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"Muitas vezes a literatura não consegue imitar a vida na sua crueldade"

A autora Gabriela Ruivo, que venceu os prémios LeYa (2013) e PEN Clube Português Primeira Obra (2015), e que foi nomeada para a edição de 2024 do Prémio de Literatura da União Europeia, é a convidada desta segunda-feira do Vozes ao Minuto.

"Muitas vezes a literatura não consegue imitar a vida na sua crueldade"
Notícias ao Minuto

09:30 - 22/04/24 por Daniela Filipe

Cultura Literatura

Depois de, em 2013, ter vencido o prémio LeYa com 'Uma Outra Voz', livro distinguido, dois anos depois, com o PEN Clube Português Primeira Obra, Gabriela Ruivo regressa aos romances com um trabalho que redefine não só a conceção de tempo, mas também destapa o véu aos ciclos de violência que, de uma forma ou de outra, nos ligam. 'Lei da Gravidade', que foi editado em 2023, valeu à escritora uma nomeação no Prémio de Literatura da União Europeia 2024, galardão que foi arrecadado pelo dinamarquês Theis Ørntoft, com 'Jordisk' ('Terrestre'). 

Volvidos cerca de 10 anos entre romances, - com a participação em antologias de poesia e de contos pelo meio -, Gabriela Ruivo confessou, em conversa com o Notícias ao Minuto, que estas distinções "tiveram pouca repercussão" no que diz respeito à sua carreira no mercado literário, em que as mulheres se veem obrigadas a "trabalhar três vezes mais e a ser três vezes melhor" do que os colegas do sexo masculino, uma vez que "o pouco espaço que há acaba, quase sempre, por ir parar às mesmas pessoas".

Apesar de haver "muita estrada para andar" neste campo, a escritora, que reside em Londres, no Reino Unido, desde 2004, considerou que "as coisas estão a melhorar", tendo em conta a consciencialização da sociedade não só para a equidade entre homens e mulheres, como para problemas que vão desde a violência doméstica ao estigma associado à saúde mental. 'Lei da Gravidade', por seu turno, aborda ambos - e muito mais.

Acontecem coisas na vida que parece que são de livros e, muitas vezes, a literatura, por mais que se esforce, não consegue imitar a vida na sua crueldade. Se escrevêssemos aquilo que realmente aconteceu, algumas pessoas se calhar torciam o nariz, porque há coisas que superam todos os limites da nossa imaginação

Qual a inspiração por trás de 'Lei da Gravidade'?

Foi um vídeo que vi no YouTube sobre o conceito de tempo, que defendia que não existe passado, nem presente, nem futuro, e que está tudo a acontecer no presente. [O criador] tinha uma grande teoria sobre isto, que metia conhecimentos sobre física quântica, e achei que daria uma história muito interessante como exercício literário. A primeira ideia que me ocorreu para este livro foi a de um prédio em que em cada andar viveria a mesma pessoa em alturas diferentes da vida. Depois, as pessoas cruzavam-se no elevador e nas escadas, mas não sabiam que eram a mesma pessoa.

Fui desenvolvendo esta ideia e percebi que precisava de uma cidade, num país que é fictício, apesar de estarmos no planeta Terra. Nesta história o tempo não passa; o passado, o presente e o futuro estão a acontecer naquele momento, no presente. Esta ideia de o tempo não existir serviu-me para abordar processos e padrões de comportamento, como a violência, que se repetem. É isso que este livro também aborda; os ciclos de violência e se será possível quebrá-los.

Precisamos de sair de nós e do nosso mundo para habitarmos a cabeça de outra pessoa, e isso acaba por se conseguir com alguma imaginação. Se não tivéssemos imaginação não poderíamos nunca escrever sobre outras realidades

"Será que a vida imita a literatura, ou o contrário?" é a questão que coloca aos leitores, logo na capa. Conseguiu chegar a uma resposta?

Não, não consegui. Acontecem coisas na vida que parece que são de livros e, muitas vezes, a literatura, por mais que se esforce, não consegue imitar a vida na sua crueldade. Se escrevêssemos aquilo que realmente aconteceu, algumas pessoas se calhar torciam o nariz, porque há coisas que superam todos os limites da nossa imaginação. Por isso, não tenho uma resposta.

Este livro também é sobre a forma como nos construirmos enquanto personagens; a forma como nos mostramos aos outros, sempre diferente, porque não somos a mesma pessoa em contextos diferentes, e a forma como nos enganamos e aos outros, intencionalmente ou não.

