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"Quando cheguei aqui as temperaturas rondavam os 50 graus, foi um choque"

Ricardo Valente faz o balanço da experiência que está a viver ao serviço do Hatta Club nos Emirados Árabes. O avançado português de 28 não esconde que passou por algumas dificuldades na fase inicial da nova aventura, mas revela-se agora totalmente adaptado e diz-se rendido ao Dubai.

"Quando cheguei aqui as temperaturas rondavam os 50 graus, foi um choque"

Ricardo Valente mudou-se no verão para os Emirados Árabes Unidos para aceitar o convite do Hatta Club. O jogador português de 28 anos cumpre, assim, a primeira experiência internacional e garante estar perfeitamente adaptado depois de uma fase inicial mais complicada. 

Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, Ricardo Valente faz o balanço de uma aventura diferente e desafiante na qual se sente bem e capaz de mostrar todas as suas capacidades. 

O jogador formado no FC Porto e no Leixões aborda também a situação negativa que viveu no Marítimo na última temporada, mas deixa a garantia que deixou o clube insular de consciência tranquila e realça que prefere guardar as boas memórias que viveu na Madeira. 

Ricardo Valente deixa ainda uma palavra de agradecimento aos vários treinadores com quem se foi cruzando e enumera aqueles que mais o marcaram, tal como Sérgio Conceição, Rui Vitória ou Daniel Ramos. 

Quis sair da minha zona de conforto

Que balanço faz desta aventura nos Emirados Árabes?

Para já, o balanço é positivo. Claro que tive a minha fase de adaptação. Foi uma mudança muito grande e é a minha primeira vez fora de Portugal. Mas a adaptação foi mais fácil do que eu pensava. É sempre difícil, mas até foi uma adaptação rápida. O Hatta estava na segunda divisão na temporada passada, subiu e agora, nesta época, estamos a conseguir estar a meio da tabela. O objetivo é conseguir a permanência e para já o balanço, nesse aspeto, é muito bom.

Quando recebeu este convite aceitou prontamente?

Eu tinha a ideia de ir para fora de Portugal e experimentar outro tipo de campeonato. Claro que não foi uma decisão fácil, mas depois de ver o projeto e de falar com as pessoas que o compõem, achei que seria um bom desafio. Achei que era o momento em que deveria fazer isto. Já tinha existido no passado essa possibilidade, mas era agora que precisava deste desafio. Quis sair um pouco da minha zona de conforto.

Já se sente totalmente adaptado?

No início foi mais difícil. Quando cheguei aqui as temperaturas rondavam os 50 graus, foi um choque muito grande e depois há outras questões que estão relacionadas com a forma como lidamos com os colegas de equipa. Aqui temos de ser sensíveis no momento de nos expressarmos. Uma coisa que na Europa pode ser considerada normal, aqui podem não entender bem e perceber da forma errada. Temos de ter esse cuidado. Aqui olham muito para o estrangeiro, tentam aprender algumas coisas connosco e isso é um desafio, mas também é uma responsabilidade. Mas, sim, a principal dificuldade foi enfrentar aquelas condições atmosféricas.

E a nível de treino?

Aqui treina-se ao final do dia, não é logo de manhã. Isso na rotina de um jogador europeu muda tudo. É ao final do dia por causa do calor. De outra forma não seria possível.

Presumo que a língua inglesa o tenha ajudado nesta sua adaptação…

Sim, claro. A maior parte dos jogadores fala inglês e isso facilita bastante. Mas também tenho um português na equipa técnica, o Tiago, e ele ajudou-me imenso na adaptação. Ficou mais fácil. E agora já aprendi algumas palavras em árabe (risos). Umas palavras soltas!

Sente que existe curiosidade por parte dos outros em relação a Portugal?

Sim, é muito normal eles quererem saber quais as diferenças do estilo de vida, do futebol, como é que é na Europa e em Portugal. Depois também falam muito sobre os jogadores de referência. Eles têm muita curiosidade porque seguem o modelo europeu. Querem melhorar e saber mais. 

Como descreve o futebol nos Emirados Árabes?

É diferente… Em Portugal somos um país forte taticamente. Os jogos portugueses são muito táticos, aqui resume-se muito ao duelo individual. Eles olham muito para a bola, apesar de existirem muito bons treinadores estrangeiros. Há sempre muito duelo individual e os jogos, principalmente na segunda parte, dividem-se muito. A determinada altura, lá para os 70 minutos, acaba por partir bastante o jogo. Ainda assim, a nossa equipa tenta evitar ao máximo isso porque o nosso estilo de jogo é de posse e de controlo de bola. É um estilo de jogo mais seguro, mas é inevitável que a determinada altura os jogos se partam. Por isso é que há muitos golos aqui!

