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"Não podermos abraçar as pessoas que amamos é uma coisa terrível"

Após o fim do Estado de Emergência, mas ainda com o futuro condicionado, Pedro Abrunhosa apresenta 'Tempestade', a nova música que canta ao lado de Carolina Deslandes. Um tema que conta ainda com a produção de Diogo Piçarra, e também com a ajuda do filho, Hugo.

"Não podermos abraçar as pessoas que amamos é uma coisa terrível"

Pedro Abrunhosa apresenta-se com um novo tema, 'Tempestade'. O artista voltou a escrever sobre a realidade, como o próprio realça. "Somos comuns na dor e na alegria. Neste momento que atravessamos, era forçoso também que eu escrevesse sobre aquilo que me preocupa a mim, que é o que preocupa a todos", destacou, referindo que demorou cerca de uma semana a escrever a letra desta nova canção.

Uma música que foi construída em vários pontos de Portugal, em casa de cada artista envolvido. Enquanto Carolina Deslandes gravou em Lisboa, Pedro Abrunhosa fê-lo no Porto, tendo trabalhado com o filho a edição do vídeo, mas em casas separadas. A Sons em Trânsito ajudou a partir de Aveiro e Diogo Piçarra finalizou a produção no Algarve. "Esta canção é feita em teletrabalho", afirma.

Em conversa com o Notícias ao Minuto, além de falar sobre a nova música, Pedro Abrunhosa aborda ainda esta fase que o mundo atravessa: a pandemia da Covid-19.

Este tema acaba por transparecer, em vários sentidos, a realidade dos dias de hoje - não só a letra a música, mas também a construção da mesma que foi feita em vários pontos do país, à distância, e em teletrabalho, como vários portugueses estão a trabalhar neste momento por causa da pandemia da Covid-19...

A canção que diz "não estamos sós na tempestade" pode ser essa tempestade ou outra qualquer porque é uma metáfora dos tempos duros que vivemos. Mas podem ser estes como poderão vir a ser outros. Há ali uma questão relativamente pessoal que é quando falo do meu pai, de quem estou afastado já há dois meses e que vejo através de um vidro. É uma coisa muito dura para toda a gente. Não há quem não tenha alguém à distância. Esta coisa de não podermos abraçar as pessoas que amamos é uma terrível. E quem mais sofre no meio disto tudo são os mais idosos que ficam sozinhos. Isto é uma questão muito pertinente que eu tinha de falar nesta canção.

Foi tudo feito cada qual na sua casa e acabaram por ser cinco cidades (Porto, Gaia, Faro, Lisboa e Aveiro). Apesar disso, o vídeo não o reflete. Eu quis que o vídeo não refeltisse aquela coisa feita em casa, já estamos todos um bocadinho cansados disso. É uma coisa esperançosa, airosa...

A letra acaba por ser uma mensagem de esperança.

É exatamente: "Quando eu voltar, abraça-me por dentro, aperta-me de tempo". Esta frase acho que diz tudo sobre a canção. Depois digo: "No futuro ninguém quer só metade, não estamos sós na tempestade", isto diz tudo... Seja o futuro o que for, tem de ser vivido por inteiro.

As pessoas estão cansadas, descontentes, agora ficaram furiosas com este crime horrível [homicídio de Valentina] e, claro, aceitam esta frase da prisão perpétua, como aceitariam outras, os ciganos para não sei onde... é culpabilizar os terceiros pelas nossas próprias misériasQueria precisamente pegar nessa frase, "no futuro ninguém quer metade". Como é que o Pedro Abrunhosa imagina o futuro após a pandemia?

Aquilo que imagino talvez seja diferente daquilo que espero. Espero que algumas lições se aprendam com isto. Em primeiro lugar que o Estado, e sobretudo o Estado Social, um Estado que está presente nos momentos duros da nossa vida, só existe se nós contribuirmos para ele e se houver uma política social quando não existe crise. Durante a crise percebe-se que o Estado Social é fundamental. Se não fosse o Estado Social, o Serviço Nacional de Saúdenão existia, tinha sido privatizado. Felizmente que não foi totalmente destruído ao longo destes anos.