A personagem da minha história, o Escritor, é professor de psicologia e tem muita coisa em comum comigo, mas também tem muita coisa que não tem nada a ver comigo.

Nessa linha, concorda com a ideia que o Escritor transmitiu de que os autores não podem escrever um livro se não tiverem passado pela experiência que estão a abordar?

Não, não concordo nada com isso. Concordo que temos de partir da nossa experiência como matéria-prima, mas acho que o processo de criação pressupõe uma transformação e um distanciamento, que acho mais importante ainda. Precisamos de sair de nós e do nosso mundo para habitarmos a cabeça de outra pessoa, e isso acaba por se conseguir com alguma imaginação. Se não tivéssemos imaginação, não poderíamos nunca escrever sobre outras realidades.

E não poderíamos ter empatia.

Exato, não poderíamos ter empatia. Essa questão da empatia é interessante, porque muita gente confunde simpatia com empatia: acham que empatia é o que sinto no lugar no outro, e isso é simpatia. A empatia pressupõe tentarmos imaginar o que é que o outro sente no lugar onde está e, para isso, precisamos de imaginação e de conhecimento, porque precisamos de conhecer a história do outro. A expressão inglesa de calçar os sapatos do outro é muito interessante, porque quando calçamos os sapatos de outra pessoa, nunca nos sentimos realmente confortáveis; ou porque o tamanho é um bocado abaixo ou acima, e mesmo que seja o mesmo tamanho, o nosso pé não está muito confortável.

É precisamente esse desconforto que marca a empatia, porque o nosso pé tem de se adaptar àquelas curvas, isto é, ao caminho que a outra pessoa andou, à história de vida do outro. Temos de conhecer isso e temos de imaginar para conseguir chegar à empatia. É uma coisa que dá trabalho, não é automática nem espontânea; o que é espontâneo é imaginar o que sinto no lugar do outro. Isto, no fundo, é o que a literatura faz. A literatura não é mais do que a tentativa de chegar ao outro através da imaginação e do conhecimento. Portanto, os livros são as melhores armas de empatia, precisamente para conhecermos outros mundos que não os nossos.

De vez em quando há estes lampejos de retrocesso, que parece que as coisas querem andar para trás, se bem que não acho isso. O que acho é que estas pessoas que pensam assim nunca deixaram de existir. Agora têm é mais liberdade para expor essas opiniões. Há aqui algo de positivo, porque mostram as suas verdadeiras cores e já sabemos com o que é que contamos. Ainda há muita gente que pensa assim, mas acho que há muito mais gente que não pensa assim

Tendo em conta que o livro quase poderia ser chamado ‘Lei do Destino’, uma vez que transmite a ideia de ciclos e de que estamos todos ligados, como é que surge a questão da gravidade?

A interpretação pode ser aberta; já houve pessoas que me disseram tanta coisa interessante sobre o título. Pode ter a ver com o sentido de as coisas serem graves, mas a minha ideia era mais a lei da gravidade aplicada ao conceito de tempo. Podemos ver o tempo como uma espiral ascendente que, como diz o Escritor, se estivesse sujeita à lei da gravidade, teríamos um circulo perfeito com o passado, o presente e o futuro a acontecerem ao mesmo tempo. Achei que era um título com impacto também por ser tão aberto a interpretações.

Que outras interpretações é que já lhe apresentaram?

A lei da gravidade como a lei que nos une a todos, como estava a dizer. Uma espécie de rede em que estejamos todos ligados uns aos outros através de forças universais, neste caso a força da gravidade, que nos atrai para a Terra, mas que também nos permite viver aqui em relação com os outros. Achei essa imagem também muito interessante.

Esta obra aborda temas como a violência doméstica e a perceção dos agressores por parte da sociedade, a solidão, a saúde mental, entre outros. Considera que há forma de colocarmos um ponto final a este ciclo de ‘doenças’ da comunidade?

Quero acreditar que sim. Um ponto final é sempre difícil, porque estas coisas são processos lentos e não se param de um momento para o outro. Tem de acontecer muitas coisas até começarmos a melhorar, mas acho que estamos a melhorar. Acho que os casos de violência doméstica não estão a aumentar; o que está a aumentar é a nossa consciencialização para o problema e as queixas, por isso é que temos a sensação de que estão a aumentar.

