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"Atendi a chamada do Thierry Henry e tudo fez sentido para mim"

Campeão nacional de juniores em duas ocasiões, João Tralhão esteve 18 anos ligado ao Benfica. Aventurou-se em 2018 no Monaco, onde foi adjunto de Thierry Henry, e hoje procura um novo desafio que lhe 'encha as medidas'. O técnico de 40 anos partilhou com o Desporto ao Minuto parte da sua experiência no futebol e nós contamos-lhe tudo.

"Atendi a chamada do Thierry Henry e tudo fez sentido para mim"
Notícias ao Minuto

07:22 - 20/10/20 por Ruben Valente 

Desporto João Tralhão

Foi no Benfica que João Tralhão cresceu como homem e treinador. É o próprio a admiti-lo até porque, no final de contas, foram 18 anos de ligação ao clube da Luz. Começou a sua carreira com 20 anos e já lá vão outros tantos como profissional.

Foram vários os nomes da formação do Benfica que por si passaram nos sete anos em que orientou os juniores dos encarnados. João Félix, Rúben Dias, João Cancelo, Renato Sanches... uma lista que já vai longa e da qual João Tralhão se orgulha. 

Porém, o técnico deixou de ter a águia ao peito em 2018, ano em que se mudou de malas e bagagens para o Mónaco, a convite do seu amigo Thierry Henry. O técnico francês convidou Tralhão para seu adjunto, mas a aventura no principado francês terminara antes do previsto. Hoje, com 40 anos, o técnico português procura um novo desafio profissional, mas tem bem ciente aquilo que pretende: um clube ganhador. 

Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, João Tralhão recordou connosco um pouco daquele que foi o seu trajeto enquanto treinador de futebol e enquanto potenciador de jovens futebolistas - que atualmente já brilham em alguns dos maiores palcos do mundo.

Disseram-me: 'Esta vaga é tua. Tiveste esse mérito'. Foi assim que entrei no BenficaComeçou a sua carreira aos 20 anos e já lá vão outros 20 de trabalho. Foi um objetivo bem traçado desde início este de ser treinador de futebol?

Tinha muita paixão pelo futebol e pelo jogo. Enquanto jogador, não atingi o nível profissional, mas quando jogava tinha muita paixão pelo jogo e era já um menino muito apaixonado pelo futebol. Isto cruzado com a minha personalidade, a minha forma de estar, fazia com que tivesse muita vontade em perceber como é que o jogo funcionava. Não era também por acaso que nas equipas por onde passava era o capitão. Sempre tive muito interesse sobre o que era o treino e, há precisamente 20 anos, decidi seguir o desporto pela via académica. Entrei primeiro na Universidade de Rio Maior, onde encontrei pessoas extraordinárias, e, no segundo ano, entrei na Faculdade de Motricidade Humana - porque queria ser professor de educação física, mas já estava a pensar ser treinador de futebol.

E como é que surgiu a oportunidade no Benfica?

Foi precisamente na Universidade de Rio Maior que tive essa oportunidade de entrar para as escolas do Benfica. Havia um estágio aberto, devido a um protocolo da universidade, para os alunos com melhor rendimento nesse ano, e foi assim que fui para o Benfica. Ainda assim, como ia mudar de faculdade na altura, falei com o professor João Paulo Costa e expliquei que se calhar era mais justo dar a minha vaga a outro aluno. No entanto, ele disse-me: ‘Por teu direito, esta vaga é tua. Tiveste esse mérito’.

Numa carreira construída durante muitos anos no Benfica, em 2011 deu talvez um importante passo, o de assumir a equipa junior dos encarnados. Sentiu uma responsabilidade acrescida por orientar os jovens talentos da academia antes destes darem o salto para as equipas séniores?

Antes disso ainda há uma história por trás que foi importante. Fui durante alguns anos adjunto dos sub-19, com treinadores com os quais aprendi muito. Em paralelo, era adjunto dos juniores e treinador principal dos escolas sub-10, e, em determinada altura, em 2008, quando José Antonio Camacho sai do Benfica, o clube decidiu promover o Chalana. Como era adjunto dos juniores, fui treinador-adjunto da equipa principal para poder ajudar o Chalana e a restante equipa técnica. Tinha 27 anos na altura e essa foi a minha primeira experiência no futebol sénior. Foi um momento de grande privilégio trabalhar com jogadores como o Rui Costa, Nuno Gomes, Luisão, Di María… Depois sim, em 2011, começa o meu trajeto como treinador principal da equipa junior do Benfica.