Tentaram destruir e houve afirmações, até durante a pandemia, de responsáveis de setor privado, que continuaram a atacar o Serviço Nacional de Saúde a dizer que foi apanhado de calções na mão. Pelo contrário, o Serviço Nacional de Saúde pode ter muitos problemas, não tem brochuras de ouro como tem o privado, mas foi ao Serviço Nacional de Saúde que todos nós recorremos, e os próprios privados recorreram.

Isto quer dizer uma postura política, de que quando acabar a pandemia é bom que nós dêmos importância a alguns vetores fundamentais - a saúde, a justiça, a educação e eu diria que a cultura também. São quatro vetores para as quais tem de haver uma permanência do Estado, sendo que o Estado são 10 milhões de meio de portugueses, somos todos nós. Se alguma coisa se retirar desta pandemia é esse papel do Estado nas nossas vidas e, obviamente, o papel da solidariedade - mas não a solidariedade real, não é caridade. Não é o espírito individualista, um bocadinho como dizia a Margaret Thatcher que 'a sociedade não existe, o que existe é a força individual de cada um'. Isto é mentira. A força individual de cada um existe até certo ponto. Há uma altura em que haverá sempre pessoas que vão precisar da ajuda dos outros. Isto não é o indivíduo à frente de tudo, é o indivíduo enquanto sociedade.

Estamos neste momento a fazer uma campanha por pessoas da minha área, que são milhares de pessoas, técnicos sobretudo, que ao fim de dois meses já têm fomeE o que acha que pode vir a acontecer?

Infelizmente, é o discurso demagógico que já se começa a ouvir. Por exemplo, ouviu-se agora em relação a esta criança que, alegadamente, foi assassinada. Já se começa a ouvir a prisão perpétua... são coisas que não adiantam nada. Os Estados Unidos têm prisão perpétua e pena de morte e são dos países do mundo com mais criminalidade. É o discurso fácil que vai rastilhar como palha num descontentamento que já existe. As pessoas estão cansadas, descontentes, agora ficaram furiosas com este crime horrível e, claro, aceitam esta frase da prisão perpétua, como aceitariam outras, os ciganos para não sei onde... é culpabilizar os terceiros pelas nossas próprias misérias. E este tipo de frases não tem nenhuma sustentabilidade política nem cientifica. São frases meramente para fazer o povo pasmar e dizer que é isso mesmo. A questão é que não é isso mesmo.

Entre aquilo que eu espero, que é um Estado Social, e aquilo que eu imagino que possa vir a acontecer, que é esta demagogia do ódio, entre os dois eu temo que vá ser necessário haver aqui um equilíbrio.

Uma coisa que é forçoso dizer, o que está a acontecer e o que vai acontecer é uma grave crise de pobreza e de fome. Estamos neste momento a fazer uma campanha por pessoas da minha área, que são milhares de pessoas, técnicos sobretudo, que ao fim de dois meses já têm fome, começa haver menos recursos para os ajudar, e daqui a quatro meses ou cinco a fome vai manter-se, não vai desaparecer.

O futuro ninguém quer só metade, o problema é que muita gente já tinha muito pouco, e metade de pouco é demasiado pouco. E os que tinham muito, continuam a ter muito. O problema é este, o desequilíbrio social fica mais visível agora.

Ouço isso de sermos elogiados lá fora, mas às vezes isso incomoda-me um bocadinho porque para nós portugueses isso funciona como uma espécie de encorajamento. Acho que é ao contrário. Acho que nos devemos de encorajar a nós primeiro. Antes de os outros elogiarem, nós elogiarmo-nos a nós próprios Apesar de tudo, Portugal já foi muito elogiado lá fora pelas rápidas ações perante a pandemia. Acha que de um modo geral os portugueses comportaram-se bem e continuam a conseguir 'controlar' a pandemia, ou teme que com o desconfinamento possamos dar um passo atrás.