No tempo da minha avó, a violência doméstica era normal e, por isso, ninguém falava nela, nem existia como conceito. Não era um problema. Como a saúde mental; há quem diga que agora toda a gente tem ansiedade, mas as pessoas sempre tiveram ansiedade. Há 200 anos ninguém falava disso e as pessoas lidavam com isso. Há quem diga que vivíamos bem e que ninguém morreu por causa disso, mas é mentira. Porque é que há tantos suicídios?

Agora, os problemas estão identificados e há ajuda, portanto as coisas estão a melhorar. Claro que são processos lentos, por causa das mentalidades. Mesmo que as coisas já sejam lei, como é o caso da criminalização da violência doméstica, sabemos que apanhamos agentes da polícia iguais ao senhor Santos do livro, que boicotam completamente o processo de investigação. Continua a existir isso. É preciso esperar muito tempo para que a mentalidade mude, e isso faz parte da evolução social e da educação.

Até estamos a ver isso agora com as questões ao aborto e de que as mulheres deveriam voltar a ser donas de casa…

Exato. De vez em quando há estes lampejos de retrocesso, que parece que as coisas querem andar para trás, se bem que não acho isso. O que acho é que estas pessoas que pensam assim nunca deixaram de existir. Agora têm é mais liberdade para expor essas opiniões. Há aqui algo de positivo, porque mostram as suas verdadeiras cores e já sabemos com o que é que contamos. Ainda há muita gente que pensa assim, mas acho que há muito mais gente que não pensa assim. Acredito que a maioria da sociedade não pensa assim, pelo menos da sociedade ocidental.

A personagem do Escritor tem várias opiniões vincadas sobre a literatura e os próprios leitores, considerando, até, que as pessoas "não suportam a mentira". Partilha de algumas destas crenças?

Muitas daquelas ideias sobre psicologia estão relacionadas comigo, mas também brinco com as coisas que ele diz. Isso, por acaso, acho que é uma tendência atual, e talvez seja por isso que se diz tanto que a literatura está em crise. Mas acho que, hoje em dia, as pessoas realmente não querem ler histórias. Cada vez há mais procura de autoficção. Se veem um filme, não exigem que o filme seja fidedigno; é um filme, é uma história. Há pessoas que, ao lerem um livro, parece que estão à procura do escritor. Também não se toleram nos livros coisas que se toleram nos filmes, mais uma vez, como a linguagem abusiva, a linguagem racializada.

Passamos a vida a ver filmes altamente violentos, em que as pessoas se insultam a torto e a direito, e nunca ninguém se lembrou de dizer que não pode ser assim; quanto muito metem uma bolinha vermelha. Mas nos livros sim, existe essa ideia de que os livros não podem tratar comportamentos abusivos de uma forma realista e não podem conter certas palavras, porque vão ofender as pessoas. É a morte da literatura, então. É uma história inventada que pretende retratar uma realidade, por isso as personagens têm de falar como as pessoas falariam.

Não diria que não temos atenção, mas para termos a atenção igual ou comparável ao colega homem, temos de trabalhar três vezes mais e ser três vezes melhor. Sinto bastante isso e acho que não estou sozinha a senti-lo; acho que todas as mulheres o sentem. Há muito menos destaques de leituras, principalmente de escritoras portuguesas

Sei que já houve até grandes clássicos censurados em universidades dos Estados Unidos, por acharem que uma pessoa pode ficar mais deprimida ao ler certas histórias, por exemplo. Uma pessoa que esteja deprimida está deprimida, e o maior inimigo dessa pessoa são os próprios pensamentos. Até pode encontrar espelho numa experiência de uma personagem que também esteja deprimida.

É como aquelas pessoas que não querem que os filhos tenham educação sexual, mas os miúdos não vivem numa redoma. Mesmo que não recebam educação sexual em casa ou na escola, eles ouvem, estão no mundo, convivem com pessoas. Depois pensam que dar educação sexual significa que os jovens vão começar a ter atividade sexual, mas isso é um disparate; está provado o contrário. Quanta mais informação os jovens tiverem sobre a sexualidade, mais responsavelmente vão iniciar a sua vida sexual. Temos tantas gravidezes indesejadas, que acontecem por acidente, e é um problema que só se combate com informação, não é não informando. Assim estavam os nossos avós, sem informação nenhuma, e está provado que não deu certo.

‘Lei da Gravidade’ foi lançado cerca de 10 anos depois da sua primeira obra, ‘Uma Outra Voz’. Que balanço faz deste período, principalmente enquanto mulher numa indústria que ainda é dominada pelos homens?

