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"Têm estado 15 graus na Islândia e eles já dizem que é o melhor verão"

Médio português de 27 anos marcou um golo no Trofense que correu o mundo. Passados uns meses, mudou-se para a Islândia e garante estar a viver uma temporada fantástica. Em entrevista ao Desporto ao Minuto, Telmo Castanheira afirma-se feliz na pequena ilha de Vestmannaeyjar.

"Têm estado 15 graus na Islândia e eles já dizem que é o melhor verão"
Notícias ao Minuto

08:16 - 25/06/19 por Francisco Amaral Santos 

Desporto Telmo Castanheira

Telmo Castanheira vive uma temporada atípica na qual não faltam momentos de grande brilhantismo. O médio português de 27 anos saltou para a ribalta quando em outubro de 2018 marcou um golo de pontapé de bicicleta que correu o mundo. Passados alguns meses, Telmo recebeu um convite para mudar-se para a Islândia e respondeu afirmativamente. 

O desafio motivou-o e o projeto desportivo convenceu-o a assinar pelo ÍBV. Em entrevista ao Desporto ao Minuto, Telmo Castanheira revela como teve de se adaptar à pequena ilha de Vestmannaeyjar, confessa que sente saudades de Portugal, mas garante que tomou a melhor decisão e que se sente feliz no futebol islandês. 

O jogador formado no FC Porto recorda ainda os tempos de formação e não fecha a porta a um possível regresso a Portugal. 

Têm estado uns 15 graus e eles já dizem que é o melhor verão dos últimos tempos

Que balanço faz desta aventura na Islândia?

Em termos pessoais o balanço é fantástico. A experiência tem sido boa a todos os níveis. Estou a crescer como pessoa, estou a viver uma realidade totalmente diferente, uma cultura nova e a conviver com pessoas com outro tipo de mentalidade. É um país fantástico do qual estou a gostar muito. Claro que há sempre adaptações a fazer porque nem tudo é perfeito, nem tudo é um mar de rosas. Mas tem sido uma experiência muito enriquecedora.

E a nível desportivo?

A nível desportivo…. Coletivamente não está a correr tão bem como desejava porque a equipa ainda não está no lugar que nós queremos estar, mas tenho a certeza que as coisas vão melhorar. Individualmente, a época tem corrido bem. Tenho estado a um bom nível e estou a realizar a melhor época de sempre. Sinto que aqui na Islândia as pessoas valorizam-me muito. Já fui elogiado pelos jornais daqui. Só falta mesmo em termos coletivos conseguirmos melhor resultados e a o balanço será perfeito.

Como surgiu o convite do ÍBV?

Surgiu a partir do próprio treinador [Pedro Hipólito] que já me conhecia e que me estava a acompanhar. Ele mostrou interesse, a direção também achou que tinha o perfil adequado. Apesar de estar bem no Trofense, e de ter recebido algumas sondagens até mesmo de Portugal, nada se comparou ao que o IBV me apresentou. Agarrei a oportunidade e sinto-me feliz por estar aqui.

Decidiu rapidamente ou inicialmente ficou assustado com a ideia de ter de sair de Portugal?

Fiquei entusiasmado! Principalmente em termos desportivos. Só tinha a ganhar em todos os sentidos. Estou numa primeira liga com qualidade e é um país que garante qualidade de vida aos habitantes. Portanto não havia razões para estar assustado... É um país que a nível salarial é seguro. Não tenho aquele medo de poder ficar com salários em atraso como acontece, infelizmente, em Portugal e noutros países. Aqui não tenho esse problema. E, claro, a estabilidade financeira também pesou muito. O clube demonstrou interesse, chegou àquilo que eu pretendia e rapidamente se chegou a acordo.

Como é que um português se adapta à Islândia?

(risos)… Depende de pessoa para pessoa. Nós não estamos na ilha principal, mas sim em Vestmannaeyjar. É uma ilha muito pequena. É uma ilha lindíssima, mas onde há pouco para fazer. Estamos a 30 minutos da ilha principal. Se forem pessoas que não sejam muito caseiras… é complicado. Mesmo para mim, que me considero uma pessoa caseira, torna-se complicado. Estamos fora da nossa zona de conforto e não temos aquela companhia… Queremos falar com alguém e a língua não é igual, apesar de toda a gente falar inglês e de ter encontrado portugueses que me ajudaram muito. Os portugueses que vierem para aqui têm de se adaptar àquilo que a Islândia dá e também àquilo que retira. Nós em Portugal temos uma qualidade de vida enorme quando chegamos ao final do dia de trabalho e podemos ir a algum lado porque o clima assim o permite. Aqui, às vezes, o clima retira essas possibilidades. Agora no verão tem estado melhor tempo. Têm estado uns 15 graus e eles já dizem que é o melhor verão dos últimos tempos. Imagine como é quando não está este tempo. As pessoas têm de ficar em casa e não há muito para fazer. Temos de nos adaptar a isso.