Há aqui dois comportamentos. Primeiro é o comportamento dos portugueses que foi notável, e que continua a ser. Viu-se no apelo que foi feito ao 12 e 13 de maio. Houve uma questão que foi muito bem resolvida pela parte da igreja católica e dos fiéis. Nem sequer houve um problema, não houve peregrinos. Por muito que fosse uma grande tradição, e uma questão de fé profunda de grande parte dos portugueses, eles perceberam que não podiam ir e que havia uma questão sanitária. Desde o início, o povo português tem demonstrado que está à altura do desafio.

Por outro lado, a grande responsabilidade das grandes instituições, neste caso da igreja católica que é de sublinhar, e ao longo deste período a instituição Governo. O Governo e o Parlamento, e o papel da oposição, nomeadamente de Rui Rio, que foi um papel de Estado. Os portugueses estiveram bem em todas as frentes, na popular, na frente institucional e na liderança. Este Governo mostrou uma capacidade de liderança, e está a liderar muito bem esta crise, daí também os resultados.

Ouço isso de sermos elogiados lá fora, mas às vezes isso incomoda-me um bocadinho porque para nós portugueses isso funciona como uma espécie de encorajamento. Acho que é ao contrário. Acho que nos devemos de encorajar a nós primeiro - deixa lá ver se os outros vão aprender connosco. Antes de os outros elogiarem, nós elogiarmo-nos a nós próprios. Demos uma lição à Europa de como reagir perante uma grave crise.

Há uma coisa notória que é: quem veio em auxílio das populações portuguesas nestes dias de crise? Veio a comunidade artística portuguesa, não veio nenhum grupo estrangeiro popular ou alternativo"Ainda há festa na varanda", é outra frase da letra que me despertou também maior atenção. De facto, muitos artistas têm cantado para Portugal através das suas varandas. Esta fase acaba por aproximar, de uma forma mais íntima, os artistas dos fãs?

Há uma coisa notória que é: quem veio em auxílio das populações portuguesas nestes dias de crise? Veio a comunidade artística portuguesa, não veio nenhum grupo estrangeiro popular ou alternativo. Quem veio dar música aos portugueses, dar alento e esperança, foram os músicos portugueses e todos à sua maneira, na sua casa, com os lives, com concertos na varanda... Fica mais uma vez registado esta coisa de que nós para o ano podemos ter muitos festivais com músicos estrangeiros - sendo que isso representa concorrência para nós, músicos nacionais -, mas quem esteve na linha da frente também - porque esta linha da frente tem muitas linhas - foram os artistas portugueses. Criou uma lição entre nós e público, criou rotinas diferentes que não existiam, nomeadamente as transmissões ao vivo. Eu fazia mas era de outra maneira, transmitia ao vivo a partir dos meus espetáculos, agora estou a fazê-lo a partir do Instagram e a partir do meu próprio estúdio, sozinho. Mudou hábitos, e também aproximou com esses hábitos a comunidade do artista.

A escrita não é novidade na sua rotina, mas haverá novos temas durante esta fase, a falar sobre esta experiência?

Dá-me a impressão que esta pandemia vai produzir muita coisa. Não necessariamente sobre a pandemia, sobre a crise. Esta pandemia obriga o criador a estar ele próprio retirado. Estou a falar de mim, mas também de qualquer escritor. Eu sou escritor de canções, mas Portugal tem uma tradução literária enorme, lembro-me, por exemplo, do Gonçalo M. Tavares, do Lobo Antunes, da Lídia Jorge, do Mário de Carvalho... Há uma comunidade enorme de escritores que neste momento tenho a certeza que está a escrever. Daqui a um ano, provavelmente, as editoras vão lançar livros que foram escritos nesta altura, não necessariamente sobre esta questão, mas motivados por esta questão e por esta necessidade dupla do isolamento. Porque o escritor já tem de escrever sozinho, e neste momento está mesmo sozinho, por isso, o que é que ele faz? Escreve. Para os autores esta rotina diária não alterou muito. Eu sou autor, mas depois vou para o palco. A minha rotina divide-se sozinho no silêncio, mas depois ando na estrada. Essa parte desapareceu, passou para os tais diretos. Mas a parte da escrita continua. Tenho neste momento mais umas cinco, seis músicas para as quais estou a escrever letra, sendo que estou a tentar escrever letras que não sejam sobre esta crise, mas que sejam sobre a realidade diversa.

