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Economia ucraniana luta para se reerguer dois anos depois da invasão

A economia ucraniana procura recuperar-se apesar da guerra, dois anos depois do início da invasão pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022, suportada em grande parte pela ajuda militar e financeira internacional.

Economia ucraniana luta para se reerguer dois anos depois da invasão
Notícias ao Minuto

10:07 - 24/02/24 por Lusa

Economia Ucrânia

No ano do início dos combates, avassalador em vidas humanas e em destruição, o Produto Interno Bruto (PIB) ucraniano contraiu-se 29,1%, a maior queda desde 1991 (ano de independência do país), que compara com o crescimento de 3,4% registado em 2021.

Apesar do colapso, a economia ucraniana começou a trilhar o caminho da recuperação ao longo de 2023, com o crescimento do PIB real a superar as expectativas, principalmente devido às melhores colheitas e ao desenvolvimento de rotas alternativas de exportação.

O FMI previa no World Economic Outlook (WEO), em outubro do ano passado, que a economia crescesse 2% em 2023 e 3,2% em 2024, mas a diretora da instituição, num encontro em dezembro com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, destacou que "a economia apresenta um forte desempenho, prevendo-se que o crescimento do PIB atinja pelo menos 4,5%" em 2023.

Apesar da revisão em alta pela instituição de Bretton Woods, o Banco Nacional da Ucrânia está ainda mais otimista e, em janeiro deste ano, apontou para uma recuperação do PIB de 5,7% em 2023, seguido de um aumento de 3,6% em 2024, com uma desaceleração do crescimento justificada por uma "diminuição esperada nas colheitas" e "maiores disparidades no mercado de trabalho provocadas pela guerra".

Prevê ainda "despesas orçamentais a continuarem elevadas, tendo em conta os esperados fluxos suficientes de assistência financeira internacional" e uma nova aceleração do crescimento económico em 2025/2026 para 4%-6% ao ano.

A recuperação da economia ucraniana está, assim, fortemente dependente das exportações de cereais, que desde fevereiro de 2022, sofrem grandes perturbações. De acordo com dados do Conselho Internacional de Cereais, a sua produção no país caiu 29% na campanha de 2022/2023 face à de 2021/2022, prevendo-se que continue a reduzir-se.

Segundo dados da União Europeia (UE), em 2021, os agricultores ucranianos semearam quase 17 milhões de hectares de culturas de primavera, mas, após o início da guerra, em 2022 semearam menos 22% ("a área não semeada -- 2,8 milhões de hectares -- é quase equivalente à área da Bélgica").

Depois de mais de quatro meses no início dos combates de bloqueio dos portos ucranianos no Mar Negro por navios russos, esteve em vigor, entre julho de 2022 e 2023, a Iniciativa dos Cereais do Mar Negro (entre a Organização das Nações Unidas, a Rússia e a Turquia), que permitiu a passagem das exportações ucranianas através de um corredor marítimo. Contudo, em julho do ano passado Moscovo rompeu o acordo.

Segundo dados da UE, em julho de 2023, contabilizavam-se quase 33 milhões de toneladas de cereais e outros produtos alimentares exportados por intermédio da Iniciativa.

A Ucrânia tem procurado alternativas, como o acordo de cooperação que estabeleceu com a Roménia, mas a UE alerta que "embora o impacto da guerra nas exportações ucranianas de cereais tenha sido atenuado pela sementeira anterior à guerra e pelas grandes quantidades de existências acumuladas em 2022, as exportações futuras serão gravemente afetadas devido à perda ou deterioração das instalações de produção e às superfícies não plantadas".

Entre as medidas de apoio concedidas pela UE à Ucrânia inclui-se a liberalização temporária do comércio e outras concessões comerciais.

O presidente ucraniano tem-se desdobrado em apelos para que o Ocidente reforce os apoios financeiros, para reconstruir a economia, defendendo por exemplo a entrega dos ativos congelados por países terceiros à Ucrânia, para reconstruir "escolas, casas, abrigos antiaéreos, hospitais, universidades, igrejas" destruídas pelos ataques.

Paralelamente, tem-se reunido com representantes de grandes multinacionais -- como as gestoras de ativos JPMorgan e BlackRock -- para atrair investimento para o país.

No país, outro dos desafios passa pelo controlo da inflação, após o disparo registado no ano da invasão. O Índice de Preços no Consumidor (IPC) saltou de 10% em 2021 para 26,6% em 2022, reduzindo-se para 5,1% em 2023. Já a inflação core -- a que exclui os preços mais voláteis como energia e alimentos -- subiu de 7,9% em 2021 para 22,6% em 2022, diminuindo para 4,9% em 2023, segundo dados do banco central ucraniano.

O Banco Nacional da Ucrânia, que na última reunião, em janeiro, decidiu manter inalterada a taxa de juro diretora em 15%, destacou que, apesar da guerra, "a pressão inflacionista diminuiu significativamente no ano passado", com a inflação a abrandar para 5,1% em novembro e a manter-se neste nível em dezembro.

"As boas colheitas e os preços globais mais baixos da energia foram os principais fatores subjacentes à diminuição da pressão sobre os preços. A moratória sobre os aumentos tarifários para determinados serviços públicos desempenhou um papel importante", explicou o banco, em janeiro.

No entanto, a partir de meados deste ano, a inflação deverá voltar a acelerar ligeiramente, com o banco central a prever que o IPC feche 2024 nos 8,6%, caindo novamente para 5,8% em 2025.

As reservas internacionais da Ucrânia aumentaram 42% em 2023, para 40,5 mil milhões de dólares (cerca de 37,35 mil milhões de euros), em grande medida refletindo o apoio internacional, que o banco central acredita irá continuar a ser a principal fonte de fluxos de capital.

No cenário de base da previsão do Banco Nacional da Ucrânia, o país irá receber cerca de 37 mil milhões de dólares em empréstimos e subvenções estrangeiros em 2024.

A diretora do FMI reafirmou, em janeiro, a "estreita colaboração" da instituição no programa económico das autoridades apoiado no âmbito do Extended Fund Facility (EFF) de 15,6 mil milhões de dólares do FMI, que faz parte de um pacote de apoio internacional de 122 mil milhões de dólares (cerca de 103,22 mil milhões de euros).

"O financiamento externo atempado e previsível é fundamental para sustentar os ganhos económicos arduamente obtidos. Aguardamos com expectativa o nosso envolvimento contínuo com a Ucrânia na preservação da estabilidade macroeconómica e financeira, na implementação de uma agenda de reformas ambiciosa e na construção das bases para uma economia forte com crescimento sustentável e para o objetivo da Ucrânia de adesão à UE", disse.

A Rússia lançou na madrugada de 24 de fevereiro de 2022 uma ofensiva militar na Ucrânia, com forças terrestres e bombardeamento de alvos em várias cidades. A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas e políticas a Moscovo.

Leia Também: Secretário-geral da NATO exorta Ucrânia a "não perder a esperança"

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