E no meio disso tudo como se gerem as saudades de casa?

Claro que tenho muitas saudades da minha família e dos meus amigos. Mas isso faz parte. São sacrifícios que fazem parte desta aventura e da nossa profissão, mas não me posso queixar. Estou muito agradecido por estar a viver isto. Às vezes temos que fazer sacrifícios para lutar pelos nossos objetivos e nossos sonhos. É um lado menos bom. Tenho mais que agradecer do que reclamar.

Como é a relação com os adeptos islandeses?

Sinto-me muito acarinhado aqui. Sinto um enorme carinho por parte do público nas minhas ações durante os jogos. Os meus colegas de equipa dizem-me que as pessoas gostam muito de mim. São pessoas que vivem muito o clube desta ilha. Apesar de não estarmos a fazer a época que gostaríamos, em termos pontuais, mas as pessoas não deixam de apoiar e acarinhar. Quando ganhamos ou marcamos um golo, elas vivem muito esses momentos. Vivem muito o clube e vivem os nossos sucessos. É uma recompensa de alguns sacrifícios que fazemos. Para mim, isto vale muito. Sinceramente, vale mais do que ser o melhor em campo neste ou naquele jogo. Para mim o importante é sentir que as pessoas estão contentes por terem um estrangeiro cá e sentirem que o estrangeiro trouxe coisas boas à equipa. Esse reconhecimento é muito bom. É por isso que me sinto bem e confiante. É bom sentir o carinho destas pessoas.

Se sou o que sou hoje, também o devo ao FC Porto

Quais são diferenças entre o futebol português e o islandês?

Existem algumas. O jogador português tem qualidade técnica e gosta de a usar no jogo. A equipa tenta sempre privilegiar a decisão e a técnica, o que torna o jogo mais pensado e mais racional. Aqui, na Islândia, fisicamente os jogadores são muito fortes e gostam de impor esse lado físico no jogo. São agressivos no jogo, no bom sentido. Taticamente perdem-se mais do que aquilo que acontece em Portugal. Aqui o futebol é mais intenso, mais físico e menos pensado. Não baixam o ritmo de jogo, é sempre a andar. Há equipas e jogadores de excelente qualidade. Surpreendeu-me pela positiva. Acho que são essas as principais diferenças. No fundo, o estilo de jogo é diferente, mas ambos têm qualidade.

No meio desta aventura, sentiu em algum momento que lhe faltou uma oportunidade na I Liga em Portugal?

Eu não vou dizer que faltou uma oportunidade… Prefiro dizer que tenho a certeza de que tenho qualidade e capacidade para isso. Ainda pode acontecer, mas claro que, neste momento, não volto para Portugal por qualquer coisa. Estou bem aqui e em termos salariais também conta no futebol. Portugal será sempre Portugal e se existisse uma boa oportunidade para mim voltaria com todo o gosto. Mas também não vou de graça, nem estou desesperado para voltar. Teria de ser um projeto interessante em que me quisessem realmente. Aí, estaria recetivo.

Há muitos jogadores que jogam em divisão inferiores e iriam dar cartas no primeiro escalão se tivessem uma oportunidade. Não devem nada a muitos jogadores que lá andam e que por vezes chegam de fora. Eu não a tive por diversos fatores. Não posso culpar os outros, posso ter sido eu que não fiz o suficiente embora tenha a consciência tranquila de que dei o meu máximo e que fui sempre profissional. Houve várias vezes em que fui abordado, em que estava para ir, empresário isto, empresário aquilo e as coisas não se concretizavam. Por vezes acabava por ir outro de fora, chegou a acontecer isto. Não posso atribuir culpas a ninguém e tenho muitos colegas que estão lá com todo o mérito.

Notícias ao MinutoTelmo Castanheira jogou a primeira parte da temporada no Trofense. © Reprodução Facebook Trofense 

Mantém o sonho de jogar na I Liga?

Gostaria de jogar e acho que ainda posso jogar lá. Tenho qualidade para isso e tenho demonstrado isso esta temporada. Se o futuro disser que há uma possibilidade de voltar a Portugal para um projeto onde me querem e que seja na I Liga, claro que estaria interessado. É o nosso país. Tem muita visibilidade e tem uma cultura muito própria.

