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Elisabete Jacinto: "No Dakar preparei-me para morrer"

Vencedora do Africa Eco Race 2019, prova semelhante ao antigo Dakar, a piloto de 54 anos afirma que este foi o seu ‘grito de revolta’ perante alguns críticos. O facto de ser mulher nunca lhe fechou portas no mundo do automobilismo, mas trouxe algumas dificuldades extra. Elisabete Jacinto abriu o coração, em entrevista ao Desporto ao Minuto, e contou algumas das histórias mais marcantes da já longa carreira.

Elisabete Jacinto: "No Dakar preparei-me para morrer"
Notícias ao Minuto

08:42 - 08/02/19 por Ruben Valente 

Desporto Entrevista

Elisabete Jacinto tem largos motivos para sorrir. 2019 começou da melhor maneira para a piloto feminina mais conhecida de Portugal. A portuguesa de 54 anos tornou-se na primeira a conseguir vencer uma longa maratona de todo-o-terreno ao volante de um camião: A Africa Eco Race.

O Desporto ao Minuto quis falar com esta ‘heroína’ dos desertos, que afirmou nesta entrevista que a conquista desta prova foi o confirmar do seu valor, algo que já perseguia há muito tempo.

As dificuldades de duras provas de rali, o facto de ser mulher, os pensamentos de desistência e até a proximidade com a morte foram assuntos abordados por Elisabete Jacinto, piloto que deixou bem claro que o desporto mudou a sua vida.

Há cerca de ano e meio disse-nos, numa entrevista, que sentiu dificuldade em entrar num desporto que a maioria classifica como um mundo de homens. Ainda sente isso?

Não senti dificuldade em entrar, senti dificuldade em vencer, em ter credibilidade, em que as pessoas me levassem a sério. Porque entrar, nós entramos… Se uma pessoa anda lá atrás [na classificação], tudo bem. Agora se queremos ter bons resultados e começar a criar condições para fazer um bom trabalho começam a aparecer pequenas coisas. Não são coisas impeditivas, porque eu consegui, mas são coisas que desgastam muito e que nos emperram. São obstáculos muito subtis, quase invisíveis.

Dou-lhe um exemplo… Vou para uma corrida, compro imagens e distribuo às televisões todas. Se eu conseguir uma boa classificação, as televisões podem passar uma peça sobre mim, mas depois há pessoas que acham que não devem passar essas imagens. A Elisabete é mulher, é única, como alguns dizem, e não passam. Ora, ao não passar essas imagens não estão a criar um problema, mas a verdade é que estão a criar um obstáculo que impede que a pessoa seja vista, seja conhecida, que os patrocinadores vejam o nosso trabalho. Como este, podia dar uma quantidade grande de exemplos… Há sempre pessoas que me dizem: ‘Fiquei em 3.º lugar nos camiões. Ah, boa! Mas só haviam três, não é?’ Dizem-me isto na cara assim, sem o mínimo de pudor. Há uma história que já contei imensas vezes. No final de uma prova, um jornalista marroquino, em vez de me entrevistar a mim foi entrevistar o meu marido. E perguntou-lhe com as letras todas se ele não achava que uma uma mulher ganhar a Categoria Camião não descredibilizava a modalidade.

Depois de ganhar uma prova tão dura como a Africa Eco Race, o que diria a esse jornalista hoje em dia?

(Risos) Que a cultura dele precisa sofrer algum desenvolvimento. No fundo, não o critico porque ele é marroquino. Mas isso demonstra muito aquilo que nós, mesmo em Portugal, pensamos. Ninguém faz por mal, ninguém faz para magoar. Foi assim que nós fomos ensinados, mas não são só os homens que o fazem, as mulheres também. É uma característica geral da nossa sociedade. Atribuímos um papel aos homens e outro às mulheres, e não se questiona se eles podem sair desse papel. E se alguém sair critica-se, penaliza-se, escorraça-se. E não há razão para isso. Nós mulheres somos as principais culpadas porque educamos os nossos filhos dessa forma. Houve muita coisa que evoluiu, mas continuamos a educar com base nesses valores [mais antigos]. Há necessidade de um certo reajuste. Os homens são muito bons numas coisas, as mulheres noutras, e o que falta? É o trabalho em conjunto, é a complementaridade. Há áreas onde as mulheres estão arredadas, e onde podemos dar um contributo muito bom. Mas isso não quer dizer que se dispense os homens. Cada um pode ter o seu papel, desde que o queira ter. O que interessa é a pessoa poder optar pelo caminho que quer, independentemente daquilo que a sociedade espera.