Para um treinador com apenas 27 anos, acredito que tenha sido muito importante essa experiência na equipa principal com jogadores de grande nome não só em Portugal, como no mundo.

Foi um marco importante na minha carreira. Não só pelo simbolismo, mas pela consciência de que era ali que queria estar. Senti-me como peixe na água. Senti-me muito confortável a trabalhar naquele ambiente. Sabia, no entanto, que para chegar àquele nível havia ainda muitas etapas a percorrer. É onde quero chegar e naquele momento já tinha essa consciência.

Jovens do Seixal que corresponderam? Acertei muitos, mas outros, que considerava que poderiam chegar ao mais alto nível, ainda não chegaram lá ou não vão chegarO João foi um dos treinadores que acompanhou todo o processo de criação e desenvolvimento do Benfica Campus. Há, de facto, um antes e um depois na formação do clube?

Experienciei essas duas realidades. Estive no clube quando a formação do Benfica trabalhava ainda no antigo estádio da Luz e treinávamos em muitos sítios. Vivi essa realidade com condições menos ajustadas para um clube de grande dimensão e depois vivenciei o pós, ou seja, quando foi criada a Academia. Acho, no entanto, que é injusto dizer que há um antes e um depois na formação do Benfica. Quando falamos na formação de um clube grande, neste caso do Benfica, uma das coisas que concluo é que as pessoas sempre foram de elevado nível. Houve sempre grandes jogadores, grandes treinadores e grandes profissionais ligados à formação do Benfica.

Existiram sempre muitos recursos humanos com muita competência, apercebi-me disso desde muito cedo. Agora, o que elevou o nível foram, de facto, as condições que um centro de estágio promove. Uma coisa é treinar num meio-campo pelado ou num sintético com dimensões reduzidas, outra coisa é ter um campo para treinar como deve ser, com balneários como deve ser, com todas as condições para fazer um trabalho adequado para o desenvolvimento dos jogadores. Obviamente que todas essas condições foram completamente diferentes e ajudou a elevar o nível de toda a gente que trabalhava à volta da formação. E o resultado desse aumento da qualidade de todas as pessoas que já lá estavam ajudou ao objetivo de todo um projeto de formação, que é ajudar os jogadores a crescer. Foi um marco histórico no clube.

Foram vários os jogadores que hoje brilham em grandes clubes europeus que passaram pelas mãos do João. Lembro-me, de repente, de João Félix, Rúben Dias, João Cancelo, Lindelöf, Gonçalo Guedes… Se lhe perguntar qual foi o jovem com mais talento que já treinou, consegue apontar-me um nome?

Percebo a pergunta, mas seria demasiado pretensiosismo da minha parte dizer que este ou aquele ia ser craque ou chegar a este ou aquele nível. Naquelas idades há indicadores que te levam a acreditar que os jogadores vão atingir determinado patamar, mas nunca tens os indicadores todos. Aquilo que fazia, juntamente com todo o staff e a estrutura da formação, era encontrar o maior número de indicadores que nos permitissem olhar para o futuro deles com a maior exatidão possível, com indicadores de potencial, mais do que indicadores de performance. Óbvio que tinha opinião pessoal sobre cada um dos miúdos, mas posso dizer que todos os anos procurei ser o treinador certo para aquele tipo de jogador. O objetivo era criar o ambiente certo para que pudessem ser muito melhores. Os nomes vou guardar para mim… Felizmente, acertei muitos, mas, infelizmente, outros que considerava que poderiam chegar ao mais alto nível, ainda não chegaram lá ou não vão chegar.

Notícias ao MinutoJoão Tralhão foi treinador principal da equipa de juniores do Benfica durante sete épocas© Global Imagens

Pegando exatamente nesse ponto, consegue apontar um jovem que tinha muito talento, na sua opinião, mas que acabou por não atingir o potencial por uma ou outra razão?

Como te disse, não vou partilhar nomes por uma questão de respeito. O que te posso dizer é que me baseei sempre no maior número de indicadores de potencial que cruzava com indicadores de rendimento. Felizmente, não por mim, mas pelos jogadores, grande parte está no nível que nós imaginávamos e preconizámos.

O Benfica, este ano, optou por emprestar vários jovens a outros clubes com o objetivo, segundo o clube, de os potenciar para voltarem e poderem estar noutra fase de maturação. De todos eles, entre nomes como Tomás Tavares, Jota, Tiago Dantas, Florentino ou mesmo alguns que ficaram na Luz como Ferro e Gonçalo Ramos, qual é aquele que na sua opinião tem mais condições para vingar de águia ao peito?

