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China cresceu em África porque EUA e UE reduziram importações

A investigadora e especialista em questões chinesas Carmen Mendes considerou hoje à Lusa que o aumento da presença chinesa em África deve-se parcialmente à redução das importações do Ocidente desde a crise financeira de 2008.

China cresceu em África porque EUA e UE reduziram importações
Notícias ao Minuto

07:11 - 26/08/19 por Lusa

Economia Importações

"A crise financeira mundial [em 2007 e 2008] levou a uma redução muito significativa de importações por parte dos Estados Unidos e da Europa, o que obrigou a China a procurar novos mercados", disse Carmen Mendes, que é também a coordenadora do curso 'A China e os Países de Língua Portuguesa na Economia Mundial', na Universidade de Coimbra

Em entrevista à Lusa, a investigadora considerou que falta debate em portugal sobre a estratégia chinesa nas relações com o mundo e, particularmente, com a África lusófona e defendeu que "se não se entender a cultura relacional e social, mas também a cultura política chinesa, todos os conceitos que estão na base da formulação das grandes estratégias chinesas, é muito complicado estarmos preparados para o que muitos consideram ser a nova ofensiva chinesa".

Para Carmen Mendes, a presença chinesa nos países africanos lusófonos não é uma novidade, mas tem sido mais visível nos últimos anos.

"Pequim considera que tem com esses países uma relação de amizade que lhe pertmie entrar, negociar e angariar condições preferenciais, o que coincidiu com uma fase em que esses países, como Angola, não conseguiram da comunidade internacional, e de Portugal, o apoio que esperavam para a reconstrução e para o seu caminho de independência, e viram na China o aliado perfeito, que não impõe condições e ajuda de forma incondicional, sem lhes impor as condições impostas pelos países ocidentais", afirmou.

Este 'consenso de Pequim', que surge por oposição ao consenso de Washington, que essencialmente força a democratização política e a liberalização económica nos países sob assistência financeira de instituições com o FMI ou o Banco Mundial, tem vantagens e desvantagens, mas para as elites africanos o grande ponto positivo é que permite ultrapassar as carências de mão de obra qualificada na construção de infraestruturas.

"A forma de atuação da China em África pode ser vista de várias formas, mas para as elites políticas é muito vantajosa, porque são elites que por vezes não se conseguem organizar, até pela falta de recursos qualificados para, com as receitas dos seus recursos naturais, construírem as suas próprias infraestruturas e garantirem o desenvolvimento do país", diz a investigadora.

"É muito mais fácil para estas elites garantirem à China um fornecimento regular de recursos em troca de a China apresentar infraestruturas prontas", apontou.

No entanto, contrapôs, a desvantagem é que "a China leva a sua mão de obra, os materiais e até a comida" nas obras que faz em África, o que acaba por desenvolver a China fora de portas e garantir o controlo do desemprego na segunda maior economia do mundo.

Assim, a China "é vista por uns como um parceiro no apoio ao desenvolvimento, oferecendo infraestruturas e empréstimos em condições de forma muito atrativo e com resultados muito positivos, mas por outro lado há quem lembre que é um concorrente que aumenta o desemprego local, impede o desenvolvimento da indústria local, e há também quem aponte que é um neocolonizador que faz o mesmo que os antigos colonizadores faziam, que é ir buscar recursos naturais em troca do envio de produtos manufaturados e da construção de infraestruturas".

Questionada sobre qual das visões mais se aproxima da realidade, Carmen Mendes reconheceu que "num mundo ideal deveríamos ter os líderes africanos a gerir os seus recursos e a usar as suas verbas para organizar os seus recursos humanos e construir infraestruturas mas sem ficar dependente da vontade das empresas chinesas, como têm ficado".

No entanto, acrescentou, "para as populações locais é melhor ter más infraestruturas do que não ter nenhumas".

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