Notícias ao MinutoElisabete Jacinto, vencedora do Africa Eco Race 2019 na categoria Camião© Elisabete Jacinto

Como foi este ano correr e vencer uma das provas mais duras do todo-o-terreno, o Africa Eco Race?

Este foi um ano muito particular para mim porque parti para esta prova muito derrotada, desgostosa, triste, frustrada, com o pensamento de que as coisas iam correr mal e que eu ia voltar para casa mais cedo. Apesar de tudo tinha feito opções de fundo para que as coisas me corressem bem, nomeadamente a compra dos amortecedores, que já tinha uns há três anos que só me faziam perder tempo. Foi com algum sacrifício que comprei uns novos de uma outra marca, à última da hora.

Depois comprei também umas jantes de alumínio com uma grande história. Elas são muito caras, diferentes das de origem, que são de ferro, e eu nunca tive dinheiro para as comprar. Porque eu passava horas a cavar [tentar sair de um poço de areia muito mole] e via os meus adversários a passar por mim todos contentes e chegava sempre depois deles. Houve um dia que passei quatro horas nisso, fiquei frustradíssima e disse aos meus colegas de cabine: ‘Isto assim não vale a pena. Fico atrás de toda a gente e assim não quero'. Ficámos muito tempo a pensar no que se podia fazer. Descobrimos que havia um sistema que é um ‘Beadlock’, que é uma espécie de anel que se enfia na jante que prende os dois bordos dos pneus. Andei a pesquisar na internet, a peça foi feita à medida, e estava tudo pronto. Mas depois o senhor enviou um email e disse que provavelmente nós não íamos conseguir colocar isso sozinhos. Respondi de imediato para não nos levar a mal, mas somos uma equipa de competição e temos que ser capazes de mudar os pneus no meio do deserto quando furam. Mas quando o sistema chegou, de facto, não fomos capazes de os colocar. Lá demos voltas aos neurónios, usámos o sistema de baixar a pressão dos pneus, mas aquilo ficava no limite e não podia baixar mais. Isto foi uma semana antes da prova.

Houve então um fulano que me disse que eu precisava era de umas jantes de alumínio, que eram fáceis de colocar e tudo mais. Uma grande conversa… Eu mandei vir as jantes, paguei-as e quando elas chegaram, não funcionavam… ‘Então e agora? Como é que fazemos? Eu estudei geografia não é, não sou engenheira’. Foi muito complicado, mas lá conseguimos depois colocar as jantes, depois de alguns ajustes. Contudo, a peça [Beadlock] não encaixava e tive de levar a antiga, que já tinha três anos e que estava sujeita a partir.

Na primeira etapa as coisas correram muito bem. É uma etapa que nós nos enganamos muito e temos de estar bastante atentos. Combinei com o navegador: ‘Quando a navegação for difícil, tu avisas-me, e se for preciso eu paro’. Fiz isso, abrandei imenso, e nunca nos enganámos. Depois houve outra etapa , a meio do rali, onde apareceram coisas partidas no camião, peças que se começaram a gastar… Fiquei com algum receio de não chegar ao fim. Pensei que era melhor gerir, levantei um bocadinho o pé, abrandei e foi assim. No final dessa etapa em conversa com o mecânico, o Marco, começámos a refletir e eu disse: ‘Não. Amanhã eu sei o segredo para ganhar a etapa. Se tiver que partir, parto. Vou andar aquilo que eu sei andar, que se dane’. E assim fiz, e consegui um brilharete. Com a tal peça manhosa [risos] que por acaso não partiu.

O que foi mais difícil para si: Esta prova da Africa Eco Race ou aquela prova de 300 km na Serra de Grândola, ainda com a sua moto? [uma das primeiras provas de Elisabete Jacinto]

A perspetiva era muito diferente. Na prova de Grândola, o meu objetivo era sobreviver, era não morrer. As dores no corpo eram tantas, não estava habituada, não sabia gerir o esforço. Só estava habituada a ir correr com os meus amigos ao fim-de-semana, e o pessoal descansava sempre muito, sempre na cavaqueira, sempre no convívio. E então ali era fazer 300 km de seguida. Aquilo doeu, fez-me sofrer e mexeu muito comigo, de tal forma que nem sabia se ia chegar ao fim. Lá consegui chegar praticamente ao final da corrida e pensei: ‘afinal não foi assim tão difícil’, mas foi aquele primeiro impacto. Esta… já tenho uma experiência acumulada de muitos anos, já sei como se fazem as coisas, como se gerem as coisas, já sei que tipo de dificuldades vou ter, já estou preparada para as ter. Aqui, a principal preocupação era acabar bem classificada. Eu achava que tinha condições de conseguir provar que tinha um bom nível de condução. Já há dois anos que achava que conseguia chegar a bons resultados, mas por uma ou outra razão não os conseguia. Se calhar havia um excesso de ansiedade e houve situações que se calhar não geri da melhor maneira, e noutras situações houve coisas que era azar, que não dependiam de mim. Eu acredito que somos nós que fazemos o futuro, mas há coisas que me fazem acreditar que às vezes a teoria não é bem essa. E a história desta corrida é um bocadinho essa. Nesta consegui fazer aquilo que não estava à espera, ir muito mais longe do que aquilo que pensava, à semelhança dessa primeira corrida em Grândola, em que não tinha grandes expectativas.