Tenho sentido isso na pele. Não diria que não temos atenção, mas para termos a atenção igual ou comparável ao colega homem, temos de trabalhar três vezes mais e ser três vezes melhor. Sinto bastante isso e acho que não estou sozinha a senti-lo; acho que todas as mulheres o sentem. Há muito menos destaques de leituras, principalmente de escritoras portuguesas. Faço parte do Clube das Mulheres Escritoras, que surgiu precisamente por causa disto, e o nosso objetivo é dar a conhecer ao público o nosso trabalho, porque acho que não temos as mesmas oportunidades, de longe.

O balanço acaba por ser positivo. Há 10 anos tornei-me autora publicada, que não era. Mas sinto que, se fosse homem, se calhar a minha carreira já teria evoluído mais rapidamente do que está a evoluir. É aí que se notam as diferenças.

É uma discussão que está a surgir tanto em Portugal, como noutros sítios, e está a procurar-se dar mais atenção às mulheres escritoras. É uma das coisas em que há muita estrada para andar e vamos num bom caminho, mas tem de haver vontade e iniciativas para isso. O clube é importante, mas tem de haver outras iniciativas.

O que é facto é que temos uma crise em todos os campos; as pessoas não têm dinheiro para comprar livros, os jornais cada vez dão menos importância à cultura, já não há críticas e recensões como já houve. O pouco espaço que há acaba, quase sempre, por ir parar às mesmas pessoas, e acho que tem de haver vontade de descobrir novos autores – e autoras, neste caso – e essa vontade não existe. É difícil quebrar ciclos, mesmo que não sejam de violência.

Acho que a grande ambição de qualquer autor é ser traduzido, porque é a única forma de sair do seu país. É tão importante conhecermos a literatura de outros países e de outros continentes, para a tal questão da empatia e de conhecermos outras realidades

Após o lançamento do Clube das Mulheres Escritoras, no ano passado, conversei com a autora Filipa Fonseca Silva, que apontou que "ainda se olha para a literatura escrita por mulheres como algo menor", o que é um pouco o que mencionou agora. Ainda assim, notou alguma evolução neste último ano de ‘irmandade’?

Não; acho que são coisas que num ano não se notam. Um ano é muito pouco tempo, mas já fizemos um trabalho muito importante. Temos uma newsletter informativa e literária que enviamos a mais de três mil subscritores; isso é uma coisa constante, que temos todos os meses. Escrevemos textos inéditos, estamos a dar a conhecer o nosso trabalho, e fomos convidadas para muitos eventos. Em relação ao Clube das Mulheres Escritoras, houve interesse dos meios de comunicação social, o que às vezes não acontece com uma escritora individual. Acho que foi muito positivo, porque se alguém falar sobre o Clube das Mulheres Escritoras, pelo menos no meio literário já toda a gente sabe o que é.

No primeiro aniversário lançámos uma revista, que está espalhada por algumas livrarias independentes no país, e foi uma iniciativa muito boa. Temos muitas ideias para o futuro, portanto acho que de certeza que vamos contribuir para que o trabalho de muitas mulheres escritores passe a ser conhecido; até porque o nosso objetivo também é divulgar o trabalho de autoras que não estão no clube. Acredito que vamos ter um papel importante nisso mas, para se sentirem os efeitos, vai ser preciso passar algum tempo.

Foi vencedora do prémios LeYa e do PEN Clube Português Primeira Obra, e esteve agora nomeada para o Prémio de Literatura da União Europeia. Como é que vê estas distinções, tendo em conta tudo aquilo que mencionámos?

Acho que são distinções muito importantes e fiquei muito contente com elas. Aliás, foi graças ao prémio LeYa que me tornei autora publicada; não acredito que o seria se não tivesse vencido esse prémio. Em termos de carreira literária, tiveram pouca repercussão. Conheço muitos colegas de prémio que assinam crónicas; não tenho nada disso. Nestes 10 anos, como não publiquei mais nenhum romance, quase que desapareci de cena.

Agora, voltei com ‘Lei da Gravidade’, e ainda bem que foi nomeado para o Prémio de Literatura da União Europeia, porque acho que é um galardão que dá uma grande projeção a nível internacional e isso é muito importante para nós, autores portugueses e autoras portuguesas, principalmente. Este prémio tem o mérito de dar projeção internacional a todos os nomeados, não é só aos vencedores e aos que recebem uma menção honrosa.

