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"Os temas duros do livro são os mesmos dos meus traumas"

Entre drogas, pobreza, violência e vício, um grupo incomum de empreendedores permitiu ao autor contar a sua história, mas também homenagear pessoas do passado. 

"Os temas duros do livro são os mesmos dos meus traumas"
Notícias ao Minuto

08:18 - 11/07/24 por Marta Amorim

Cultura Literatura

O terceiro livro de Alex Couto, 'Sinais de Fumo', levo-nos para o meio do bairro do Viso, em Setúbal. 

Entre drogas, pobreza, violência e vício, um grupo incomum de empreendedores permitiu ao autor contar a sua história, mas também homenagear pessoas do passado. 

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Alex Couto revisita o bairro. "Os temas duros do livro são os mesmos dos meus traumas", admite o autor. 

O que inspirou a escrita deste livro, que é o seu terceiro, embora seja o primeiro romance?

Este livro está interligado com o meu segundo, mesmo quando são obras muito diferentes. O romance, na sua fúria de ser uma homenagem a um certo Sado de século XXI, com redes sociais e internet, despertou muitas memórias da minha vida. Muitas delas tentei tratar nos meus contos da 'Ponta de um Corno' (2022). O que inspira a escrita deste livro é saber que estou a trabalhar com uma matéria-prima preciosa, neste caso a linguagem local de Setúbal, sendo um praticante possível de um certo discurso contemporâneo de uma cidade de Setúbal de onde fugi assim que consegui.

O meu primeiro livro independente trouxe-me várias oportunidades, mas foi escrito como um desabafo sobre a gentrificação e é muito menos ambicioso no seu escopo do que tudo aquilo que tentei esculpir em edifícios inteiros de expressões sadinas nos outros dois. Se algum dia quiserem traduzir 'Sinais de Fumo' eu só me vou rir e desejar boa sorte, este é para a minha zona e isso nunca ninguém me vai tirar, estar lá com o Bocage e a Alice Brito.

Notícias ao Minuto © Penguin Random House  

Foi um processo de escrita longo. Porquê? Foi doloroso voltar às raízes? 

É doloroso voltar às raízes e é doloroso relembrar episódios muito vívidos na nossa memória, sobretudo neste território onde adultério, criminalidade e violência são temas fortes, mas não foi por isso que o processo de escrita foi longo. 

É muito díficil, seja em que arte for, compararmos as nossas referências com a nossa produção. A dor de estar a elevar os meus critérios estéticos, apenas para não conseguir estar à altura dos meus escritores favoritos, obrigou-me a mandar este livro para o lixo da primeira vez que o escrevi e ter reescrito tudo de novo. Ainda bem que isso aconteceu, é o que penso em retrospectiva, porque o truque técnico dos pronomes, de utilizar muitas vezes uma voz colectiva para te fazer sentir parte do bairro, foi algo em que só acertei quando o estava a reescrever e que foi tão excitante que me levou a escrevê-lo todo de novo. Entretanto, descobri que o Thomas Carlyle usou um mecanismo parecido na sua história da revolução francesa, o que tem muita graça — pensar que o meu truque original era algo que já tinha sido feito há quase duzentos anos.

O livro também demorou muito tempo a escrever porque tenho uma obsessão em ler todos os livros sobre escrever livros que existem (de onde tenho de destacar o 'Writing Degree Zero' do Roland Barthes, os 'Exercícios de Estilo' do Raymond Queneau e o 'On Writing' do Stephen King). A masterclass da Margaret Atwood também me apareceu no momento certo, para dissipar algumas incertezas.

Só percebi que a diferença era algo de positivo quando tropecei na minha por acidente

A visão que o livro apresenta do bairro não se inventa. Se dúvidas houvessem, ao ler o livro sabemos que viveu mesmo lá. Como foi viver no Viso, em Setúbal?

Incrível, a experiência definitiva da minha vida. Crescer rodeado de diversas classes sociais sem distância física entre nós levou a que tivesse uma perspectiva do mundo muito mais social, algo que também se relaciona com os ideais políticos muito pró-trabalhadores que os meus avós me passaram.

O Viso é tão irónico porque quiseram meter ali os pobres no Castelo Velho e acidentalmente deram a melhor vista da cidade à nossa zona — é bom demais ver Tróia num daqueles dias de pôr-do-sol cor-de-rosa e mesmo eu no Largo Aquilino Ribeiro tinha vista para o Sado das duas varandas da casa do meu avô.

