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"Aquilo que escrevo é indissociável da minha condição enquanto mulher"

Maria Francisca Gama falou com o Notícias ao Minuto sobre o seu novo livro, 'A Cicatriz'.

"Aquilo que escrevo é indissociável da minha condição enquanto mulher"
Notícias ao Minuto

11:05 - 05/03/24 por Marta Amorim

Cultura Literatura

Um jovem casal apaixonado vai de férias para o Rio de Janeiro naquela que seria uma viagem de sonho. Numa das últimas noites das férias, depois de um jantar, regressam ao hotel e na dúvida sobre seguir pela esquerda ou pela direita a decisão, aparentemente insignificante, muda-lhes a vida. 

Um livro curto, que se lê num sopro, mas que precisa de muito mais para o digerir. A autora, que publica o seu quarto livro aos 26 anos, falou com  o Notícias ao Minuto sobre a sua mais recente obra. 

De onde surgiu a inspiração para ‘A Cicatriz’?

Sempre gostei muito da cultura brasileira – devoro a literatura contemporânea, a música e, com a mesma regularidade, como açaí –, pelo que acredito que esta paixão pelo Brasil foi preponderante para a história nascer. No entanto, foi na minha última ida ao Rio de Janeiro que comecei a escrever este romance, imbuída das experiências que estava a viver, e da alegria daqueles com quem me fui cruzando. O livro depois acabou por tomar um rumo diferente, porque o escrevi na perspetiva daqueles que eram os meus receios, e não tendo por base aquilo que lá vivi.

O livro aborda de forma muito dura (e realista) a violência contra as mulheres. O que a motivou a contar esta história que, embora não seja real, é a de muitas mulheres?

Aquilo que escrevo é indissociável da minha condição enquanto mulher. Não sinto as dores das outras como se fossem as minhas – mentiria se dissesse o contrário, por mais empática que seja –, mas aquilo pelo qual tantas mulheres passam afeta-me e mantém-me alerta. Assim que comecei a pesquisar dados estatísticos e me propus a escrever sobre a violência contra as mulheres, percebi que não estava a fabular uma história no Rio de Janeiro, mas a escrever sobre um problema de uma escala maior, transversal a muitos países. Não sei se a literatura tem, na sua essência, o poder de mudar o mundo, mas creio que posso tentar, pelo menos com os meus leitores.  

O livro está a ser muito elogiado no Booktok e no Bookstagram. Como vê a conquista de espaço que a leitura está a ter nas redes sociais?

Os jovens estão a ler mais e isso só pode ser um motivo de alegria. A leitura sempre foi encarada como uma atividade muito individual e, talvez porque as pessoas se sentem mais sozinhas, nas suas vidas atarefadas, agora as redes sociais tornaram-na uma atividade de grupo: as pessoas leem e depois partilham com os outros o que acharam, o que recomendam. Fico contente, claro, e sei que os livros, nos dias que correm, ganham muitos leitores graças a essas redes sociais.

Quando começou a escrever e quando é que decidiu que era o que queria fazer?

Escrevo desde que me lembro. Sempre li muito – incentivada pelos meus pais, que me disponibilizaram coleções inteiras e a Biblioteca Municipal de Leiria aos sábados –, e, talvez por isso, sempre quis ser escritora. Tenho um diário, que encontrei recentemente, escrito aos 12 ou 13 anos, onde já o dizia: “quando crescer quero escrever histórias”. É o que vou fazendo.

Notícias ao Minuto © Suma  

Algum projeto futuro do qual já nos possa falar?

Neste momento estou a escrever uma longa-metragem, mas não posso adiantar pormenores. Gostava, e estou a trabalhar para isso, de escrever ficção – séries, longas – e de escrever livros de géneros distintos do romance. Não tenho pressa – estão sempre a recordar-me de que sou muito nova – mas quero muito trabalhar, ser melhor e entregar histórias melhores. 

Faz parte do Clube de Mulheres Escritoras. O que é que vos une e por que razão este clube é essencial?

Une-nos a certeza de que a literatura escrita por mulheres não é menor do que a literatura escrita por homens. Queremos ser um grupo que incentiva outras mulheres a escreverem e a lutarem pelo seu lugar no mercado literário português. Nenhuma de nós está no Clube para se promover, mas sim para promover a literatura escrita em português por mulheres. Perderemos sentido quando formos a uma livraria e houver o mesmo número de livros de mulheres e de homens portugueses expostos, ou quando assistirmos, doutra forma, à igualdade de oportunidades no mercado literário.

Pode-se dizer que os hábitos de leitura e a conjuntura da área têm mudado muito nos últimos tempos. Concorda? O que gostava de ver diferente?

Concordo que mudaram, mas estamos longe, enquanto país, de estar num lugar do qual nos possamos orgulhar: numa entrevista recente o Pedro Sobral, Presidente da APEL [Associação Portuguesa de Editores e Livreiros], reforçou que Portugal tem os segundos índices de leitura mais baixos da Europa. Gostava que nos debates das legislativas, por exemplo, se tivesse falado da cultura, se pensasse a educação e o papel do livro nela – não podemos ter um país que não tem um plano para alterar estes números. De nada vale prometer cheques-livros, bolsas literárias ou residências pagas, se, depois, não há uma efetiva promoção da leitura, se o IVA dos livros não é reduzido… Precisamos de definir prioridades e a cultura devia ser encarada como um bem essencial, é fulcral para o progresso. Dá vida, e muda vidas.  

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