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"O que me fez ser o homem do café foi o café de Angola"

O comendador e empresário Rui Nabeiro, fundador de um dos maiores grupos empresariais portugueses, líder no mercado dos cafés e com negócios em Angola, disse, em entrevista à Lusa, que o que o fez ser "o homem do café" foi o café daquele país.

"O que me fez ser o homem do café foi o café de Angola"
Notícias ao Minuto

08:22 - 04/03/19 por Lusa

Economia Rui Nabeiro

"Comecei a vida com Angola, porque Angola era o principal fornecedor de café a Portugal. Aliás, naquela altura [Portugal sob o domínio da ditadura de Oliveira Salazar]", só podia comprar-se a Angola, Timor e pouco mais. Em Cabo Verde havia pouco e São Tomé ainda menos [na altura colónias]. Portanto, o que me fez ser o homem do café foi o café de Angola", afirmou Rui Nabeiro, para explicar por que já antes da independência tinha negócios no mercado angolano.

Até porque, "era o café que também transportávamos para os espanhóis, porque os espanhóis não tinham café e precisavam de divisas. Isto ainda antes da independência", explicou numa entrevista concedida a propósito da visita o Presidente da República de Portugal a Angola, que começa a 05 de março.

Por isso, desde muito cedo, o empresário português começou a caminhar para Angola, país onde hoje, com 86 anos, já vai muito menos, deixando essas viagens para filhos e netos que o sucedem na gestão do grupo.

"Para ver como era, porque sempre achei que era um mercado razoavelmente bom, e era. Neste momento é um bocadinho menos, mas vai ter uma grande posição nos cafés, também", considerou o comendador.

Após o 25 de Abril, o grupo Nabeiro criou uma empresa, a Angonabeiro, com uma unidade industrial de cafés solúveis no Cacuaco, próximo de Luanda, que estava parada.

"Estivemos lá por empréstimo, investimos lá muito dinheiro - hoje já estamos com escritura feita da compra da empresa".

Agora, a Angonabeiro está a investir na ampliação da fábrica e criou um armazém enorme, "obra feita por nós que está prestes a terminar", contou Rui Nabeiro.

Ainda este mês anunciou mais dois milhões de euros de investimento este ano na unidade de processamento, para compra de equipamentos e dotar a fábrica de maior capacidade de produção e logística.

A perspetiva do grupo no mercado é crescer, ter mais café para tratar e exportar também para os países vizinhos de Angola.

"A norte de Angola já fazemos qualquer coisa, mas pouco, porque também não tem havido grandes hipóteses, mas o que não há dúvida é que temos uma marca, a Ginga, que está no mercado angolano e estamos presentes em Luanda com intenção de levá-la a vários países da região", além da Europa, referiu.

Porém, admite que ainda "pouco poder de compra", em África, mas diz estar convicto que melhores tempos virão.

Angola já foi o quarto maior produtor mundial de café, com 200 mil toneladas anuais, antes de 1975. Essa produção está hoje reduzida a menos de 5%, fruto do abandono do cultivo durante a guerra civil angolana que se seguiu à independência.

As empresas do setor estimam que o país produz atualmente cerca de 3.000 toneladas de café - embora números oficiais apontem para 15.000 - e só a Angonabeiro comprou em 2014, a cerca de 20.000 produtores de várias províncias angolanas, 800 toneladas, o maior registo até então. No ano anterior conseguiu adquirir 600 toneladas e em 2012 apenas 500.

A Angonabeiro anunciou em 2015 o investimento de um milhão de dólares (900 mil euros) na aquisição da totalidade do capital da empresa pública angolana de produção de café Liangol, cuja gestão já assegurava há 14 anos.

Desde 2001 que a empresa do grupo português assumia a gestão da fábrica da Liangol, depois de garantir também a sua reabilitação e modernização, tendo em conta que estava desativada desde 1984.

A empresa ocupa uma área de quatro hectares, com uma zona de armazenamento, torra e embalagem de café, onde o grupo Nabeiro assegura a produção e comercialização de 250 toneladas do café da marca própria Ginga, que lidera destacada as vendas em Angola.

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