Infelizmente, foi um bairro que deturpou a minha visão da sexualidade em vários aspectos, que me levou a ocultar paixões que tinha para não ser vítima de bullying e onde só percebi que a diferença era algo de positivo quando tropecei na minha por acidente. Para compensar, aprendi a comprar peixe fresco (tem de ter mais brilho nos olhos do que a pessoa que levas a jantar fora) e a cozinhar caldeirada (o truque está nas camadas). 

Há muitas cenas tiradas da vida real? 

Gosto de verosimilhança, mas prefiro gargalhadas. Há imensos detalhes de personalidade dos personagens que são tirados a papel químico de reacções de amigos e conhecidos meus, mas só porque são de um nível de parvoíce que seria difícil inventá-los eu. 

No que toca ao enredo do livro, parece-me ser mais uma colisão entre os tropos clássicos de narrativas de bairro e um tipo de imaginação noir e pós-modernista, sobretudo a nível dos eventos da história. Nessa parte vou colher os meus créditos porque gosto de dar aulas de storytelling e passo imenso tempo a martelar na possibilidade de eventos ficcionais que são uma continuação óbvia da realidade. Acho que numa era de incerteza, pelo menos a ficção tem de ser capaz de iluminar possibilidades. Esta é a minha oportunidade de confirmar que a originalidade deve ser um desejo nosso, até numa arte tão rica como a literatura portuguesa. 

O livro aborda temas duros e desconfortáveis que marcaram a tua vida. Como foi revivê-los?

Foi uma miscelânea de sentimentos. Se por um lado eu estou a ganhar controlo e perspectiva dos eventos da minha vida e dos meus amigos, uma beca como na terapia até, por outro lado estou a dar de caras com a certeza de que não tínhamos ferramentas emocionais e intelectuais para lidarmos com o que tínhamos à nossa volta. Sinais de Fumo tenta sublinhar essa realidade através da personagem de Charlie Brown, um gajo que mesmo quando ganha intenções de sair da criminalidade, continua cheio de tiques da antiga vida que levava. Os temas duros do livro são os mesmos dos meus traumas — preferia não ter passado por eles, mas parecem produzir literatura. 

A personagem Alex destaca-se claramente do grupo. Representa o Alex da vida real?

Completamente, eu precisava de alguém que fizesse no livro aquilo que eu sempre fiz na vida real com os meus amigos e vizinhos — explicar-lhes que há formas de nos comportarmos além da conduta típica de bairro.

Para além disso, tinha a ambição de que a Alex pudesse servir de barómetro para o progresso dos outros, algo importante para eles enquanto personagens que progridem, mas também para mim enquanto autor que sempre aprendeu que os livros são tão bons quanto as jornadas dos personagens. Acho que nesse sentido a Alex acaba por ser uma hiperligação para longe do bairro, para o mundo dos negócios, mas também para uma série de tendências estéticas com a qual muitos deles não estariam ligados. A Alex é alguém mais liberal de um ponto de vista dos costumes, mais progressiva na política e com uma carga de referências culturais muito maior do que aquelas que se adquirem na vida de bairro.

A pouca progressão da Alex ao longo da história (está quase sempre a fazer de si mesma, algo que também me atormenta na minha própria vida), acaba por demonstrar os progressos e retrocessos de Charlie Brown com muito mais força, algo que me deixa muito feliz. 

O que é que o 'tirou' do bairro? Qual foi o momento de viragem?

Foram vários. Em primeiro lugar, está o meu avô — não só num momento, mas em vários. O meu avô dava-me livros para ler que não eram para a minha idade, consigo lembrar-me das Memórias de uma Gueixa (um livro cuja leitura de sensibilidade envelheceu bem mal), assim como os meus primeiros Dostoievsky. A teoria dele era óptima, se lhe der livros que não são para a idade dele, talvez ele vá achar os livros mais estimulantes. Em retrospectiva, foi uma atitude genial, mesmo quando era feita às escondidas da minha mãe. 

