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Viajar sozinha? Uma experiência Mindfulness

Um artigo de opinião assinado por Patrícia Araújo, Docente do IPAM-Porto/Universidade Europeia; Instrutora e Formadora de Mindfulness na Insight Timer Internacional, Universidade do Porto & Universidade lusófona do Porto.

Viajar sozinha? Uma experiência Mindfulness

"A meditação, e Yoga e a meditação Mindfulness em particular entraram na minha vida há mais de 15 anos e, desde então, tenho trabalhado, quer com indivíduos, quer com organizações, a levar os benefícios destas práticas a variados públicos.

Aliás, lembro-me que, por exemplo, quando trabalhei em projetos de promoção da igualdade de oportunidades em geral, e, logo, incluía também a igualdade de género. Andava irritada todos os dias, pois por muito que desenvolvesse fortemente a minha inteligência emocional, algo tocava-me fundo e não me conseguia desligar.

Adorava o tema, queria a promoção da consciência de igualdade em todos e debati-me por ela. Ver os homens a pagar muito mais nas discotecas, vê-los a ser afastados da paternidade e discriminados por escolherem profissões feminilizadas. E, pelo outro lado, ver mulheres a ser ainda remuneradas inferiormente, discriminadas por serem mães, ou terem ficado grávidas ou simplesmente por terem a história dos papéis construídos de género ainda nos ombros.

Irritava-me (e irrita-me ainda!), que tantos aspetos da nossa linguagem e comportamentos do dia-a-dia reflitam claramente a discriminação de género. Um exemplo cómico que me acontece sempre (mesmo sempre!) corre quando vou sair com um amigo do sexo masculino. Vamos a um café e eu peço um fino (ou imperial) e ele pede um sumo ou um café. Note-se que cada um pediu o seu. Quando a bebida é entregue, o sumo vem sempre para a mulher e o álcool vai sempre para o homem.

No que respeita a viajar sozinha, claro que tenho consciência que faz parte do medo e da educação que tive como mulher nos anos 80. Tudo grave pode acontecer... Pois, algumas partes do mundo poderão ainda não ser um lugar totalmente seguro para mulheres sozinhas.

Apesar de serem noticiados cada vez mais casos de violência contra as mulheres (vulgarmente apelidados de violência doméstica incorretamente, pois a violência doméstica engloba também violência contra idosos, e outros), é possível estimar com grande certeza que existam muitas menos ocorrências do que há uma ou duas décadas. A violência e criminalidade no geral, em Portugal, tem decrescido (as estatísticas comprovam), enquanto que os relatos e as denúncias aumentaram e são agora fortemente noticiados nos Media,  oque não acontecia há algumas décadas. Recentemente numa viagem, experienciei uma certa fusão engraçada do mindfulness, com a igualdade de género, que gostaria de partilhar consigo.

Durante muitos anos da minha vida, senti uma profunda pena quando via um viajante sozinho. Esse sentimento de compaixão multiplicava-se quando via uma mulher a viajar sozinha. Identificava desde sempre, em mim, esse gigante viés e preconceito, que me preocupava.

Depois de anos como psicóloga social a trabalhar em mudança de atitudes e, em particular, em projetos de promoção de igualdade de oportunidades e igualdade de género, fiquei com raiva de mim devido a esse pensamento.

No entanto, desafiei-me e comecei a viajar sozinha há poucos anos e, durante algum, ainda tinha pena dos viajantes solitários, e, curiosamente, ainda viajava com alguma pena de mim.

Vivia ainda dissonante, ainda que orgulhosa de conseguir conquistar parcialmente esse marco pessoal.

Hoje, cá estou, a almoçar sozinha, numa esplanada maravilhosa em Tenerife. A praticar o mindfulness (atenção plena) através da profunda observação. Observo diante de mim (em cerca de uma hora e pico de almoço) 12 viajantes que passaram à minha frente, sozinhos, cinco destes eram mulheres. Todos tinham um olhar profundo, alerta e observador. Uma passada certa, relaxada, de caminhante que absorve o que observa.

Muita coisa mudou nestas minhas viagens, por exemplo, o batimento cardíaco mais acelerado das primeiras viagens a sós, já não existe. Os receios e medos, passaram. E sim, já fui roubada, já fiquei isolada num país estranho, sem documentos, desesperada e a passar uma agradável tarde na polícia local a contar o sucedido. Uma experiência surreal.

Mas já não tenho pena de mim. Penso que se quisesse, teria angariado amigos para me acompanharem nesta viagem. Porém, agora já não se apresenta essa opção como a primeira. É azeite e água. Viajar acompanhado e viajar sozinho são experiências totalmente diferentes e acredito que todos os seres humanos beneficiariam de experimentar ambas.

Cada vez que faço mais uma viagem sozinha, mais me apetece fazer a próxima.

Ainda me ocorrem pequenos breves pensamentos de receios pela condição de viajar só. E sei que eles têm ainda algum motivo, mas infelizmente, partem de uma cisão de género que não faz sentido, pois os perigos existem para qualquer sexo ou raça. Centro-me na absorção plena da experiência, criando um estado de alerta e lúcidas incomparável.Viajar sozinho é uma experiência de estadia constante em mindfulness."

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