O que acho importante as pessoas perceberem é que em todos os trajetos de formação de jovens jogadores é preciso tempo. Temos pressa e queremos que a velocidade de crescimento seja a maior possível, sem entender que o percurso de um jovem para chegar ao nível desejado não é linear. Não falo só do Benfica, falo de Portugal, da Europa, do mundo… O mais importante é perceber que estes jogadores precisam de ganhar capacidade de competir com regularidade e que encontrem dificuldades que lhes permitam ganhar capacidade de resiliência, capacidade de serem competitivos e de poderem valorizar-se num clube de dimensão grande. Temos sempre de ter em mente o princípio da individualidade, cada jovem tem a sua história, cada jovem tem momentos diferentes para aparecer ou não. Por isso, não se pode comparar jogador A, B ou C. As avaliações sobre estes jovens devem ser feitas daqui a uns anos, porque a evolução não é linear. Cada jogador precisa de tempos diferentes. Estamos a falar de jovens com grande talento visível e invisível, porque são atletas de grande personalidade e carácter.

O João esteve muito perto de conquistar a UEFA Youth League no Benfica em duas ocasiões. O que é que se diz a miúdos de 17 e 18 anos quando se perde uma das mais importantes finais do seu escalão?

Tive a possibilidade de estar duas vezes na final da competição. O que se diz a esses jovens é que nada começou ali, nem nada acaba ali. É uma final importante, como são todas as finais do dia-a-dia na vida destes jovens, como foi para mim enquanto treinador. Foi também muito importante para o clube atingir a final no primeiro ano da competição, contra todas as expectativas. Houve muitos clubes a investir bastante para chegar à final e fomos nós que lá chegámos. Não conseguimos ganhar, mas estivemos brilhantes na final.

Nesse primeiro ano, estávamos completamente devastados porque queríamos ganhar, mas, por outro, estávamos otimistas, porque era mais um marco importante na vida daqueles jovens. Há jogadores que estiveram nessa final que estão a construir carreiras de grande sucesso, por isso a vida não acaba ali. Mais importante do que ensinar a lidar com as vitórias, é ensinar a viver com as derrotas, mesmo aquelas que nos custam mais. Foi isso que enquanto treinador tive responsabilidade de fazer. A grande vitória dessas finais não se iria ver ali, mas sim daqui a três ou quatro anos quando estivessem ao mais alto nível. Deixa-me só frisar que isto não choca com aquele que era o nosso grande objetivo, que sempre foi ganhar. Só tínhamos na cabeça ganhar aquelas finais.

Não era fácil deixar o Benfica, eram já 18 anos numa casa que me ajudou a crescer e à qual devo tudoEm 2018 deu outro salto e deixou os juniores da equipa do Benfica. Passou a orientar os sub-23 e, ainda na mesma época, aceitou o desafio do Monaco, onde foi adjunto de Thierry Henry. Foi um convite do próprio?

Teve origem no meu curso de UEFA Pro, no País de Gales, onde conheci muitas pessoas do futebol internacional. Queria continuar a formar-me e desafiei-me a ir para fora. Conheci muitos ex-jogadores de nível internacional e tive o privilégio de conhecer o meu grande amigo Thierry [Henry]. Desde logo tivemos uma sintonia muito próxima. Encantou-me a forma como ele via o futebol e as experiências que tinha enquanto jogador. E acho que ele também ficou satisfeito com a minha forma de ver o futebol e também ao nível do treino. Criámos uma ligação quase perfeita e, em primeiro lugar, uma amizade.

Quando surgiu a oportunidade de ir para o Monaco, foi com alguma surpresa que atendi o telefonema a perguntar se estava disponível em fazer parte do staff dele. Tudo fez sentido para mim. Não era fácil deixar o Benfica, eram já 18 anos numa casa que me ajudou a crescer e à qual devo tudo. Criei muitas ligações no clube, mas sou treinador de futebol e a minha ambição é treinar ao mais alto nível. Sei que esta profissão se faz com diversas etapas, e, para mim, essa etapa fez sentido. Já tinha sentido ‘esse cheirinho’ quando fui adjunto da equipa principal do Benfica, em 2008, e neste enquadramento senti-me mais do que preparado para ajudar o Thierry a desenvolver o seu trabalho no Monaco, que era um clube que estava a viver um período mais delicado. E, além disso, senti-me desafiado a atingir os objetivos que pretendo.

E como foi a sua primeira experiência fora de Portugal num clube de grande dimensão como é o Monaco?

