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"Já espreitei a morte e houve um dia que vi 'estrelas' debaixo de água"

Numa entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto Tiago Pires, um dos melhores surfistas de todos os tempos, falou sobre a "vida de um surfista nunca caduca", o dia em que saiu da água a ver 'estrelas' e projetou o grau de evolução da modalidade para os próximos 10/15 anos em Portugal.

"Já espreitei a morte e houve um dia que vi 'estrelas' debaixo de água"

No passado dia 23 de junho, 327 pessoas entraram na água ao mesmo tempo, na praia da Fonte da Telha, batendo um record prévio existente na Austrália, em Sidney. Bater um record do Guinness, por uma boa causa – este era o propósito de Tiago “Saca” Pires no primeiro grande evento organizado pela sua recém-criada agência ReAct Sports Management.

Numa entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto Tiago Pires, um dos melhores surfistas de todos os tempos, falou sobre a "vida de um surfista nunca caduca", o dia em que saiu da água a ver 'estrelas' e projetou o grau de evolução da modalidade para os próximos 10/15 anos em Portugal.

Talentos em curso? Aos 38 anos, Tiago Pires tem algumas reservas sobre a margem de progresso de Frederico Morais, mas vê um novo talento luso a emergir desde já entre as ondas das praias lusitanas.

Importância do record do Guinness alcançado na praia da Fonte da Telha?

Tem mais valor simbólico, do que outra coisa. Claro que depois de ter competido vários anos ao mais alto nível, isto acaba por ser apenas um pequeno projeto. Este foi o primeiro que organizei sozinho, claro que tive parceiros e ajudas que foram importantes para a concretização do evento, mas este trata-se de um ‘bebé’ meu que quis levar para a frente e acabou por ser bem sucedido. Na minha visão de competidor pensei que ia conseguir um número maior de participantes, mas já fico muito feliz por ter batido o maior recorde do mundo. Toda a gente sabe a força que tem o surf em Portugal e o caminho que tem vindo a ser feito de há uns anos para cá e acaba por ser mais um título e uma força mostrada por esta modalidade no nosso país, e isso deixa-me orgulhoso.

Consideras que na última década há um maior número de amantes a seguir a modalidade?

É uma pergunta difícil de responder. Sem dúvida há mais praticantes, agora se há mais apaixonados pelo surf? É uma pergunta muito ‘poética’ e de difícil contabilização. Há muita gente a praticar e vejo isso pelas praias onde passo. No meu tempo era difícil ver pessoas seja durante a semana, ou de manhã, nas praias, hoje em dia virou uma rotina a praia estar cheia de manhã. Há muitas escolas que já estão sensibilizadas para o surf, o que permitiu que o número de praticantes se multiplicasse nos últimos anos. Há muito mais acessibilidades, muito mais equipamentos. Estamos a falar de um desporto que era visto como algo perigoso e que atuava no extremo para se tornar algo acessível. E isso deve-se pela sabedoria e a experiência que se tem ganho nas últimas décadas e isso mudou um paradigma que havia na sociedade.

Mas o que leva as pessoas a gostarem assim tanto da modalidade também é o fator risco e os níveis de perigo que estão associados ao surf…

Claro que a adrenalina é uma das principais sensações que nós queremos sentir quando vamos para cima de uma prancha, mas a adrenalina tem vários níveis e vários estados. As pessoas agarram-se a este tipo de sensações que são únicas, seja num nível pequeno, numa parte inicial, seja num nível mais elevado, quando falamos de uma grande competição. Todos nós gostamos de surf pela adrenalina e pela sensação de liberdade que sentimos e isso resulta numa ‘sopa muito agradável de comer’.

E onde foi mais agradável 'comer essa sopa'?

No Tahiti há uma onda que se chama Teahuppo, que é uma das mais perigosas do mundo, e eu competi lá muitas vezes e houve muitos dias em que pensei que ia morrer ou pelo menos espreitar a morte se algo corresse mal. Claro que quando nós vamos competir não vamos estar imputados com isso, mas são pensamentos rápidos que nos conduzem para momentos de alta tensão, porque sabemos que o embate, o acidente, ir contra as pedras num local como este pode ser quase mortal. E isso aconteceu algumas vezes no decorrer da minha carreira, mesmo quando não estava a competir, como foi há dois anos.

Estava na Ericeira e surfei uma ‘slap’ (uma onda pequena, mas bastante perigosa e traiçoeira) e bati com a cabeça numa pedra, fiquei meio tonto, fiz uma distensão num braço e acabei repleto de cortes da cabeça aos pés, e vi mesmo ‘estrelas’ debaixo de água. Quando vim à tona já tinha a cabeça com muito sangue e foi um momento difícil até porque em 2015 fui pai e a atitude perante as ondas grandes e os momentos de adrenalina tornou-se bem diferente depois do meu filho ter nascido. Após sermos pais há certas coisas que já ponderamos e nos perguntamos a nós próprios se vale a pena o risco. Ainda hoje não voltei a competir nessa onda, mas tenho muita vontade, porque sou um viciado no perigo e na adrenalina, mas pondero e penso muito. Hei-de lá voltar, mas não será agora até porque estou a recuperar de uma operação ao joelho que realizei este ano. Não posso lá voltar tão depressa, mas é uma luta interior dentro de mim entre a vontade e o risco, porém isso faz parte do meu dia-a-dia há muitos anos.

E até quando é que tu vais sentir força para ir em busca da próxima onda?

