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Do futebol português para o lituano: "O maior problema é a ilusão"

Fábio Lopes foi para o Stumbras desafiado pelo projeto de Mariano Barreto. Em entrevista ao Desporto ao Minuto, o jogador de 24 anos recorda por onde passou e o que custou para chegar onde chegou. Não esconde que o futebol vive da ilusão mas acredita que a serenidade e a humildade o levarão mais longe.

Do futebol português para o lituano: "O maior problema é a ilusão"
Notícias ao Minuto

08:05 - 06/10/17 por Francisco Amaral Santos 

Desporto Fábio Lopes

Racional, prático e sem ilusões. Fábio Lopes acredita que a idade lhe trouxe maturidade. O mundo maravilhoso do futebol, que abraçou desde cedo, mudou de forma significativa e foi por isso mesmo que se mudou para a Lituânia. Depois de uma fase onde esteve a recuperar de lesão, um convite do professor Mariano Barreto fez Fábio Lopes não pensar duas vezes e em fazer as malas com vista ao frio lituano.

Agora, já com um título arrecadado, Fábio Lopes diz-se feliz e satisfeito por ter encontrado a regularidade que tanto procurava e precisava. Sem ambições desmedidas, com os pés bem assentes na terra e com o coletivo em mente, o português de 24 anos admite dificuldades em dominar a língua, mas nem isso o trava no sonho de elevar o nome do Stumbras.

Em entrevista ao Desporto ao Minuto, Fábio Lopes recorda o percurso desenhado até hoje, onde não faltam as passagens pelo Boavista e Tondela, sem esquecer o título conquistado em Espanha, ao serviço da equipa de juniores do Betis. Ah, e como é lógico, os anos de formação feitos no Sporting e no Benfica também foram tema de conversa. Afinal de contas, não são todos que têm a sorte (e o talento) de ter passado pela escola dos dois velhos rivais lisboetas.

Jamais pensaria que seria tão difícil poder alcançar coisas que provavelmente só veremos na televisão. O maior problema do futebol é a ilusão 

Que balanço faz da experiência na Lituânia?

Para já, o balanço é positivo. No primeiro ano, conquistámos a Taça da Lituânia. O primeiro prémio do clube e o meu primeiro prémio como profissional. A partir daí, o balanço só pode ser positivo. A época está a correr bem. O meu grande objetivo em vir para a Lituânia era jogar o máximo tempo possível. A adaptação correu bem, devido ao facto da equipa ter vários elementos portugueses, tantos jogadores como equipa técnica. Os lituanos também foram peça essencial, porque receberam-me bem, o que ajuda sempre…

Como surgiu o convite?

O convite surge através do professor Mariano Barreto, que é o grande líder deste projeto. Eu era um jogador livre e estava a recuperar de uma lesão, quando a apareceu a oportunidade de vir para a Lituânia. Sair de Portugal para integrar um projeto com o professor Mariano era algo ambicioso e daí ter aceite o convite.

Sentiu algum choque de realidade?

O primeiro contraste é a temperatura. Eu cheguei numa fase mais crítica do inverno deles. A temperatura estava negativa. Logo aí, acho que é a maior diferença que podemos encontrar. Chegar aqui, começar a treinar e a temperatura estar assim, não é nada fácil. Foram dois meses complicados, depois o tempo começou a melhorar. E depois a cidade e as pessoas são mais frias do que estamos habituados. As pessoas não são tão simpáticas logo no primeiro contacto. São pessoas mais seletivas, mais guardadas e não criam logo aquela empatia que nós portugueses estamos habituados. Mas depois, ganha-se a empatia e a partir daí é como se estivéssemos em casa. Quer dizer, é quase, nunca é bem a mesma coisa. (risos).

E já consegue falar a língua?

Aprendi algumas palavras mas é uma língua muito complicada. Aprendi só mesmo o básico e mesmo essas, devido à pronúncia, são difíceis de dizer. A língua em si ainda não consegui aprender.

