é de fazer o meu trabalho, de fazê-lo bem, de o dignificar e isso para mim é o mais importante.

Que conselho daria a um jovem ator?

Houve uma vez que vi uma entrevista da Fernanda Montenegro e fizeram-lhe essa pergunta. A resposta dela, entre outras coisas que disse, foi: 'Tem de se gostar, muito!'. Implica muito sofrimento e angústias. 

Nunca fiz nada só a pensar no cheque ao fim do mêsE quanto à dualidade dinheiro/o que gosto de fazer?

É algo que tem de se gerir. Pode haver situações na vida em que se calhar é necessário aceitar trabalho que se se tivesse uma outra situação financeira poder-se-ia não aceitar. Sempre impus a mim mesma que se aceito algo é porque arranjo a mim mesma um sentido para o fazer. Pode não ser um personagem que me preencha assim tanto, mas arranjo maneira de transformar aquilo numa coisa que me vai ensinar algo e que me vai impulsionar. Nunca fiz nada só a pensar no cheque ao fim do mês. 

Chegou a recusar projetos?

Sim, já, em coisas com que não me identifico. Quando é um universo que domino e não é estimulante para mim tentar dominar.

E ao longo da sua carreira, os seus pais sempre foram os maiores fãs? 

Ainda são. No início a minha mãe ficou um bocadinho triste porque não queria que eu seguisse esta carreira, queria que fosse para advocacia. O meu pai sempre me disse que se era este o meu sonho para seguir, mas que tinha de ser muito boa naquilo que fazia. Para não me ficar pelo mediano ou medíocre. 

O que a Rita herdou de cada um?

As coisas boas e alguns defeitos também. Da minha mãe há um lado emocional e de fantasia que ela tem muito rico. Do meu pai um rigor e uma certa teimosia. 

E o que é que a sua filha herdou da Rita?

Além de ser muito parecida comigo fisicamente, acho que tem uma personalidade muito forte e uma capacidade de contra-argumentação e contestação. 

E tem interesse em seguir representação ou nisso não saiu à mãe?

Não, representação não. Está ligada às artes. Será uma coisa mais ligada ao desenho, design, moda, anda à procura. 

O grande capital que fui criando com a minha filha e que quero perpetuar é uma via de comunicação completamente aberta E quando pensa nisso respira de alívio?

De alguma forma, sim. Sei quais são as dificuldades da minha área, mas de qualquer forma quero é que ela seja feliz. Costumo dizer que o grande capital que fui criando com a minha filha e que quero perpetuar é uma via de comunicação completamente aberta. Ela sabe que poderá falar comigo sempre sobre qualquer questão.

Sempre tentei fazer com uma certa diplomacia. Provocadora, mas uma provocadora diplomata  Deu muito trabalho aos seus pais ou era certinha?

Dei algum trabalho, às vezes também era um bocadinho contestatária, tal como a minha filha, mas sempre tentei fazer com uma certa diplomacia. Provocadora, mas uma provocadora diplomata. 

Tem 51 anos. Os 50 anos são os novos 40, 30... como é?

Há dias em que são os novos 40, outros em que serão os novos 30, outros os novos 70... [diz, entre gargalhadas]. Sinto-me muito bem, temos altos e baixos na vida, mas no geral sinto-me feliz com os 51. Tento cuidar de mim o mais possível, no interior e no exterior, aceito a idade, estou nesse processo em que confesso que às vezes olho para o espelho e vejo uma rugas e uma flacidez que não é fácil de lidar, mas estou num processo de educação.

Nunca me interessou, por exemplo, fazer mudanças a nível de cirurgias estéticas radicais para iludir a passagem do tempo porque não me identifico com isso Em termos de inteligência emocional é ótimo, porque somos cada vez mais sábias, mas temos que aprender a saber envelhecer a gostar de nós dessa forma. Nunca me interessou, por exemplo, fazer mudanças a nível de cirurgias estéticas radicais para iludir a passagem do tempo porque não me identifico com isso. Acho bonito ver-se no rosto de uma mulher a idade que ela tem. Agora, evidentemente que é mais interessante uma mulher que se cuida do que aquele que tem um certo desleixo. 

Em relação às cirurgias estéticas, não sente que está a remar contra a corrente?

Há uma escravatura da imagem que condeno. Não só por uma questão de profissão e da exposição que exige, como inclusive uma questão do feminino. Os homens, por exemplo, têm mais facilidade em envelhecer a serem considerados charmosos. Numa mulher é precisamente o contrário. Só isso já está errado. É um processo. Começa-se a perceber que fica uma coisa tão plástica que nem sequer é bom para a profissão que temos, precisamos da expressão dessas rugas no nosso rosto.

Quando acabar a pandemia qual é a primeira coisa que quer fazer?

Ir para uma esplanada com um grupo de amigos, conversar, beber cervejas e comer caracóis. Ir a uma discoteca e viajar com segurança.

Quais os sonhos tem por concretizar?

Ir ao Japão. 

Pensa em um dia reformar-se?

Não, só vou parar quando sentir que já não consigo exercer a minha profissão.

Leia Também: "Só consigo fazer teatro com pessoas que amo muito"

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