Notícias ao MinutoRicardo Valente já contabiliza dois golos ao serviço do Hatta Club. © DR

No último jogo marcou e garantiu uma vitória importante…

É uma sensação muito boa. Por mais jogos que dispute e que por muitas boas exibições que se façam, o mais importante são os pontos. Ao fazer golo, estamos mais perto de ganhar. Foi uma vitória muito importante porque demos um salto na tabela classificativa. Agora, podemos trabalhar com um bocadinho menos pressão. Já tinha marcado um, mas não conseguimos ganhar apesar de termos estado muito bem. A nossa equipa tem sido muito falada aqui pelo tipo de futebol que praticamos. Pode dizer-se que somos uma das equipas em destaque esta temporada.

Presumo que as saudades de Portugal já comecem a aparecer.

Começam a apertar e eu já não vou há muito tempo a Portugal. Mas também estou tão focado em que as coisas corram bem e tento não pensar muito nisso. Mas custa sempre um bocadinho, até pela diferença horária (mais quatro horas). Vamos matando as saudades através das tecnologias. Mas quando tiver uma paragem, quero tentar ir a Portugal.

Imagina-se ficar a viver aí durante vários anos?

É uma pergunta difícil (risos)! Estou a trabalhar para isso. Já que optei por este mercado, porque não continuar? A minha família sente-se bem aqui, estão adaptados, e vivemos numa cidade incrível como o o Dubai. É uma cidade segura e oferece todas as condições para ficarmos cá. Mas no futebol tudo acontece muito rápido. Vamos ver como as coisas correm. É difícil. Para já quero ter sucesso aqui e abrir umas portas.

Na temporada passada, acabou por deixar o Marítimo depois de uma época muito atípica e de estar envolvido num processo disciplinar. O que se passou?

Eu não quero falar muito sobre isso. O Marítimo é um clube que me marcou porque na primeira temporada fiz uma época muito boa, a nível individual e coletivo. Joguei praticamente os jogos todos e fiz muitos golos. Gostei muito dos adeptos, da ilha e de viver na Madeira. E é por isso que me custa falar. Na segunda época, praticamente não joguei e foi um momento complicado. Foi a primeira vez que passei por algo assim na minha carreira, mas não me quero alongar sobre isso. Quero dizer apenas que estou de consciência tranquila. Foi essa consciência que me ajudou a ficar calmo e também receber o apoio dos meus colegas de equipa. Fui o máximo profissional até final do meu contrato com o Marítimo. 

Ainda assim, essa fase menos boa ajudou-o a ficar mais forte mentalmente?

Muito! Posso dizer que talvez foi a altura em que cresci mais. Mentalmente, tive tempo para pensar e ficar mais forte. Nunca tinha passado por algo do género e é assim que uma pessoa cresce. Passar por isto ajudou-me a ficar mais forte e quem sabe até poderá ter ajudado nesta minha adaptação a esta aventura fora de Portugal.

Notícias ao MinutoApesar de ter vivido uma fase negativa na Madeira, Ricardo Valente foi a maior figura do conjunto insular em 2017/18: nove golos em 42 jogos. © Global Imagens

Antes de chegar à Madeira, passou por outros clubes como o Vitória SC e o Paços de Ferreira. Que recordações guarda?

Tenho recordações muito boas. Tive a oportunidade de passar por vários clubes históricos. Também lembro o Leixões, que é um clube que me diz muito. E depois, claro o Vitória SC, que talvez tenha sido o clube que me marcou mais. Tenho recordações das épocas muito conseguidas, dos golos importantes, dos companheiros de equipa e dos bons treinadores que fui encontrando. Agora vejo jogadores, com quem joguei, a ter muito sucesso nos três grandes e isso são as melhores recordações.

Passou grande parte do tempo de formação no FC Porto. Como correram aqueles tempos de miúdo?

Representei durante muitos anos o FC Porto. Fiz lá quase toda a minha formação, dividida com o Leixões. Tenho recordações muito boas. Gosto de recordar aqueles meus colegas que me acompanharam naquelas épocas. Para mim é orgulho ter representado um clube como o FC Porto, até porque aquela é a minha cidade. Foi um clube que me marcou muito e que me ajudou muito na minha formação. Foi onde me formei e onde comecei a jogar futebol.

Naqueles tempos acreditava que iria conseguir chegar a profissional?

Para ser sincero, não. Naquela idade não pensava muito nisso. Eu cresci num bairro e um amigo meu convidou-me para ir aos treinos de captação do FC Porto. Fiquei e não pensava nisso. Queríamos era jogar futebol, ganhar os jogos e ter o orgulho de jogar no FC Porto. Só mais tarde é que comecei a ponderar uma carreira como profissional.