Já são mais de 100 autores nomeados até hoje e continuam a promover as obras dos autores, o que acho interessantíssimo, porque de outra forma estas obras não saiam do país e não seriam conhecidas noutras línguas. Acho que a grande ambição de qualquer autor é ser traduzido, porque é a única forma de sair do seu país. É tão importante conhecermos a literatura de outros países e de outros continentes, para a tal questão da empatia e de conhecermos outras realidades.

Como é que encara este ‘boom’ da literatura entre os jovens, principalmente nas redes sociais?

Acho ótimo. Qualquer coisa que leve as pessoas a ler mais é sempre bom. As pessoas muitas vezes queixam-se que os jovens não leem, mas leem muito mais do que no meu tempo e no tempo dos meus pais. O que acho mal é que as editoras prescindam do seu papel de promoção de literatura e que deixem essa promoção nas mãos [dos jovens]. Deviam ser coisas diferentes e o que vejo é que as editoras, principalmente as grandes, têm uma lógica muito mercantilizada da literatura. Acho que a literatura não pode ser assim, não pode ter fins lucrativos. Claro que tem de se pagar às pessoas que trabalham, ao autor e tem de se cobrir todos os custos, mas não acho bem que alguém, dentro da editora, esteja a ganhar dinheiro à conta do trabalho das outras pessoas.

As editoras é que têm a obrigação de promover os autores e de ser os agentes mais interessados na literatura. Claro que se houver jovens no TikTok a falar de livros, melhor ainda, mas é um acrescento. Porquê que não há crítica literária? É uma coisa que não existe no vazio; são os orçamentos para a cultura que são baixos e são as editoras que passam maus bocados. Sei que as editoras não ganham assim tanto; a distribuição fica com uma fatia do preço dos livros, mas as coisas estão a entrar num ponto em que já não se distingue o que é cultura do que é folclore e, assim, perdemos todos.

Acho que a língua portuguesa não está devidamente internacionalizada, não está devidamente promovida. A língua espanhola, por exemplo, não tem tanto esse problema. Há muita tradução de literatura latino-americana, principalmente. Acho que o problema é que as instituições não conseguem unir-se nesse propósito, porque se fosse um esforço conjunto, de certeza que já haveria mais frutos

Vive em Londres desde 2004; de que forma encara não só as diferenças entre os panoramas literários, mas também entre os problemas sociais dos dois países?

No Reino Unido também há problemas, e todos os problemas que existem em Portugal existem no Reino Unido, só que talvez em grau um bocadinho menor. O mercado, apesar de tudo, é maior, mas também se fala muito no facto de as mulheres não terem tanta atenção; acho que isso é uma coisa universal. Também tivemos greves de professores, greves de médicos, tudo igual. Só que, se comparar o salário de um médico de lá com o de um médico daqui, constata que o médico de lá ganha muito mais, mas também não ganha bem para a sua realidade. A situação não está nada boa. Felizmente, vamos ter eleições este ano e penso que o governo vai virar; pelo menos é essa a expectativa de toda a gente, mas nunca se sabe.

E que outros projetos tem em mãos neste momento?

O projeto mais importante que tenho em mãos neste momento é o Portuguese in Translation Book Club. Somos um clube do livro, discutimos livros de língua portuguesa traduzidos para inglês, temos sessões de dois em dois meses com o autor e com o tradutor. Já tivemos 11 sessões, já vamos no nosso terceiro ano de existência, e está a correr muito bem. É um clube online, porque o tradutor está num canto do mundo, o autor no outro e o público está espalhado, mas as pessoas vão, interessam-se e tem-se gerado muita discussão à volta dos livros, e é isso que pretendemos – queremos dar a conhecer trabalhos de autores de língua portuguesa ao público anglo-saxónico. As sessões são em inglês e, ultimamente, tem havido tradução simultânea para português, o que permite ter na sala pessoas que não falam inglês.

Acho que a língua portuguesa não está devidamente internacionalizada, não está devidamente promovida. A língua espanhola, por exemplo, não tem tanto esse problema. Há muita tradução de literatura latino-americana, principalmente. Acho que o problema é que as instituições não conseguem unir-se nesse propósito, porque se fosse um esforço conjunto, de certeza que já haveria mais frutos. O que também existe é muito pouco interesse, principalmente no Reino Unido. Mas hoje já há o Internacional Booker Prize, e isso é uma iniciativa que tem vindo a dar a conhecer tantos livros de outras partes do mundo. Acho que a tendência é as pessoas virem a interessar-se cada vez mais, mesmo no Reino Unido. Tenho esperança nesse sentido.

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