Foi incrível por dois lados. Primeiro, porque do ponto de vista coletivo tivemos muitas vivências em equipa num clube incrível e com pessoas incríveis. Aprendi muito, mesmo muito, com muitas pessoas. Depois, de um ponto de vista mais técnico, as coisas não correram como pretendíamos, porque levámos um projeto que, de certa forma, não se ajustava à necessidade atual do clube - que era sair rápido da linha de água. A nossa visão era criar pilares para, num futuro próximo, estarmos mais fortes. Não fomos felizes do ponto de vista do resultado, mas acredito que fizemos um belo trabalho para que alguns pilares para o futuro fossem criados. O treinador anterior, o Leonardo Jardim, era fenomenal e fez um trabalho muito bom no Monaco. Sabíamos que não era por ele que o clube estava naquela situação. De alguma forma, foi uma bola de neve que se criou. As coisas não correram bem, mas nas Taças tivemos algum sucesso. A Liga dos Campeões foi uma experiência muito boa, excelente, e foi bom participar. É, de facto, uma competição de outro nível, não há comparação na Europa.

Notícias ao MinutoApresentação da equipa técnica de Thierry Henry no Monaco. João Tralhão é o segundo a contar da direita© Getty Images

O facto de terem sido apenas alguns meses de trabalho, uma vez que a equipa técnica de Henry foi demitida, levou-o a pensar que tomou o passo certo na hora errada?

Quando tomamos decisões, temos de estar conscientes das decisões que tomamos e eu estava decidido a dar esse passo. Quis desafiar-me. Felizmente, no Benfica tive o apoio de todos, desde o presidente às pessoas que trabalhavam diretamente na formação. Esse suporte e o facto de todos entenderem o desafio de que necessitava na minha carreira, ajudou a tomar a decisão. Trabalhei e cresci no Benfica durante 18 anos e só iria sair se tivesse o suporte que tive. Tomei a decisão em consciência, porque era um passo que queria dar. Queria trabalhar num contexto diferente daquele em que trabalhei nos últimos 18 anos porque, como disse, na vida de treinador temos de nos desafiar constantemente. Apesar de me sentir desafiado no escalão sub-23 do Benfica, queria passar para outro nível e tive essa oportunidade. Dei o meu melhor para ajudar o Monaco, para ajudar o meu amigo Thierry, infelizmente as coisas não resultaram, mas saí dessa experiência muito mais treinador.

Trabalhou com um novo colega, neste caso o Thierry Henry, treinou jogadores como o Fàbregas, Falcão, Jovetic. Certamente que foi uma grande aprendizagem.

Sim, e uma das melhores coisas que trouxe do Monaco foi a relação que criei com as pessoas. E quando digo pessoas, vai desde o presidente até à técnica de equipamentos. Vivi o clube 24 horas por dia. Nós entrávamos na academia por volta das 07h00 e saíamos às 21h00. Aquilo que trouxe de melhor foi também a relação com os jogadores, ainda hoje temos uma relação fantástica, uma proximidade muito grande com jogadores que já passaram por muitas experiências no futebol como o Falcão, o Fàbregas… como também com aqueles miúdos que estavam a despertar na altura. Era essa a nossa visão na altura, apostar em vários jovens da formação como o Badiashile, o Jonathan Panzo, o Benjamin Henrichs, o Massengo, o Thuram… Tantos jogadores que vinham da formação, nós queríamos ajudá-los a afirmarem-se o mais rapidamente possível na equipa principal. Foi uma das nossas missões.

E agora, o que se segue para o treinador João Tralhão? Ou o que gostava que se seguisse?

O próximo passo é estar consciente de que irei trabalhar num clube onde me sinta capaz de elevar o nível. Sou um treinador que gosta de vencer, não gosto de estar por estar. É fundamental que o projeto onde entrar se identifique com este nível de cultura: maximizar o nível dos jogadores e ganhar. Podemos não vencer, mas jogaremos sempre para ganhar. É este tipo de projeto que estou à procura. Já tive vários convites de várias partes do mundo, mas até agora ainda não apareceu a oportunidade certa. O mais importante é, no próximo clube onde estiver, sentir que o João Tralhão vai ser mais um a ajudar a elevar o nível, tanto nos resultados como na potencialização de jogadores. Quero atingir o topo do futebol mundial e sei que tenho capacidade para isso, mas há ainda muitas etapas para lá chegar. Estou aberto a oportunidades e continuo sempre a preparar-me. Em breve, certamente, estarei no ativo a fazer aquilo que tanto gosto.

Notícias ao MinutoJoão Tralhão à conversa com Thierry Henry antes de um jogo com o Club Brugge para a Liga dos Campeões© Getty Images

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