Esta semana, no sábado, vou andar pelo Porto, num camião, com a Cuca Roseta. No dia 23 vou fazer um espetáculo drive-in, em Ansião, que se chama 'Vens de Carrinho'. Os bilhetes estão à vendaNeste momento é preciso reinventar para sobreviver na área?

De todos nós, temos de nos reinventar, não são só os artistas. Enquanto escritor, não me posso reinventar, isso não mudou, continuo a escrever. Agora o que se reinventam são os meios para se chegar às pessoas e isso está a acontecer.

Fiz no mês passado alguns espetáculos que foram diretos via Instagram, que são remunerados, e cujo valor, naturalmente, distribui com a minha equipa. Apesar de fazê-lo sozinho, a minha equipa também continua a pagar renda e a comer. E continuo a ter espetáculos. Esta semana, no sábado, vou andar pelo Porto, num camião, com a Cuca Roseta. No dia 23 vou fazer um espetáculo drive-in, em Ansião, que se chama 'Vens de Carrinho'. Os bilhetes estão à venda. É num parque de estacionamento e as pessoas estão dentro do carro a receber a música por rádio. Sintonizam a rádio que naquele momento criamos e estaremos no palco à frente dos carros.

 Há aqui lições que vão ficar, nomeadamente esta questão da ligação mais direta com aos fãs. (...) Esta adaptação já não volta atrás. Por isso é que é uma reinvenção. Os espetáculos vão voltar ao palco, mas este diálogo com os fãs vai continuar É uma forma de dar a volta ao facto de não conseguir subir ao palco neste momento para mostrar o seu trabalho.

É forçoso nesta altura nós não ficarmos a olhar para o chão nem deprimidos, é forçosa a reação... Acho que o novo normal vai ser muito diferente do antigo normal. Há aqui lições que vão ficar, nomeadamente esta questão da ligação mais direta com aos fãs, que tem sido uma constante. Os músicos aprenderam a fazer isso e a tomar nas mãos algumas iniciativas que, se calhar, há meses entregariam a outros. Ou então deixariam - para quê preocupar-me em tocar diretamente para os meus fãs se tenho marcados 30 espetáculos e estão todos esgotados. Esta adaptação já não volta atrás. Por isso é que é uma reinvenção. Os espetáculos vão voltar ao palco, mas este diálogo com os fãs vai continuar.

Além desta música, que mensagem de esperança gostaria de deixar a todas as pessoas que neste momento estão a passar por uma fase difícil por causa desta pandemia?

Remeto para a letra desta canção e para a música. É como se fosse um sussurro nos ouvidos das pessoas. É preciso manter esta ligação à realidade, mantermo-nos todos juntos porque não estamos só na tempestade - 'há adultos na sala'. É bom que percebamos que estamos a ter uma boa liderança, bons resultados deste confinamento. O vírus não foi embora, mas há a certeza de que virá uma vacina, coisa que noutras doenças não há - e estou a falar de doenças oncológicas, o VIH... que continuam a ser problemas mais graves do que a Covid-19. É propagável, mas sabemos que vai haver uma vacina e não há melhor esperança do que esta. É uma questão de paciência, de perseverança, de manter esta atitude cívica que os portugueses têm demonstrado. Vejam esta música no YouTube, é uma oferta aos portugueses e pode ser que ajude a passar este tempo cruel.

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