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"Proibição dos fundos é uma hipocrisia por parte da FIFA"

Tiago Ribeiro, ex-presidente da SAD do Estoril, analisa, em entrevista ao Desporto ao Minuto, o papel dos fundos de investimento no mundo do futebol.

"Proibição dos fundos é uma hipocrisia por parte da FIFA"

Encarregue pelo fundo de investimento brasileiro Traffic de gerir os destinos do Estoril, em 2010, Tiago Ribeiro acabaria por levar o clube à melhor fase desportiva da sua história. Em entrevista ao Desporto ao Minuto, o ex-dirigente explica, com conhecimento de causa, alguns detalhes do mundo dos fundos de investimento.

Numa altura em que tanto se fala de fundos de investimento, como define a atividade destas empresas?

Existe uma grande confusão quanto ao que são fundos de investimento. Quando se fala de partilha de jogadores, existe muita ficção em relação ao que realmente é. Os tais fundos de investimento não são, verdadeiramente, fundos, mas sim empresas de investimento que fazem participação em ativos ligados ao futebol. E, quando se fala em partilhas de direitos e em divisão de jogadores, não é bem isso que sucede. Juridicamente, trata-se de uma cessão de eventuais créditos futuros. Há muito mito que se cria em torno deste tema.

Qual acha que é o motivo de tanta confusão?

Falta regulamentação e seriedade para tratar desse assunto. É um tema bastante delicado, que envolve suscetibilidades quanto à lisura da competição e da origem do dinheiro.

Tendo trabalhado com a Traffic, qual a origem do dinheiro usado para investir no futebol?

A Traffic é uma empresa que tem muitos anos de atividade em diversos setores ligados ao futebol e ao desporto em geral. O dinheiro vinha da empresa brasileira, que fazia a distribuição nas suas filiais internacionais. Esse dinheiro chegava-nos de forma totalmente segura e legal.

No entanto, José Hawilla, presidente da Traffic, foi recentemente detido pelo FBI…

Se houve envolvimento da empresa em outras atividades que, de forma ilegal, possam ter gerado algum tipo de benefícios financeiros, não me cabe a mim julgar. É um assunto que está nas mãos da justiça norte-americana. A meu ver, não há qualquer ligação direta com aquilo que foi a atividade desenvolvida aqui. O Estoril tem sido autónomo, tem gerado e vivido das suas próprias receitas desde que subiu à I Liga. Aliás, até tem feito distribuição de dinheiro para as empresas da Traffic.

Foi devido à falta de regulamentação que os fundos acabaram por ser proibidos pela FIFA?

Penso que não. Há hipocrisia por parte da FIFA. No que toca à origem do dinheiro, a FIFA também se deveria preocupar com a origem dos fundos dos seus próprios patrocinadores. Existem muitos casos de patrocínios ligados às federações em que nunca se preocuparam com a origem ou como foram constituídas essas empresas. É uma hipocrisia porque, no fundo, visa impedir mercados emergentes, como é o caso do português, de fazerem frente a mercados mais fortes e que acabem, por um lado, tendo mais competitividade, e, por outro, guardar os seus ativos durante mais tempo.

Acha então que foi uma decisão precipitada?

Os fundos têm de ser regulamentados, mas a FIFA optou simplesmente por proibi-los. A maioria dessas empresas estão intimamente ligadas a atividades do futebol, como é o caso da gestão de carreiras, e isso sim, pode criar uma relação nefasta porque acaba por ter uma interferência direta. Mas, havendo equilíbrio nesse sentido, esse dinheiro, que está disponível e que tem vindo para o futebol, talvez viesse de uma forma estruturada e segura, tanto para quem investe como para quem o recebe.

Os clubes também deveriam assumir maior responsabilidade nessa relação?

Da mesma maneira que quem investe tem que ser idóneo e não pode interferir com a competição, também quem recebe tem que ter responsabilidade nos seus próprios investimentos. Não pode, simplesmente, ter esse dinheiro como um ‘tapa-buracos’, uma forma de apagar falhas de gestões anteriores e continuar a incorrer nos mesmos erros. Esse equilíbrio é fundamental para essa atividade ser regulamentada. E não olhar para isto da maneira como a FIFA olha, dizendo que um jogador é uma pizza dividida em pedaços. Isso é uma falácia.

E qual o papel do jogador no meio de tudo isso?

Os direitos do jogador pertencem sempre ao clube. Nunca vi um jogador que estivesse envolvido numa situação destas que se tenha oposto ou tenha sido prejudicado por isso. Bem pelo contrário. Na maioria das situações, o jogador é objeto de um investimento e o resultado dessa operação é sempre rentável, tanto para quem investiu, como para o clube que beneficiou da atuação desportiva do atleta e que, sem a atuação do fundo, não o poderia ter, tanto como para o atleta, que, regra geral, vai para uma situação mais positiva.

Os clubes portugueses vão perder com a proibição dos fundos?

Não sei. Todos os clubes da I Liga têm tido resultados operacionais positivos, independentemente dos passivos. Mas é uma perda de dinheiro para o futebol em geral. Isso pode acarretar, a médio e longo prazo, uma perda de qualidade dos jogadores que vêm para cá. O futebol português vive de bons olheiros, treinadores e recrutadores, algo que o futebol europeu de nível mais alto, não sei se por comodismo, preguiça ou por terem mais dinheiro, acaba por não fazer. Mas é inevitável que existam este tipo de investimentos. Basta as entidades internacionais encararem este problema e regulamentarem-no.

E isso poderá ser feito a curto prazo?

Existem pessoas especializadas prontas para trabalhar nesse sentido, para acabar com esses discursos hipócritas e tratar tecnicamente esta matéria. O que se está a fazer é criar uma opinião baseada em argumentações que não têm sentido nenhum.

O caso mais mediático de conflito entre um clube e um fundo de investimento ocorreu entre o Sporting e a Doyen. Como viu essa situação?

É uma análise que o Sporting tem de fazer, se tem argumentos para não cumprir, cabe ao clube defender-se. O que digo é que o clube, quando faz uso de um dinheiro de terceiros para investir num determinado ativo, esse dinheiro tem de ser bem aplicado. Não pode entrar numa espiral para contratar ou pagar salários mais altos se o clube ainda tem passivo. Quando se recebe um investimento que vai beneficiar, em termos desportivos e financeiros, seja ele para comprar um ativo ou para pagar obrigações, tem de ser bem utilizado e não pode o clube beneficiar de investimentos de terceiros se não cumprir com as próprias obrigações.

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