A vida de um surfista nunca caduca, porque é realmente um estilo muito saudável e nasce de um contacto muito próximo com a natureza e é um desporto que nos deixa bem com a vida e espero nunca perder esse apetite. Em termos de performance, à semelhança do nível em que estou, o final está para breve. A vida vai dando as suas voltas e entretanto já ganhei um quilinho a mais [risos], e tenho de aprender a gostar de outras coisas. Tenho 38 anos, aos 18 comecei a viajar pelo circuito mundial quase de forma ininterrupta, retirei-me há dois anos e vai existir o momento em que direi ‘acabou’.

Apesar do surf ser uma disciplina individual como é o espírito de grupo dentro modalidade, e de que forma se diferencia o companheirismo da rivalidade?

É importante sabermos separar a competição do lazer. Se soubermos fazer isso e explicar a nossa filosofia de vida aos nossos adversários acho que conseguimos levar a modalidade a bom porto, Mas no surf também precisamos de ser egoístas e pensarmos muitos em nós próprios, porque é um desporto em que estamos a competir com mais do que uma pessoa, por vezes um amigo com o qual nos damos muito bem. Todavia se formos profissionais e a outra pessoa entender que isto é um jogo e só se trata de um trabalho, e que quando acabe consiga dizer ‘parabéns, tu foste melhor’, acho que aí as coisas ficam bem resolvidas. No surf estabelecem-se laços muito fortes e sabe bem fora dos momentos de competição partilhar os momentos vividos dentro de água.

E qual foi o melhor surfista que tiveste oportunidade de conhecer ‘in loco’?

O Kelly Slater provavelmente foi o surfista que eu mais vi no decorrer da minha vida, talvez o que mais perdurou e mais gerações atravessou. Sempre teve um estatuto de líder e vi coisas do Kelly Slater ao vivo que me impressionaram. Ele é um guru e um mágico deste desporto. Ele estar aos 46 anos ainda a competir mostra um pouco que ele não é uma pessoa normal, mas sim um extraterrestre que ainda vive aqui connosco.

Na tua opinião há algum português entre a elite do surf internacional?

Vai ser um pouco difícil, ainda estamos um pouco distantes dessa realidade. Estamos a fazer o nosso caminho: em 2007 o primeiro português na história qualificou-se para o circuito mundial, em 2016 o Frederico Morais também se qualificou. Estamos no bom caminho, mas realmente o surf tem muita força neste país e o futuro avizinha-se bom, todavia para nos batermos com os melhores do mundo ainda temos de percorrer alguma distância. Não digo que seja impossível, mas ainda há poucas referências que estiveram a lutar por títulos mundiais, sendo que ainda existem lacunas técnicas que temos de colmatar. É uma questão de tempo, mas não acredito que seja nos próximos cinco anos, talvez nos próximos 10 ou 15 anos tenhamos um surfista português a competir com o melhor do mundo.

A que nível tu vês o Frederico Morais neste momento?

O Frederico é o melhor surfista português da atualidade, até agora o único português que competiu no WCT. Eu conheço-o bastante bem e sei que a sua maior virtude é a sua mente, a atitude que tem como surfista. Acredito que ele vai ter uma carreira longa neste desporto, porque é uma modalidade que vive muito da parte emocional, de sermos disciplinados e termos confiança nos momentos que realmente é preciso, e nesse aspeto ele é realmente muito forte, porque acredito que ele ainda vá ter uma carreira longa, mas não acredito que tenha armas para lutar por um top-5 ou por um campeonato do mundo.

Nunca se sabe o que o futuro nos traz, mas atrás do Frederico está o Vasco Ribeiro, que compete no Mundial Junior, talvez o maior talento que Portugal já viu crescer e está muito perto do Frederico, quase a apanha-lo. E pessoalmente acredito que se chegar ao WCT tem mais potencial e mais margem de progresso do que o Frederico Morais, mas se calhar depois não é tão forte na gestão da parte mental. Se conseguíssemos juntar o talento de um com a mente do outro provavelmente teríamos um candidato a top-5 ou top-10 mundial, mas mesmo assim acho que os dois estão aquém do nível de um candidato a campeão do mundo.

Como é que a modalidade vive a nível de apoios financeiros?

Isso é um pau de dois bicos. Acho que o investimento que se faz aos atletas não anda taco a taco com o investimento que é feito no país, na modalidade surf. Infelizmente isso não acontece. Provavelmente somos a maior potência da Europa a níveç de valores de mercado e de surf, mas depois os patrocínios e os budgets que são precisos para fazer uma carreira não estão a corresponder a isso. É uma pena, porque as marcas de há uns anos para cá retiraram o apoio a bastantes atletas e têm diminuído o budget que gastam, tornando as coisas um pouco mais difíceis. Por muito que Portugal tenha boas ondas, um português para ser o melhor do mundo tem de viajar bastante desde cedo. Isso é uma coisa que acontece com os tops mundiais e é algo que as pessoas não vêm, mas as marcas investem muito lá fora desde cedo nos atletas e isso faz com que eles evoluam e estejam perto dos melhores do mundo. São rampas de lançamento enormes. Nós até podemos ser grandes surfistas a nível nacional e a nível europeu, mas temos de nos rodear dos melhores do mundo o máximo de tempo possível, mas isso tem custos.

Qual é o sonho que te falta cumprir e gostavas de realizar ainda dentro de água?

Sonho… eu gostava de visitar certos sítios que ainda não visitei. Eu sou um viciado em ondas e em ‘tubos’, por isso vou sempre ter uma busca insaciável por ondas perfeitas e querer fazer tubos cada vez melhores, e isso só por si já se trata de uma ambição. Agora só penso mais no lado familiar e a vontade de querer estar com os meus repleto de muita saúde.

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