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"Estive para desistir do futebol. Já ia fazer casamentos com o meu pai"

Mauro Cerqueira conquistou recentemente a Taça da Hungria ao serviço do Ujpest, mas o percurso no futebol esteve longe de ser fácil. O ex-jogador do Nacional e Académica esteve à conversa connosco e recordou alguns momentos que viveu até chegar ao clube onde está atualmente.

"Estive para desistir do futebol. Já ia fazer casamentos com o meu pai"

Formado no Sporting, passou por clubes como o Estrela da Amadora, o Nacional ou a Académica. Mauro Cerqueira tentou, este ano, a sorte no estrangeiro, e mudou-se de malas e bagagens para a Hungria. Ao serviço do Ujpest, conquistou a Taça da Hungria, mas a temporada não tem sido como esperava.

Após a conquista do troféu, o Desporto ao Minuto quis falar com o lateral esquerdo português e perceber como tem sido em particular este último ano fora de portas.

Numa entrevista exclusiva, Mauro Cerqueira confessou-nos que existiram vários momentos complicados ao longo da carreira e que até chegou a pensar em desistir do futebol.

Contudo, o 'bichinho da bola' não o deixou sair, e perseguir o sonho tornou-se o seu grande objetivo de vida. Aos 28 anos, Mauro Cerqueira procura, ainda, dar o salto para que possa ter mais projeção no futebol europeu.

Tenho mais dois anos de contrato, mas quero jogar. Não vim para aqui conhecer BudapesteComo é que tem sido a adaptação ao país e a um futebol que, certamente, é diferente daquilo a que estavas habituado?

Cheguei cá em setembro, não fiz pré-época. Apanhei um treinador que era sérvio e apostava mais no jogador sérvio da minha posição. Quando estava a engrenar, já bem fisicamente, tive Covid-19. Foram cerca de 30 dias infetados e, quando voltei, já não estava outra vez em forma. Acabei por não jogar muitos jogos esta temporada.

Não tem sido a época que esperavas…

Não. Esperava vir para cá, jogar e dar um salto outra vez. Tem sido uma experiência, correu bem na Taça, onde ganhámos o troféu, e onde eu também joguei mais. No entanto, em termos de campeonato, sinceramente, pensei que fosse mais fraco. Pensei que era uma liga mais física e com pouca qualidade. Quando comecei a ser convocado, vi que não eram assim tão ‘toscos’, digamos assim. O que me surpreendeu também foram as condições dos clubes, estádios quase todos novos e as equipas do top4 são muito boas.

Notícias ao Minuto O Ujpest FC venceu na final da Taça da Hungria o MOL Fehérvár após prolongamento© Reprodução  

Comparando com o futebol português, como classificas o futebol húngaro?

Em termos de nível técnico, os jogadores não são tão evoluídos. Aqui há jogadores mais físicos, mais agressivos, têm alguma técnica, mas não como em Portugal. Agora, em termos financeiros, condições, qualidade dos campos, não fica muito atrás.

E quanto ao futuro? O que pensas fazer já a curto-prazo, uma vez que a época está já perto do final?

Tenho mais dois anos de contrato, mas quero jogar. Não vim para aqui conhecer Budapeste. Preciso de ter minutos e vim para cá com o intuito de dar o salto. Sei que muitas equipas da Turquia, da Arábia, vêm cá ver muitos jogadores, mas lá está… Preciso de ter minutos. Tenho contrato, mas preciso de rever as minhas condições porque preciso de jogar. O clube, como ganhou a Taça, vai disputar uma pré-eliminatória da Liga Europa, o que é bom. Vamos ver.

Estive quase um ano sem jogar, estive para desistir do futebol e já ia com o meu pai trabalharRecuando ao início da tua carreira, fizeste grande parte da tua formação no Sporting. O que aconteceu para teres saído?

Sou sincero… Acho que já estava um pouco acomodado, eram muitos anos no clube, e, nos dois últimos anos, estávamos já na Academia, sentia que os diretores davam mais atenção aos jovens que lá ficavam. Tinham mais obrigações com os miúdos de longe porque viviam lá. No primeiro ano da Academia, eu fiquei na equipa B, fizemos uma boa época, e, nos sub-15, comecei bem, mas depois tive uma lesão de crescimento. Como se diz, depois ‘perdi o comboio’. No último ano, ainda quis ficar, mas acho que, no Sporting, já tinham uma imagem de mim que eu já não conseguia mudar. Senti que precisava de sair, mas também senti que já havia alguma falta de oportunidades.

Rumaste ao Estrela da Amadora e, apesar de estares ainda na formação, acompanhaste os anos difíceis do clube antes da extinção.

Para mim, foi um clube muito importante porque, depois de estar muitos anos no Sporting e sair, senti-me um bocado inferiorizado. Precisava de um ânimo, e foi o que senti no Estrela da Amadora. Podia ter ido emprestado para um Guimarães, para um Braga, mas eu nem quis. Tive um bom treinador, tínhamos um excelente grupo também, já ia treinar aos seniores, só que, entretanto, o clube acabou. Foi então que todos tivemos de decidir o nosso futuro, e a maioria foi para o Real Massamá. A nossa equipa ia subir toda, tínhamos muita qualidade, foi uma transição difícil com o fim do clube.

Foi um salto para sénior mais difícil do que o previsto?

Sim, as coisas no Real Massamá não foram fáceis. Não foi um clube que eu gostasse muito de passar, as condições, a organização… Depois, estive quase um ano sem jogar, estive para desistir do futebol, já ia com o meu pai trabalhar, que ele tem uma loja de fotografia e eu ia fazer casamentos com ele. Só que o ‘bichinho’ está cá e pedi ajuda a um amigo meu para voltar, e foi então que fui para o Elétrico.