A vitória no Africa Eco Race é uma resposta para aquelas pessoas que lhe diziam: ‘Ah ficaste em 3.º… só haviam três camiões?’ Este foi o seu grito de revolta?

Foi um bocadinho. Acho que agora as pessoas conseguiram olhar com olhos de ver para a classificação, para os pilotos que lá estavam, e ver que não ganhei porque sou a única que lá anda. É porque de facto tive de me bater com todos eles. Tinha lá camiões muito melhores que os meus, construídos para correr, o meu é de série. Finalmente pararam para olhar para a classificação. Senti-me realizada e senti que as pessoas reconheceram o meu trabalho e os meus resultados.

Já afirmou que na sua primeira prova o objetivo era “sobreviver e não morrer”. Um pouco mais a sério, o medo de morrer já lhe passou pela cabeça durante alguma prova?

Só tive uma situação em que achei que realmente ia morrer. Foi no Dakar do ano 2000, numa etapa no Egito. Nós íamos numa zona de areia e vi ao longe uma duna, um ressalto de areia. Quando é assim, a moto bate, abre, cava um bocadinho e salta. Não há grandes problemas. Mas naquele sítio, o único onde me deparei com uma situação destas, a areia estava compactada, não era areia, era uma rocha dura. Eu bati com violência, a moto começou aos trambolhões, eu também… lembro-me de dar trambolhões tão fortes com a cabeça, um impacto no pescoço e pensar: ‘Bem, o Jorge [marido] bem me avisou, vou partir o pescoço e vou morrer’. Preparei-me para morrer… Estou a contar a história e estou a lembrar-me de como foi. Foi o único momento em que pensei que ia morrer. Mas pronto, levantei-me, levantei a mota, fiz uma rotura de ligamentos, acabei essa etapa, e ainda fiz a etapa seguinte, cheguei a casa e fui operada logo a seguir. Nem conseguia pôr as mudanças, tinha de virar o corpo todo porque o pé não subia.

O Dakar é mesmo muito duro, tal como ouvimos falar?

Sim, é. Não sei se quer dizer Dakar em termos globais, porque a Africa Eco Race é a mesma prova que o Dakar era antigamente, só não temos ligações tão grandes, porque a organização passou a colocar os acampamentos no final das etapas. A corrida é bastante longa, com etapas de 400, 500 quilómetros, onde nós vivemos em muito más condições. O tempo das etapas é de 5, 6, 7 horas, depende… No meu caso cheguei a fazer etapas quase em 24 horas. Agora, já não faço assim, já consigo fazer melhor. As etapas são muito longas, muito físicas, por exemplo para quem vai de moto, onde as nossas condições de vida são péssimas. É isso que faz a diferença. Se tivesse de facto uma etapa dura, mas que no final me sentasse à mesa com uma boa refeição, depois pudesse encher a banheira de água para relaxar os músculos, uma boa cama para dormir no silêncio… Nós não temos nada disso. Dormimos em tendas, no chão, em sítios que por vezes apresentam temperaturas negativas. Comemos mal, porque a comida destes acampamentos não é a pensar nas nossas necessidades. Para lhe dar um exemplo não há uma peça de fruta em 15 dias de prova. Todas estas condições fazem com que a prova seja muito desgastante. Mas o Dakar já tem menos 2000 km do que o Africa Eco Race. O Dakar ganhou uma notoriedade incrível e este ano foi realizado apenas num país. Já não é aquilo que as pessoas acham que é.

Ainda pensa participar no Rali Dakar?

