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"Já passei por abusos de alguns polícias em abordagens ridículas"

Igor Regalla esteve à conversa com Daniel Oliveira no programa 'Alta Definição', da SIC.

"Já passei por abusos de alguns polícias em abordagens ridículas"

No meio dos cenários da novela 'Nazaré', na qual dá vida a Gil, foi neste ambiente que Igor Regalla foi entrevistado por Daniel Oliveira. Uma conversa transmitida no programa 'Alta Definição', da SIC, este sábado.

O racismo e a luta pela igualdade foi um dos temas em destaque, sendo este "um assunto que lhe diz, inevitavelmente, respeito".

Apesar de ser uma batalha que ainda tem muito a percorrer, Igor reconhece que já começam a ser dados alguns passos no caminho da igualdade.

"O meu percurso profissional sempre foi muito marcado por isso, por eu fazer personagens que parece que alimentam o preconceito que há, quase que só sirvo para vender droga e ser o mauzão do bairro, quando sinto que sou tão mais do que isso", desabafou.

Pai de um menino, que nasceu há dois anos, confessou: "Tragicamente, até estou mais descansado porque o meu filho é mais claro do que eu. O meu filho é quase branco e isso deixa-me um bocadinho mais descansado porque sei que ele não vai passar por tanto como eu, como alguns colegas... Porque é inevitável, as oportunidades não são as mesmas e isso é um bocado triste. Tive que penar tanto, tanto profissionalmente só para estar aqui sentado nesta cadeira".

Mas não ficou por aqui e afirmou ainda que, "inevitavelmente", o facto de "não estarmos no nosso país de origem ou não parecermos como a maior parte das pessoas, faz com que não nos sintamos bem-vindos porque há comportamentos, às vezes, um bocado idiotas que as pessoas insistem em ter".

"Já passei por abusos de alguns polícias em abordagens ridículas. Acho que já chegam a um ponto em que já olham para isso, e principalmente quando somos nós a 'queixarmo-nos', olham para isso como queixas. Parece que somos nós a queixarmo-nos. Felizmente, há muita gente que tem a capacidade de se colocar na pele do outro e é por essas pessoas que as coisas estão, de facto, a melhorar", reconheceu, ainda assim.

A pressão de ser ator e de nem sempre ter trabalho levou a que sofresse uma depressão quando acabou de fazer o filme 'Gabriel'. Nessa altura o filho já tinha nascido.

"Foi a tal pressão que é: como é que depois de ser o Eusébio, de fazer um Gabriel, eu cá em Portugal, se deixar de trabalhar na minha área, como é que vou trabalhar para um café. Se calhar devia meter o orgulho de lado e ir", recordou, referindo-se às origens desta fase negativa que viveu.

"Esta pressão toda das pessoas dizerem que finalmente estão a ver um preto da televisão. E começas a fazer uma coisa, depois já estás a fazer outra... e, de repente, em dois anos protagonizo dois filmes - há 20 anos que não havia um protagonista negro - e depois acabo e penso: 'ok, agora não vai aparecer mais nada'. Apareceu a 'Alma e Coração' e depois dessa novela é que me começou a bater. Pensava que as pessoas já estavam fartas e que já não queriam saber, que já tinha tido a minha oportunidade, que tinha tido algum impacto, mas que não ia mudar nada, que as coisas iam continuar como estavam. Pensava que me iam continuar a chamar para as mesmas coisas... E como é que ia dar aquele amor ao meu filho? São muitas perguntas sem resposta, muita injustiça a acontecer constantemente que chega a uma altura em que nós olhamos e sentimos que não vale mesmo a pena. Felizmente, o universo começou do nada a dar uma chapadas e a dizer: 'calma'", recordou.

O dia em que recebeu uma chamada a dizer que estava nomeado para os Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator foi uma das forças que o levaram a erguer-se nessa fase mais escura. "Isso animou-me muito, tirou-me da cama, mesmo", afirmou. Depois começaram a surgir outras oportunidades, outros projetos e voltou a ter forças para continuar.