Para além desta dieta literária em que tropeçava em cenas de sexo que não percebia e de política que ainda percebia menos, houve o cuidado dele em fazer uma conta-poupança para que pudesse ir para a universidade, desde que tivesse média para ficar no ensino público. Comecei a estudar muito para garantir que aproveitava essa oportunidade, acabei a ganhar os diplomas de mérito da minha escola secundária, e aí já olhava para fora da janela dos autocarros e pensava em bazar. Nos meus contos da Ponta do Corno há muita dessa energia, o que é que eu tenho de fazer para sair daqui, sobretudo quando o meu talento para as artes manuais impedia uma possível carreira como soldador na Holanda. Quando comecei a apanhar o fertagus todos os dias para ir estudar para Lisboa, ainda havia ali uma sensação de yo-yo entre Setúbal e a capital, mas assim que arranjei o meu primeiro emprego numa agência também arrendei logo uma casa na Madragoa (tinha vista para o Tejo, mas chovia lá dentro). 

A linguagem quase codificada - e que até precisa de glossário - é o que torna esta história diferente?

Manda a história para um território muito próprio, acredito que infecta até a narrativa, mas é muito subjetivo. O que eu tentei fazer foi homenagear a minha zona, o Bairro do Viso, a Fonte Nova e a Reboreda. Muita gente se lembra da 'Crónica dos Bons Malandros' quando está à procura de algo para comparar 'Sinais de Fumo' (algo que levo como um grande elogio porque li esse livro várias vezes) e isso é algo que faz sentido para mim. 'O Que Diz Molero do Dinis Machado' também tem esse super poder. São livros que mostram que podemos extravasar neorrealismo adiante com a ajuda de universos populares, que há histórias dignas de serem literatura mesmo quando os personagens não são de classe alta a fazer atividades de classe alta. 

Pessoalmente, também acho que o que torna a história diferente foi algo que durante muito tempo vi como um defeito, mas que na cadeira de 'Arte do Romance' descobri ser inevitável — a história funde géneros bastante diferentes, tem elementos de romance, de policial e de noir, mesmo quando fala com sotaque charroco. Esta junção de elementos eleva a linguagem para ainda a fazer parecer mais fora. 

Para mim, que durante muitos anos fumei cannabis com alguma regularidade, parece-me patético que haja tanta gente a fingir que não faz mal nenhum

A droga está sempre presente no livro e nessa realidade que retrata. A ideia é alertar para os perigos da canábis? Contudo, há também uma certa romantização...

A minha mulher acha que escrevi um livro a romantizar a canábis. Eu acho que fiz um livro a alertar para os perigos da substância. Acredito que a resposta esteja algures no meio. Para mim, que durante muitos anos fumei cannabis com alguma regularidade, parece-me patético que haja tanta gente a fingir que não faz mal nenhum, que esta planta é a enviada de Deus para salvar os homens. 

Precisei de fazer terapia para perceber que os meus ataques de raiva eram muito exagerados pela cannabis, que apesar de parecer que os teus problemas desaparecem quando fumas uma, eles continuam lá, apenas detrás de uma cortina de fumo. Quando ouvi um amigo do Viso a dizer-me que só fumando todos os dias é que se aproveita a cannabis ao máximo, tive de colocar um personagem com uma teoria parecida — a malta acredita mesmo nisto. Ver o amarelado dos dentes e o semi-cerrar das pestanas ao longo dos anos torna-se bastante óbvio, só queria sublinhar que por muito divertida que seja, a cannabis tem problemas associados ao seu consumo. 

Que papel é que a droga teve ou tem na sua vida?

Um papel como outro qualquer. Apanhar pedras é fixe, mas curto mais ler calhamaços. Durante alguns anos achei que fumar erva era parte da minha identidade, depois a minha mulher e terapeutas ajudaram-me a desconstruir isso. Infelizmente, mesmo quando já não curto apanhar mega pedras e ficar todo cego, ainda gosto de fumar uma de vez em quando, idealmente a acompanhar uma mimosa ou uma coca-cola com gelo e limão. As responsabilidades crescentes que vêm com o meu lado criativo e com o meu lado editorial impedem-me de me dedicar demasiado a este tipo de actividades lúdicas. 

Não tenho qualquer tipo de atracção pela vibe das drogas químicas como pastilhas, comprimidos, cheiretas, porque não é a minha onda de todo. Já tive oportunidade de meter a melhor cocaína do mundo nariz adentro numa festa de alta sociedade portuguesa e deixei passar a minha vez porque o ambiente era demasiado macho. Preferências — podem ser uma benção ou uma maldição. 

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