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"Habituei portugueses a trazer medalhas de todas as provas. É um peso"

Lenine Cunha é um homem tornado num vencedor pela natureza. O atleta paralímpico mais medalhado do mundo, com 183 medalhas, irá tentar 'voar' mais uma vez no Rio de Janeiro. Medalha de bronze há quatro anos, em Londres, que chegar o mais longe possível no salto em cumprimento. Para já, promete fazer de tudo para orgulhar Portugal.

Notícias ao Minuto

11:38 - 11/09/16 por Paulo Jorge Rocha 

Desporto Lenine Cunha

Chega aos Jogos Paralímpicos com vontade de vencer na bagagem, mas sempre consciente de que a idade já pesa. Aos 33 anos, concorre com atletas com menos uma década em cima dos ombros, mas o facto dos portugueses o terem ajudado a financiar toda a sua preparação através de uma campanha de crowdfunding faz com que sinta a obrigação de deixar tudo na caixa de areia.

Com enorme esforço chegou à mais importante prova do mundo e diz que Portugal nada lhe pode exigir, explicando que o mais importante é estar em prova e apontando o dedo à falta de apoios do Governo português. “É no dia, é na hora e é ali que tudo se resolve”, diz e do lado de cá do Atlântico estarão todos bem atentos a um homem que já venceu mesmo antes de entrar na pista de tartan.

Esta é a segunda comitiva mais pequena de sempre nos Jogos Paralímpicos. Mesmo assim pode fazer sonhar os portugueses?

O que interessa é os atletas estarem aqui e participarem. A maior parte dos atletas trabalharam para tentar ganhar medalhas, embora seja difícil, mas principalmente para vir dar o melhor deles.

É um dos mais experientes da comitiva, tenta passar aos mais jovens essa experiência?

Eu espero que sim e alguns admiram-me bastante. É uma das coisas que irei fazer, já criei um clube com o meu nome e o principal objetivo é formar campeões. Temos várias reuniões agendadas com escolas do município de Vila Nova de Gaia para sensibilizar os diretores da escola, os professores de educação física e os pais para o desporto porque pode ser um caminho como foi para mim. Eu quero contar a minha história de vida para os sensibilizar, sendo um exemplo de superação.

Os atletas falam muito do espírito olímpico. Como são vividos esses dias nas Aldeias Olímpicas?

É sempre diferente. Os Paralímpicos são só a competição mais alta da carreira de um atleta. Portanto, trabalhamos para chegar aqui bem. O que tenho notado é que há muito companheirismo na comitiva portuguesa e estamos a torcer uns pelos outros e está a ser muito bom. No meu caso, já conheço os adversários que aqui estão. Sou o mais velho, de longe. A maior parte deles têm entre os 20 e 24 anos e eu tenho 33 e eles conhecem-me bem. Para alguns sou uma referência, já me disseram. Mas claro que há sempre rivalidade porque tem de haver senão não dá ‘pica’ nenhuma.

Recorde pessoal? Parece-me que não, mas às vezes fico surpreso comigo mesmo e nem sei como. É no dia, é na hora, é ali que tudo se resolve.

É o atleta paralímpico mais medalhado do mundo, com 183 medalhas, foi medalha de bronze em Londres e agora quer ainda voar mais alto? Um recorde pessoal?

Não. Vou voar, mas não mais alto. Eu sou o mais velho, tenho muitos anos de experiência, ela conta, mas tenho três grandes adversários mais novos e já com um recorde pessoal melhor do que o meu. Eu estou sempre presente nos momentos decisivos. Mas como eu só venho cá fazer o salto em cumprimento... Porque as outras provas onde sou recordista do mundo como o triplo salto ou o heptatlo, não existem no programa paralímpico. Aí, a história seria outra. Não vou mentir que gostava de repetir o feito de Londres, mas digo desde já que será muito difícil ganhar uma medalha. 

Chegar às 200 medalhas é um objetivo real?

É uma forma de motivação, vai-me fazer andar mais dois anos por cá. Agora já não digo que vou acabar, mas sim que vou até onde o meu corpo deixar. E quando vir que já não dou alegrias a Portugal, sou eu que dito o fim da minha carreira. Acho que o importante é estar aqui, porque é complicado devido às cotas atribuídas. Mas também temos muita gente nova, uma nova geração e isto vai mudar. 

Como é que mantém a ambição, sabendo que já conquistou tantas medalhas? O apoio que sentiu na campanha de crowdfunding é uma motivação extra?

Sim, sem dúvida. Eu vejo isso pela minha página do Facebook. As pessoas estão comigo e também com a seleção paralímpica. Mas também estou com um peso em cima dos ombros. Os portugueses ajudaram-me, foram fundamentais para [financiar] a minha preparação física e eu dei tudo o que tinha. Dei tanto que tive uma lesão, há cerca de três meses atrás. Mas agora estou bem e claro que o dinheiro do croudfounding me ajudou. Agora é estar lá e fazer o melhor.

Portugal e o Governo têm que mudar a mentalidade porque tem que haver igualdade entre nós e os olímpicos.

O Lenine já realçou as dificuldades financeiras que atravessa. Sente há falta de igualdade de tratamento entre atletas olímpicos e paralímpicos?

Sim, eu posso dizer que faço disto profissão mas é por causa dos patrocínios. Não é com o dinheiro da bolsa. Porque ninguém consegue viver com 386 euros por mês. A maior parte trabalha e depois vai treinar ao fim do dia. Mas Portugal e o Governo têm que mudar a mentalidade porque tem que haver igualdade entre nós e os olímpicos.

Numa entrevista recente disse que Portugal não pode exigir medalhas aos atletas paralímpicos. Mantém a opinião?

Pelas razões que acabei de lhe dizer, não podem. No meu caso, estou com um peso nos ombros porque os portugueses estão habituados a que eu traga medalhas de cada competição que eu vá. Mas estou tranquilo, sei que não é impossível ganhar uma medalha, mas que vai ser muito difícil.

As provas paralímpicas estão cada vez mais profissionalizadas, sente que há uma evolução no desenvolvimento dos atletas?

Sim, há muitos países que ajudam muito os paralímpicos. Muitos deles conseguem fazer disso profissão. Já não é como há 16 anos atrás, muitos deles conseguem fazer disto profissão porque o próprio país de cada um está a apostar imenso porque têm bolsas e apoios muito maiores do que os nossos.

Será a sua despedida dos Jogos Paralímpicos?

Eu vou até onde o meu corpo me deixar. Até posso estar em 2020, em Tóquio, mas aí não com aspirações a medalhas, mas mais pela participação.

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