A Infância marcada pela Guerra Civil

Igor nasceu na Guiné-Bissau e veio pela primeira vez para Portugal quando tinha um ano. Passou parte da infância no país, mas regressou a Guiné aos sete anos com os pais, à procura de um "futuro melhor". Passados dois anos, viveu de perto a Guerra Civil, em 1998, que acabou por ser das fases "mais marcantes da sua vida".

"De repente, acordamos e a nossa banda sonora são aqueles tiros que só ouvimos em filmes de guerra... Estava de cuecas em casa da minha tia, estava com umas sandes na mão, e lembro-me de olhar para o lado e vejo um tanque gigante e soldados", lembrou.

Depois veio de novo para Portugal com a mãe. "A viagem para cá foi muito assustadora. Tinha dez anos. Lembro-me de irmos todos para o porto e de entrarmos no barco. Éramos muitos", recordou, referindo que foram os primeiros refugiados a chegar a Portugal.

"Lá na Guiné tinha melhores condições do que tenho cá. Se vivesse lá tinha a vida dez vezes mais facilitada do que cá. Exemplos idiotas, eu ia de motorista para a escola... Vivia bem, os meus pais também trabalharam muito para ter aquilo que conseguiram ter, mas cá em Portugal era o oposto. Apesar de viver em Oeiras, numa zona tranquila, sempre fui dos poucos pretos nos ambientes onde me encontrava e isso, inevitavelmente, marcou-me", desabafou.

"Ao longo da minha vida inteira sempre fui quase a ovelha negra. Claro que fazia sempre disso uma coisa diferente, mas é impossível nós sermos um elemento diferente e o resto não estar sempre a brincar com o assunto. Mas acho que acabei por conseguir gerir tudo isto de uma forma mais ou menos saudável. Há coisas que não saiem [da cabeça], mas a verdade é que também não me posso queixar assim tanto porque sinto que agora as coisas estão mesmo a mudar", acrescentou.

A grande relação que tem com a mãe e a distância do pai

A mãe é a pessoa que mais inspira Igor, e de quem tem um enorme orgulho. "A minha mãe recebe bem e dá o dinheiro todo às pessoas na Guiné, pessoas que precisam. Quem me dera ser um quarto do que ela é", disse.

Apesar de ser muito próximo da mãe, a relação com o pai não é de grande proximidade. Aliás, o progenitor não apoia a sua decisão de ser ator e até partilhou um episódio menos bom que viveu com o progenitor. Uma vez pediu dinheiro ao pai para fazer um curso na área da representação, mas o progenitor não o ajudou precisamente por não o apoiar.

"A maior parte dos momentos mais felizes vive com a minha mãe", realçou, explicando que como o pai esteve sempre na Guiné, a mãe era a pessoa presente nas conquistas.

"Há coisas por resolver", admitiu ainda, referindo-se à relação com o pai. "Esta postura dele fez com que a maior parte do meu processo fosse como foi, e ainda bem. Estou mais forte do que estava se estivesse constantemente no carrinho do papá... Está tudo certo. E quero muito provar que é possível vingar a ser ator aqui. É uma tarefa difícil. Se for preciso ter que passar fome para não pedir ajuda à minha mãe, que é a pessoa que me apoia incondicionalmente, eu passo só para ela estar tranquila", assegurou, confessando que esse episódio já foi vivido.

"Chegou a uma altura em que não tinha dinheiro nem para pagar o gás e a água lá em casa, o teatro não me estava a dar para tudo, pelo menos o que eu estava a fazer não estava a dar", contou.

O filho - "a melhor coisa do mundo"

A ex-companheira de Igor Regalla soube que estava grávida já quando a relação tinha acabado. Na altura, o ator não queria ser pai. No entanto, recorda, desde o dia em que o bebé nasceu que não podia estar mais feliz. "É a melhor coisa do mundo", afirmou, mostrando ser um 'babado'.

Igor 'prometeu' acompanhar o filho e estar presente em todas as suas atividades, assim como apoiar todas as suas escolhas. E o que mais vai querer dar ao seu bebé é, acima de tudo, "muito amor".

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