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"Ajustamento" é a ideia de que é possível voltar à pobreza

O historiador Pacheco Pereira afirmou, na sexta-feira, que a ideia de "ajustamento" tem um lado filosófico subjacente, de uma perspetiva "orwelliana", que pretende dizer que "é possível voltar a um estado natural" da economia que é a pobreza.

"Ajustamento" é a ideia de que é possível voltar à pobreza

Na conferência de abertura do 10.º Literatura em Viagem (LeV), que decorreu no salão nobre da Câmara Municipal de Matosinhos na noite de sexta-feira, Pacheco Pereira abordou, entre outros temas, a questão da linguagem 'orwelliana' (proveniente do nome do autor do livro "1984", George Orwell) para lembrar que "quem controla a linguagem controla o poder".

"Quando o governo anterior deixou de falar em cortes e passou a falar em poupanças, fez uma viragem 'orwelliana' típica. Deixou de haver cortes, que tinham uma noção negativa, passou a haver poupanças, que têm uma noção positiva. É uma pura manipulação, mas como a partir daí toda a gente passou a falar em poupanças, principalmente os senhores jornalistas da área económica, há um processo 'orwelliano' de controlo da linguagem", disse o comentador perante uma sala cheia, onde se encontravam figuras como o escritor Howard Jacobson ou o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira.

Pacheco Pereira salientou que essa manipulação da linguagem ocorre no quotidiano, mas ressalvou que "geringonça", o termo introduzido no discurso político pelo antigo vice-primeiro-ministro Paulo Portas para designar o atual Governo do Partido Socialista (PS) com o apoio parlamentar do Partido Comunista Português (PCP) e do Bloco de Esquerda (BE), "é de natureza diferente".

"O nome pretende ser descritivo de uma coisa que não funciona bem ou que é desconjuntada, não é propriamente, até porque pode ter um tratamento irónico", disse o social-democrata Pacheco Pereira.

É nessa sequência que Pacheco Pereira sublinha que "a ideia do ajustamento é filosoficamente muito interessante", isto porque: "é a ideia de que é possível voltar a uma espécie de estado natural da nossa economia e da nossa riqueza que é a pobreza e, portanto, nós vivíamos acima das nossas posses, era necessário ajustar. Essa ideia tem implícita a ideia de que há um estado natural que nós perdemos pelo esbanjamento".

O historiador portuense, proprietário de "cinco quilómetros" de biblioteca com raízes no seu bisavô, recordou que "muitas destas ideias são 'orwellianas', são um mecanismo de 'doublespeak'" e recorreu ao exemplo da antiga República Democrática Alemã, "que não era nem República, nem Democrática, nem alemã".

Numa palestra com mais de uma hora de duração, Pacheco Pereira partiu da ideia de que "a história da Europa é em grande parte a história dos seus livros e a sua história cultural é um dos fatores mais importantes da sua identidade", passando em revista obras como a "Odisseia", "Eneida", "A Divina Comédia" ou "Os Lusíadas".

No caso do livro de Dante, Pacheco Pereira mencionou os pecados mortais e, em particular, o da preguiça que não era a preguiça como é normalmente traduzida: "a preguiça é aquilo que os antigos chamavam à acédia, ou seja, o não assumir as suas responsabilidades, o ser indiferente em relação ao mal e isso é que era o pecado mortal".

"Os homens e as mulheres que estavam nessa parte do inferno [de Dante] eram homens que, face a grandes conflitos do seu tempo, tentavam manter-se sem ondas. Eram os homens do consenso. Andavam ali naquelas águas e nunca tomavam posição sobre coisa nenhuma. Era um meio prudente. E isso é que é um pecado mortal. Os partidários da acédia pensem duas vezes porque podem ir para o inferno não pela preguiça, mas pela acédia", afirmou o historiador.

O festival Literatura em Viagem decorre em Matosinhos até domingo, com participantes como Claudio Magris (que vai ser entrevistado por Rui Tavares), Lídia Jorge, Patrícia Reis, entre muitos outros.

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