Vivia-se mais o prazer de jogar do que pensar no que poderia ser o futuro?

Exatamente. Era só mesmo prazer! Era estudar e jogar à bola. Foram tempos muito bonitos. Talvez era até mais feliz e não sabia (risos).

Sérgio Conceição ensinou-me muitas coisas. Tive muitas conversas com ele

Durante o seu percurso cruzou-se com vários treinadores, mas foi com Daniel Ramos com quem jogou mais.

Tive a felicidade de ter bons treinadores que agora estão em grandes equipas. Todos me marcaram um pouco e tento sempre aprender um pouco mais com eles. Fiz uma época muito boa com o míster Daniel Ramos, mas também tive o Rui Vitória que foi com quem fiz a minha estreia na I Liga. O míster Sérgio Conceição também me ensinou muitas coisas. Tive muitas conversas com ele, algumas particulares. E também quero mencionar o Horácio Gonçalves no Leixões. Colocou-me a jogar na II Liga e abriu-me as portas na I Liga. Foram estes quem me marcaram mais.

Acabou por recolher um pouco de cada um?

Sim, precisamente. Talvez se não me tivesse cruzado com eles, não estaria onde estou hoje. Tive a felicidade de ter estes treinadores e é com muito orgulho que falo neles. Mesmo aqui já falei de alguns deles e não tenho dúvidas nenhumas que eles foram essenciais na minha carreira. Deram-me uma bagagem muito grande.

Sei que o fuso horário não ajuda, mas tem acompanhado o campeonato português?

Agora, que já estou adaptado, acompanho mais. Quando ainda estava a viver no hotel, era mais complicado. Mas agora já tenho caso e vou acompanhando, só não vejo os jogos que são mais tarde porque aqui já é de madrugada. Mas tento acompanhar, claro.

O que tem achado desta época?

Tem sido um pouco como nas épocas anteriores. O FC Porto e o Benfica já começaram a destacar-se e adivinho uma luta pelo título a dois. O Famalicão tem sido uma surpresa e isso é bom para dar maior competitividade ao campeonato.

Presumo que tem estado especialmente atento ao Vitória SC…

O Vitória SC tem feito um bom campeonato e tem praticado um bom futebol. Tem sido agradável ver algumas exibições. O Sporting de Braga tem feito uma grande campanha na Liga Europa e no dérbi do Minho foi mais forte e acabou por ser um justo vencedor, apesar do Vitória SC estar a fazer uma grande época. Têm muitos bons jogadores.

Faltou um bocadinho de sorte naqueles jogos contra o Arsenal?

Foi um orgulho para os adeptos vitorianos, apesar de não terem ganho. Tenho a certeza que os adeptos ficaram muito orgulhosos por ver aquelas exibições do Vitória SC contra o Arsenal a nível europeu. Até para mim foi um orgulho. A Liga Europa tem outra expressão e os meus colegas até perguntam como correu porque é um clube do qual eu falo muito aqui.

O ano de 2019 está a chegar ao fim. Quais os objetivos para fechar o ano da melhor maneira?

objetivo principal passa pelo Hatta subir mais lugares na tabela classificativa porque temos qualidade. Merecíamos estar mais acima. E quero, claro, ir trilhando o meu caminho aqui e mostrar o meu futebol para representar da melhor maneira o meu país.

Para terminar, quer partilhar algum episódio engraçado desta sua aventura nos Emirados Árabes?

Posso contar uma história (risos). As pessoas já devem ter conhecimento, mas eu não estava a contar... A seguir a um treino tivemos uma reunião com o presidente, porque íamos ter um jogo muito importante que tínhamos de ganhar. No final, pensávamos que íamos para casa como era normal, mas eles disseram que íamos comer todos juntos. Até aqui, tudo normal porque em Portugal estamos habituados a um churrasco de vez em quando, aqui… Começaram a estender as mantas e começaram a trazer umas bandejas enormes e pousaram no chão! Tivemos que ir para o chão comer com as mãos, porque era a tradição deles (risos). Tivemos que entrar no espírito. O brasileiro Daniel [Amora] disse para eu não abusar muito porque já tinha estado na Arábia e ficou com dores de barriga (risos). Eu entrei no espírito e comi um bocadinho. É importante eles sentirem esta nossa vontade de conhecer e adaptar-nos. É um momento marcante que fica e que mais tarde posso contar à família e aos nossos amigos. Tenho muitas histórias e é isso que torna esta aventura desafiante.

Notícias ao MinutoRicardo Valente revela-se feliz e não afasta a possibilidade de continuar a viver no Dubai por vários anos. © DR

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