Passou nove anos de formação no FC Porto. Que memórias guarda desses tempos?

Eu comecei num clube pequenino. No Progresso. O FC Porto foi buscar-me aos nove anos e sai aos 18. Tenho grandes memórias. Fiz a formação num dos melhores clubes da Europa. Têm uma organização fantástica e são de outro nível. A minha geração ganhou tudo. Desde as escolinhas aos júniores. Fomos campeões nacionais. Fazia parte da geração do Sérgio Oliveira. Tínhamos um grupo fantástico. As idas às camadas jovens da seleção nacional também devo ao FC Porto. Tenho amigos de hoje que fiz lá. O Sérgio Oliveira, o Hugo Sousa que está na Grécia, o David Bruno.. São todos grandes jogadores. Tenho recordações de torneios estrangeiros contra equipas como o Barcelona e o Real Madrid.

Só tenho a agradecer ao FC Porto tudo aquilo que me transmitiu não só como jogador, mas também como pessoa. Aquele processo de formação dos nove aos 18 anos é muito importante e o clube tem um papel importante na formação. Entramos lá crianças, saímos de lá homens. Foram fantásticos. Transmitiram-me valores e preparam-me da melhor forma para os desafios de hoje. Cresci muito lá. Se sou o que sou hoje, também o devo ao FC Porto.

Como é que numa família ligada ao hóquei, o Telmo acaba no futebol?

Ora aí está uma boa pergunta! (risos) Eles ainda tentaram e eu ainda fiz um joguinho no hóquei. Foi no Porto, num intervalo de um jogo do FC Porto-Benfica, e terminou aí (risos). Foi uma carreira curta, deixei os patins para os meus primos que têm muito mais qualidade e uma enorme paixão pelo hóquei. Estão a fazer o trajeto deles. Um está a jogar em Espanha, outro está no Sp. Braga, outro está no Infante e o meu tio é presidente do Infante. O meu pai também foi jogador de hóquei. Tenho muito orgulho neles, mas o meu futuro não estava ligado aos patins e fui para o futebol. Assim estamos todos felizes (risos).

Em outubro de 2018 saltou para a ribalta quando marcou um golo de pontapé de bicicleta que correu o mundo. Ainda lhe falam sobre esse golo?

No sábado fiz um golo de muito longe e as pessoas começaram logo a dizer: ‘Pronto, mais um puskas’. Os meus colegas ouviram isso nas bancadas. Fiz um golo bonito e as pessoas foram buscar novamente aquele golo que fiz no Trofense. Teve um impacto que nunca esperei. Têm sido uma época diferente de todas as que já tive. Vai ser uma época para recordar e contar aos meus filhos mais tarde. É isso que eu levo de mais importante no futebol. No fim de contas, acho que é isso que fica.

Acha que merece o prémio Puskas?

Se eu disser que não mereço quem vai dizer que sim?! (risos) Também tenho que puxar por mim. Foi num terceiro escalão e não sei até que ponto isso vai influenciar na escolha. Claro que se fosse numa Liga dos Campeões… Já vi golos Puskas que não foram assim tão diferentes do meu. Foi um lance que correu na perfeição, nem vou voltar a tentar fazer aquilo outra vez. Deixei a fasquia alta e acho que não consigo repetir (risos).

Agora, falando mais a sério, penso que pode pesar um pouco o facto de ter sido no terceiro escalão do futebol português. Mas acho que na minha opinião não ficava mal se ganhasse. Não vi todos os golos, mas vi alguns fantásticos. Se o meu fosse escolhido, acho que não chocaria ninguém. Se fosse na Liga dos Campeões teria um impacto muito diferente.

As reações que esse golo gerou já valem a pena... 

Sim, recebi mensagens de todo o mundo. De jornais online de todos os países. Foi inacreditável, nunca pensei viver uma coisa assim. Esse já foi o meu prémio. O que vier a seguir é um bónus. Estou mesmo muito feliz por esta época.

Aos 27 anos, quais os objetivos para o futuro?

Sinto que vou ter mais uns dez anos de futebol pela frente. Sou muito ambicioso e tenho objetivos definidos. Não passa tanto por chegar a clube x ou campeonato y. Quero atingir um nível alto aqui na Islândia e acho que vou a tempo de jogar por títulos. Seja aqui ou noutro campeonato. Quero passar para patamares superiores e acredito que estará para breve. No futebol nunca sabemos o amanhã e por isso mesmo temos de desfrutar do presente.

Notícias ao MinutoTelmo Castanheira contabiliza dois golos em 11 jogos ao serviço do ÍBV. © DR

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