A Taça foi uma conquista muito boa, mas há que colocar os pés no chão e centrar energias

Tem de recorrer ao inglês…

Sim (risos), é o inglês que nos vai safando! Aqui basicamente toda a gente fala inglês. A nossa equipa tem jogadores de todo o mundo.

Falou na importância do título conquistado. Era algo estipulado a tão curto prazo?

Um dos principais objetivos que foi falado seria o possível acesso ao play-off da Liga Europa. Neste caso, se fosse pelo campeonato, as quatro primeiras equipas têm acesso às competições europeias. Ou seja, poderia ser tanto pelo campeonato, como pela Taça. Foi conseguido pela conquista da Taça, mas não foi definido como o grande objetivo. A pouco e pouco fomos crescendo e acabou por acontecer. Apesar de não termos começado tão bem no campeonato, conseguimos a conquista da Taça, o que nos garante o acesso ao play-off da Liga Europa. As coisas foram acontecendo e no final fomos felizes.

Regresso a Portugal? Apareceram algumas hipóteses mas nada de concretoO que é que se segue agora? 

Neste momento, estamos no campeonato e a lutar pelo sexto lugar, uma posição que dá apuramento para a fase de campeão. A Taça foi uma conquista muito boa, mas há que colocar os pés no chão e centrar energias neste objetivo.

Pensa ficar na Lituânia muito tempo?

Tento não pensar muito nisso. Tenho contrato com o clube e estou bem aqui. Estou a jogar, e é esse o meu principal objetivo. As coisas têm corrido bem, apareceram algumas hipóteses mas nada de concreto. Vou continuar a fazer o meu trabalho, a dar tudo por esta equipa e depois no final logo se verá. Verei o que será melhor, tanto para mim como para o clube.

Em relação às sondagens… Houve alguma hipótese de regressar a Portugal?

Sim… Por acaso até houve uma certa hipótese, mas neste momento não é algo que eu tenha grande interesse. Neste momento, as coisas estão a correr bem aqui e estou a dar prioridade a isso mesmo. Se eventualmente aparecer alguma coisa relacionada com Portugal que valha a pena no futuro, pensarei juntamente com o professor Mariano.

Passou pelo Tondela e Boavista. O que faltou para se afirmar num destes clubes?

É sempre um pouco complicado analisar esses aspetos. O Tondela foi o meu primeiro ano enquanto profissional e posso dizer que foi um ano de aprendizagem. Apesar de não ter jogado muito, partilhei o balneário com jogadores mais velhos do que eu e com mais experiência, o que é sempre positivo. Mas posso dizer que, tanto no Tondela como Boavista, faltou um bocadinho de ajuda das outras partes. Principalmente no Tondela. Apesar de ter passado de júnior para sénior, sempre dei o meu máximo e, no final das contas, as pessoas reconheceram que estiveram erradas. Mas isso são coisas do passado, eu continuei fazer o que mais gosto que é jogar futebol. Talvez tenha faltado um pouco mais de ajuda das outras partes.

Antes, foi campeão nacional de juniores no Betis. Que recordações guarda? 

Estive cerca de dois anos e meio a jogar no Betis e posso dizer que foram dos melhores momentos da carreira que tive. É uma cidade diferente, um clube que vive outros aspetos do futebol. É um clube que pratica um futebol com mais qualidade e com outras características para o que estava habituado. Acho que é esse o maior problema em Portugal: juntar a intensidade à qualidade. Lá tudo correu bem, o balanço é muito positivo. Foi lá que me consegui afirmar e consegui acabar o processo de transição de júnior para sénior.

São tempos de formação que jamais posso esquecer. Aprendi muita coisa, basicamente são seis anos nos maiores clubes em Portugal.

Foi nessa altura que se falou no Nápoles. Houve, de facto, uma sondagem?