Passaram-se mais alguma épocas até chegares ao Nacional da Madeira. Como é que aconteceu este salto?

Depois do Elétrico, fui para a Naval, e não foi fácil. Diziam que se recebia 200 euros, mas ao final do mês se calhar eram uns 30. Não faltou comida, nem nada, mas, entretanto, o clube também acabou por fechar. Fui para lá mais para jogar, sabes? Mas ainda fiz uns bons jogos lá, e, com ajuda do meu empresário, optei por ir para o Moura. O clube era bom, tinha um bom treinador, boas condições e optei por ir para lá. Foi no Moura que defrontei o Nacional em Rio Maior, e foi lá que eles me viram e ficaram interessados. Iam lá muitos olheiros, as coisas correram-me bem no Moura. No final do ano, lembro-me que estava na lista do Moreirense, do Nacional e do Vitória de Setúbal. Ainda cheguei a ir ao Moreirense, mas entretanto preferi algo mais concreto do que ir apenas a uma pré-época.

Notícias ao Minuto Mauro Cerqueira ao serviço do Nacional da Madeira num encontro frente ao Santa Clara, na II Liga© Global Imagens  

Foram na Madeira os melhores anos da tua carreira?

Foram quatro anos, e, no início, foi uma transição ainda difícil. Tive que melhorar muito, fisicamente também, porque era um ritmo diferente. No início, não foi fácil, mas gostei muito. Os meus melhores anos acho que foram quando o Costinha era o treinador.

Tu próprio disseste que pensaste em desistir. Quando chegaste ao Nacional, sentiste um alívio do género: ‘Bem, agora posso fazer disto vida’?

Antigamente, era mais complicado subir logo aos seniores. Agora, acho que é muito mais fácil. Hoje, os jovens que são juvenis já pensam em chegar à equipa principal. Eu nunca fui assim, mas mantive sempre o sonho, claro. Naquela altura em que estava mais perdido e quis deixar o futebol, pensava para mim: ‘Gosto tanto disto, o que é que eu vou fazer?’. Houve ali dois anos em que tentei mudar a mentalidade, trabalhar mais para alcançar o que eu queria. No Moura, ajudaram-me muito, e sabia que estava a jogar e a trabalhar bem. Acabou por acontecer de forma natural.

Agentes? Às vezes, quando estás menos bem, ajudam-te menos. Agora, claro, um Jorge Mendes trata-te da vida e nem é preciso fazeres muito.Depois do desafio na Madeira, rumaste à Académica. Havia muita esperança no projeto de subida quando lá estiveste. O que é que aconteceu para as coisas não correrem como o previsto nesse ano?

Eu tive proposta para renovar com o Nacional, mas já ia para o meu quinto ano e estava já algo acomodado. Sentia-me muito bem, mas optei por ir para a Académica. Na altura, o César [Peixoto] era o treinador e falou comigo para me dizer que o futebol ia ser ofensivo e atrativo, o que era bom para mim, porque sou um lateral ofensivo. A pré-época correu bem e tinha tudo para certo, mas, quando começou a II Liga, jogávamos bem, mas as coisas não estavam a sair totalmente bem, faltava aquela pontinha de sorte. Entretanto, houve alguns pagamentos em atraso, o mister foi embora e ficámos um bocado à deriva. Chegou um novo treinador, com um futebol mais pragmático, mais na luta… Acho que mudou um bocadinho. Não jogávamos ‘tanto’, mas já tínhamos aquela ponta de sorte que faltava. A partir de janeiro, tive uma proposta para sair para a Polónia, acabei por não me focar, perdi o lugar e acho que desliguei um bocado a ficha naquela reta final de época.

Notícias ao Minuto Mauro Cerqueira a disputar a bola com Raul de Tomas, num jogo particular frente ao Benfica, na época 2019/20© Global Imagens  

Ficou algum arrependimento ao longo da tua carreira?

Acho que aprendes sempre com os erros e com as coisas menos boas que vão acontecendo. Acho que só mudava o facto de não pensar na vida profissional mais cedo, entendes? Ali em idade de juvenil ou nos juniores, deveria ter tido outra mentalidade. Talvez tivesse feito outro caminho.

Falando precisamente nessa profissionalização, achas que os jovens de hoje em dia já vêm o futebol com outros olhos?

O Ronaldo, na sua altura, já trabalhava sozinho no ginásio e fazia muita coisa que outros não faziam. Mas era um em mil. Agora, por exemplo, venho a Lisboa e vou ao ginásio treinar e vejo miúdos de 15 e 16 anos já a treinar com personal trainers. É uma melhoria. E acho que, hoje em dia já se dá muito mais atenção aos aspetos físicos. Podes ter muita técnica, mas, se não fores fisicamente forte, esquece… É o que acho.

Atualmente, já vemos muitos jovens também ligados a empresas de agenciamento de jogadores. Achas que, no teu caso, poderias ter beneficiado mais se já tivesses alguém a gerir a tua carreira?

Hoje em dia, já há quase mais empresários do que jogadores, mas só assinei agora com um empresário para vir para aqui [Hungria]. Porque, sem minutos, só o Jorge Mendes é que te mete numa equipa boa. É claro que eu estando aqui, preciso sempre de contactos. Mesmo que não jogues, se fores apresentado ao presidente por um amigo dele, se o empresário for amigo do presidente, se calhar, tendo a mesma qualidade que outro jogador, és tu que jogas. É sempre bom ter alguém próximo de clubes, que conheça diretores desportivos, acaba por facilitar, mas depende sempre de nós, jogadores. Até porque, às vezes, quando estás menos bem, ajudam-te menos. Agora, claro, um Jorge Mendes trata-te da vida e nem é preciso fazeres muito.

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