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Para combater a desinformação "é preciso humanizar os factos"

O referendo do 'Brexit' ou as campanhas para as eleições europeias em Itália tornaram evidentes que, para combater a desinformação, é preciso não só apresentar os factos, mas humanizá-los, defende o jornalista e investigador Paul Rowinski.

Para combater a desinformação "é preciso humanizar os factos"
Notícias ao Minuto

08:44 - 20/02/21 por Lusa

Economia Investigador

Paul Rowinski acaba de lançar "Post-Truth, Post-Press, Post-Europe -Euroscepticism and The Political Crisis" ('Pós-Verdade, Pós-Imprensa, Pós-Europa - Euroceticismo e a Crise da Comunicação Política', em tradução livre).

O livro parte de uma análise ao discurso usado na campanha para o referendo do 'Brexit', nas eleições legislativas britânicas de 2017 e na suspensão do parlamento, em 2019, mas também das eleições europeias de 2014 e de 2019 em Itália e das eleições legislativas no mesmo país, para perceber como é que a comunicação social tem lidado com os fenómenos de populismo e da desinformação que os alimenta.

O diagnóstico é simples. Os políticos populistas "tendem a ser incontestados", afirma, em entrevista à Lusa.

"O que vemos é uma tendência para citar os políticos proeminentes e os políticos populistas, dar-lhes tempo de antena, porque criam uma boa história. É um bom conteúdo, porque eles são controversos por natureza, mas dar-lhes só a plataforma, sem desafiar as suas falsas premissas, alimenta o fogo e o jornalismo precisa de ser mais forte e de os desafiar", concretiza.

Mas, por vezes, os factos não chegam, reconhece o académico, dando o exemplo da campanha para o referendo do 'Brexit', em que "o 'fact-checking' da BBC não atingiu o nível emocional das pessoas".

Para um diagnóstico simples, é oferecida também uma solução simples: "Devemos servir-nos da noção, que, enquanto jornalistas, devíamos conhecer, de humanizar aqueles factos", defende Rowinski.

"A noção de não nos podermos ligar emocionalmente significa que, potencialmente, perdemos o público", afirma o jornalista.

Quando um dos lados "não quer uma discussão racional", é preciso "argumentar emocionalmente (...), mas, ao contrário dos populistas, pegando em factos para sustentar essa posição", considera.

Para o académico, "a matriz jornalística está desatualizada, não acompanhou os tempos".

Um dos problemas, refere, é que "esta noção de não ser parcial, sendo que o modelo é a BBC, cria, por vezes, uma falsa equivalência, e isso não resulta".

Essa falsa equivalência acontece quando é dado o mesmo tempo de antena e o mesmo tratamento a pessoas que não obedecem às mesmas regras, recorrendo, por exemplo, a noções falsas ou a discurso de ódio.

Exemplo disso foi a presença de Nigel Farage, líder do UKIP (partido britânico pela independência), num programa estandarte das manhãs da rádio BBC4, aponta o investigador, explicando que "Farage sentava-se lá e dizia 'inverdades' em relação à Europa e o entrevistador bem-educado quase que concordava com aquelas posições, em silêncio, e depois dirigia-se a um partido pró-Europa, provavelmente os Liberal Democrats, porque são o único partido claramente pró-Europeísta, e eram eles que respondiam às falsas premissas".

"Ao fazer isto, está-se a legitimar a premissa falsa. É como se se estivesse a tratá-la com respeito, dando-lhe um tempo de antena igual, quando o jornalista devia ter-se virado e dito 'desculpe, mas essa premissa é falsa'", prossegue.

Rowinski concorda que quando a pessoa em causa foi democraticamente eleita ou ocupa um lugar proeminente na sociedade, há uma obrigação de lhe dar cobertura mediática, até porque não o fazendo, "cria-se um mártir".

No entanto, recorda que "os 'media', invariavelmente, dão tempo de antena aos populistas antes de eles sequer terem tração".

"Podemos argumentar que, ironicamente, ajudámos a catapultá-los para posições de poder, por causa da forma como respondemos a eles", afirma.

Para Paul Rowinski, o jornalismo está a cometer o erro de "tentar competir com as redes sociais".

"As coisas tornam-se virais em minutos e estamos a cometer cada vez mais o erro de não verificar a informação, mas a produzir histórias que são, basicamente, uma série de citações do Twitter (...) Precisamos de abrandar, porque estamos a jogar o jogo deles e não o nosso", considera.

É preciso também, considera o autor, olhar para as causas do populismo e falar sobre elas.

"Há uma tendência na sociedade geral para olhar para as pessoas que apoiam o populismo e chamá-las de racistas ou intolerantes. Não temos a conversa constrangedora e difícil sobre identidade nacional, sobre assimilação numa nova sociedade, sobre racismo, integração, etc.", acrescenta.

O jornalista afirma que "pessoas como [André] Ventura, [Donald] Trump, ou [Matteo] Salvini são reflexos dos falhanços da classe política", mas também "da classe jornalística", que criaram "um vácuo que eles ocuparam".

Paul Rowinski foi correspondente internacional de jornais como The European e Scotland on Sunday e colaborou com The Independent, Financial Times, Deutsche Welle TV, Der Tagesspiegel e Die Zeit.

Publicou os livros "Evolving Euroscepticisms in the British and Italian Press. Selling the Public Short", em 2017, e "Post-Truth, Post-Press, Post-Europe. Euroscepticism and the Crisis of Political Communication", em 2020.

É responsável pelo mestrado em Jornalismo Internacional na Universidade de Bedfordshire, em Inglaterra.

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