Sim, houve uma sondagem mas não com um contrato… Houve uma sondagem para que viajasse até Nápoles e que fizesse a pré-época com o plantel. Ou seja, era à experiência e depois logo decidiam. Não seriam uma ou duas semanas, seria uma pré-época inteira. Depois não aconteceu porque o que queríamos na altura era um contrato. Sim, ir ao Nápoles era algo fantástico, mas depois se corresse mal seria mais complicado para arranjar clube. Como o contrato não foi alcançado, acabámos por não avançar. Era um risco um pouco grande e naquela altura achámos que não seria a melhor altura para o fazer.

Por falar em formação, esteve tanto no Sporting como o Benfica. Sente-se um jogador mais completo por ter estado nos dois lados?

Posso dizer que sim. Em termos de evolução, foi fantástico poder jogar em dois dos melhores clubes que existem em Portugal. A transição [do Sporting para o Benfica] acontece no momento em que estou no Sporting e o Rui Águas passa para diretor da formação do Benfica. Eu era muito amigo do Martim Águas, filho do Rui, e éramos colegas de equipa. E as coisas no Sporting não estavam a correr bem. O Rui Águas assumiu a posição no Benfica e depois eu e o Martim fomos para lá.

Guardo um carinho especial pelos dois clubes. São tempos de formação que jamais posso esquecer. Aprendi muita coisa, basicamente são seis anos nos maiores clubes em Portugal. São clubes com formações ótimas, muito conceituadas na Europa e guardo um carinho especial pelos dois.

Ter esses dois nomes no currículo abre portas?

Sim, sem dúvida… O currículo também pesa. Passar bons anos nesses clubes, não foi meio ano nem um ano, foram seis acaba por ter influência. Ter o nome desses dois clubes no nosso percurso é sempre bom. Acredito que me tenha ajudado bastante. Conta sempre um pouco.

E na Lituânia, as pessoas conhecem Portugal e os clubes portugueses?

Presumo que seja comum em qualquer lado. A primeira reação quando ouvem falar em Portugal é... Cristiano Ronaldo (risos). Mas as pessoas têm algum conhecimento de Portugal, nomeadamente por causa do Cristiano Ronaldo. Conhecem os clubes que estão presentes nas competições europeias. Do país em si, acho que não têm um grande conhecimento. Acho que conhecem mais aqueles pontos turísticos mais famosos.

Tem planos futuros? Metas definidas ou objetivos traçados? 

Sendo sincero, acho que essas metas já estabeleci há algum tempo e vi que na verdade as coisas não são tão fáceis como nos iludem. Quando somos mais pequenos e quando vamos crescendo acho que somos um pouco iludidos daquilo que é futebol. As pessoas não têm noção, os adeptos acham que têm essa noção, mas somos nós que vivemos isto. Essas metas já foram estabelecidas há algum tempo, agora já não o faço. Tento desfrutar ao máximo porque é o que eu mais gosto de fazer e tendo fazer disso a minha vida. Mas nunca dizendo eu vou fazer isto ou aquilo. Faço o meu trabalho. O que tiver de vir, vai chegar.

Quando começou, tinha noção de que seria complicado viver do futebol? 

Jamais. Principalmente, quando eu vou para o Sporting. Fui muito novo. Vimos as coisas acontecerem tão facilmente e nós ficamos um bocado iludidos e vemos as coisas a passar. Quando chegamos a profissionais percebemos que não é assim tão fácil. As coisas pareciam mais fáceis, mas jamais imaginei isto. Sempre soube que existiram dificuldades, como existem em qualquer profissão do mundo, mas jamais pensaria que seria tão difícil poder alcançar coisas que provavelmente só veremos na televisão. O maior problema do futebol é a ilusão.

Acredita que agora os jovens ter uma maior perceção do que é o futebol?

Sim, sem dúvida. O meu pai costuma dizer que na altura dele era tudo mais complicado e e eu agora penso que na minha altura era mais complicado do que a geração futura. Para quem joga futebol e está a jogar num patamar mais a sério, acho que estão mais preparados para isso do que aquilo que eu estava.

A maior aposta na formação ajuda…

Sim, exatamente. Isso é ótimo para o futebol português e para o futebol mundial. Concordo com as alterações que tem sido feitas, são importantes.

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