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'A Mística de Putin' analisa sociedade russa e o Kremlin

A escritora russa Anna Arutunyan, autora do livro 'A Mística de Putin', disse à Lusa que o líder do Kremlin atua como "um espelho" da sociedade russa para exercer o poder num país onde os cidadãos ainda esperam quase tudo do Estado.

'A Mística de Putin' analisa sociedade russa e o Kremlin
Notícias ao Minuto

17:05 - 13/10/14 por Lusa

Cultura Livros

"Não quis tanto contar a história sobre a vontade de mandar, mas sim daqueles que seguem o poder na Rússia porque quase nunca olhamos com atenção para os sentimentos de milhões de pessoas que seguem ou se submetem a esse poder ", disse a autora de ‘A Mística de Putin’ lançado sexta-feira em Portugal.

Anna Arutunyan, 34 anos, nasceu na União Soviética mas estudou nos Estados Unidos, tendo regressado a Moscovo em 2002, onde é editora do jornal Moscow News.

O livro analisa a governação e o poder de Vladimir Putin, mas sobretudo procura respostas para o entendimento sobre o nível de aceitação do líder por parte dos russos.

"Não há uma resposta simples. Porque é que as pessoas não se revoltam? Não interessa saber se é bom ou bom porque são mecanismos de adaptação que funcionam. Quando deixarem de funcionar, deixam de funcionar mas, por agora, funcionam", diz a escritora e jornalista.

Para Arutunyan, a Rússia é "um país enorme" onde as pessoas se relacionam umas com as outras sob "conceitos e valores muito básicos", herança da União Soviética "e da repressão comunista", mas também é resultado da própria geografia.

"Quando falamos de um país tão grande onde as estradas são tão más e onde é difícil comunicar, o que une o país é um governo forte e, por isso, as pessoas olham sempre para o Estado como entidade central", explica.

"De certa forma, os trabalhadores aceitam uma espécie de exploração mas, em troca, exigem que o Estado tome conta deles quando, por exemplo, os salários estão atrasados, apelam ao poder - ao czar - e neste caso a Putin", acrescenta sublinhando que o presidente construiu através da propaganda a imagem do líder que resolve os problemas da sociedade.

No entanto, escreve no livro, a singularidade deste caso de popularidade deve-se ao facto de Putin, um antigo agente da contraespionagem, "homem baixo, afável e sem imponência", nunca ter sido naturalmente dotado de carisma, da ambição ou da popularidade que são típicos de "um líder patrimonial bem-sucedido".

A autora recorda também que Putin, que cumpre o terceiro mandato, nunca liderou um golpe de Estado nem fez carreira política e que se viu no topo quase por acidente, em 1999, porque foi escolhido pela "elite endinheirada" que rodeava o então Presidente Boris Ieltsin, que o designou sucessor.

"A popularidade de Putin foi, então, rapidamente engendrada por politólogos leais à administração de Ieltsin a fim de assegurar uma transição suave do poder", escreve.

Segundo a autora, o líder do Kremlin revelou não ter nem uma ideologia, nem uma agenda identificável além de permanecer no poder, "acumular riqueza" para o segmento leal da elite e de tentar restaurar uma "aparência de ordem de grandeza imperial".

O caso da banda punk Pussy Riot, que protagonizou um protesto contra o presidente na catedral ortodoxa, em Moscovo, é detalhadamente estudado no livro exemplificando assim as ligações cada vez mais fortes entre Putin e os líderes religiosos ortodoxos como parte da estratégia de poder.

"Eu recordo no livro o papel da religião e da igreja desde a época bizantina porque existe uma espécie de sinfonia de poder entre o governo e a instituição religiosa, quando o imperador era o líder da igreja", disse Anna Arutunyan, que no final do texto refere-se ainda à posição de Putin sobre os acontecimentos na Ucrânia.

São destacadas a tentativa de afastamento de Kiev da esfera da NATO, a anexação da Crimeia como garantia da manutenção da base naval russa no Mar Negro para além de 2017 - em nome de "um império já existente" -, e o envolvimento de Moscovo no recuo, em 2013, em relação ao acordo de associação entre a Ucrânia e a União Europeia, que deita por terra as aspirações da União Euroasiática, a zona de comércio livre liderada por Moscovo, como "uma nova União Soviética" mas sem o comunismo.

"Para Vladimir Putin se lançar na União Euroasiática, no âmbito de uma missão histórica para se tornar o unificador das terras russas, a Ucrânia tinha de se manter na sua esfera de interesses", conclui.

O livro ‘A Mística de Putin’ de Anna Arutunyan (Editora Quetzal , 384 páginas) encontra-se nas livrarias desde sexta-feira.

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