Como ele é hoje na América Latina não. Houve uma vez que participei [já na América Latina] e encontrei uma corrida completamente diferente. Encontrei uma corrida a que não estava habituada e fiquei completamente desmotivada. Acabei por apostar no Africa Eco Race, na altura uma corrida grande em termos de tamanho, mas pequena em número de pilotos. Esta corrida veio ocupar o espaço deixado pelo Dakar. O mesmo regulamento, os mesmos quilómetros… Mas tinha muito poucos pilotos. No fundo, as pessoas deixavam-se arrastar pelo Dakar. Ainda demorou algum tempo a impor-se como uma grande corrida, o Africa Eco Race. Mas naquele primeiro ano foi uma corrida super difícil. Estava habituada ao Dakar, onde era uma corrida que movia montanhas e de repente deparei-me com uma corrida para a qual ninguém ligava nenhuma, com poucos concorrentes. Achei que era a opção certa, mas foi muito difícil.

Hoje tem uma carreira consolidada a nível desportivo. Voltaria atrás e faria as mesmas escolhas?

Para mim, o desporto foi uma coisa fabulosa. Tornei-me numa pessoa melhor, mais apta, mais segura. Capaz de enfrentar a vida e as dificuldades. O desporto deu-me uma força que eu desconhecia que tinha, daí eu ser uma defensora daquilo que é o desporto como ferramenta de educação, que Portugal não se leva a sério, que se despreza. O desporto dá mérito de trabalho, dá competências, dá imensas coisas. Comecei com 27 anos e já era uma idade em que devia estar a terminar. Mas portanto, eu tinha toda uma vivência que me permitiu ver as coisas de outra forma e percebi o que o desporto me fez mudar. O investimento valeu a pena, apesar de todas as contrariedades e dificuldades. Se voltasse atrás, voltaria a fazer tudo. Tudo começou como uma brincadeira e dizia para mim, ano após ano, que era agora que ia deixar o desporto. Mas não, consegui sempre arranjar condições para o ano seguinte e o tempo foi passando até hoje.

Notícias ao MinutoElisabete Jacinto no final de uma prova© Elisabete Jacinto

A apresentação do livro '100 imagens. Algumas histórias' e as perguntas rápidas que definem Elisabete Jacinto 

É um livro acima de tudo de fotografia, feito pelo fotógrafo que está sempre nas provas onde nós estamos [Jorge Cunha]. Nós temos fotografias fabulosas e o objetivo delas é mostrar às pessoas o sítio por onde andamos. Há muitas fotos que não são aquelas imagens que dão jeito enviar para jornais. Fotos de paisagem com o camião com um mlímetro acima das dunas. Quando fizemos 10 anos de camião, vimos que tínhamos muitas fotografias boas e que as pessoas nunca tinham visto. Algumas até eram fotos escondidas. Achamos, então, que era uma boa forma de comemorar os 10 anos de corrida compilar todas as fotos num livro. Não é um livro da minha carreira ou das minhas histórias. Esse estou a ponderar fazer, é um projeto em stand-by, vamos ver. Voltando ao livro, que foi oferecido pelo patrocinador, revertemos as verbas a favor de uma instituição que é a Associação Humanidades, que acolhe mulheres jovens, grávidas, em situações de risco. Eles fazem um trabalho excelente e é também uma forma de dar a conhecer o trabalho deles. Já fizemos a apresentação na Fnac de Lisboa e no dia 20 deste mês iremos à Fnac do Norte Shopping.

Prova que voltaria a repetir? Africa Eco Race, sem dúvida.

A história que mais a marcou na sua carreira? Tenho várias. Quer um pack de três? [risos] A minha primeira desistência no Dakar, de moto. A minha desistência no Dakar de 2001, quando o meu carro de assistência pisou a mina. Foi uma história complicada. E depois a primeira e única vez que fui fazer o Dakar na América Latina, onde o meu camião ardeu. São as histórias mais marcantes e dolorosas para mim.

Momento mais difícil? Talvez seja esse momento no meu primeiro Dakar, onde foi a primeira desistência. Nas dunas da Mauritânia, a minha moto já não trabalhava. Foi muito doloroso, porque nunca tinha colocado a hipótese de desistir e já tinha resolvido tantos, mas tantos problemas… Foi muito violento para mim porque não estava preparada para isso na altura.

Motos ou camiões? Camiões neste momento.

Momento em que pensou para si própria: ‘Vou desistir’? Sabe que pensei muitas vezes isso na altura em que participava no Campeonato Nacional. Em quase todas as corridas, eu tomava a decisão firme de não voltar mais. Mas depois quando chegava ao fim, via a minha classificação, depois de comer e estar restabelecida, pensava sempre que conseguia fazer melhor. A partir do momento em que veio a ideia louca de fazer o primeiro Dakar, nunca mais coloquei a hipótese de desistir.

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