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Esteatose hepática. A doença 'silenciosa' que pode levar ao cancro

Os sintomas são nulos e é sempre necessária uma análise mais profunda para detetá-la. José Velosa, presidente da Associação para Investigação e Desenvolvimento da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (AIDFM) fala-nos sobre a esteatose hepática, as principais causas e de como evitá-la.

Esteatose hepática. A doença 'silenciosa' que pode levar ao cancro
Notícias ao Minuto

08:35 - 29/11/22 por Adriano Guerreiro

Lifestyle Médico explica

Também conhecida como fígado gordo, a esteatose hepática não apresenta sintomas por si só, o que pode levar ao atraso no diagnóstico. Na pior das hipóteses, esta doença pode evoluir para cancro do fígado ou cirrose.  Nos países ocidentais, onde se inclui Portugal, a prevalência é de cerca 25%. É importante ter atenção ao estilo de vida que leva, mas também ao tipo de alimentação para conseguir evitá-la

“A prevenção da esteatose hepática passa por evitar os alimentos que estão na origem da obesidade. São alimentos nutricionalmente desequilibrados, pois não contêm quantidades significativas dos três nutrientes essenciais: proteína, gordura e carboidrato”, explica ao Lifestyle ao Minuto o médico José Velosa, presidente da Associação para Investigação e Desenvolvimento da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (AIDFM).

O especialista lançou este mês de outubro o livro ‘Conversas com o Fígado - Conhecer, prevenir e cuidar’. Fala sobre esta e outras doenças hepáticas. Revela que mais de 20% da população portuguesa tem esta patologia.

Leia Também: Maioria das pessoas com diabetes também tem esta doença

O médico explica melhor em que consiste esta doença e como pode evitá-la. Acima de tudo apela a um cuidado geral e a análises mais recorrentes. "As pessoas têm a noção de que possuir um fígado saudável é sinónimo de bem-estar. Mas nem sempre estão cientes das múltiplas funções do fígado."

Notícias ao Minuto Lançou recentemente um livro sobre o fígado© José Velosa 

“[As pessoas] talvez não saibam que sempre que o fígado deixa de funcionar corretamente, seja por hepatite fulminante ou por cirrose, correm perigo de vida.”

O que é a esteatose hepática?

A acumulação de gordura nas células do fígado é um fenómeno comum a muitas afeções hepáticas, quer se trate de infeções, doenças metabólicas ou tóxicas. Contudo, a designação de fígado gordo não alcoólico (FGNA) corresponde a uma entidade clínica específica em que a gordura (triglicéridos) se deposita nas células hepáticas sob a forma de grandes vacúolos, em tal quantidade que mais de 5% das células têm gordura, como se pode confirmar por a biopsia do fígado ou por um exame de imagem. Pressupõe, ainda, a exclusão de consumo de álcool, pois este tóxico causa um padrão hepático em tudo semelhante.
O contexto clínico é muito importante para o diagnóstico dado que normalmente os indivíduos afetados por FGNA [fígado gordo não alcoólico] são obesos ou diabéticos. Por outro lado, é comum o FGNA ocorrer na chamada síndrome metabólica: perímetro da cintura igual ou superior a 102 centímetros no homem e igual ou superior a 88 centímetros na mulher, pressão arterial superior a 130/85 mmHg; glicemia em jejum superior a 100 mg/dL,  triglicéridos superiores a 150 mg/dL, e colesterol HDL inferior a 40 mg/dL.

Mais do que a idade, são as alterações hormonais que condicionam a incidência da doençaNo mundo, e em Portugal, qual é a prevalência da doença?

Em termos globais, a prevalência de FGNA é de cerca de 20%, ou seja, um quinto da população tem esteatose hepática. A verdadeira prevalência é desconhecida porque depende do método usado para detetar o excesso de gordura no fígado. Nos países ocidentais, a prevalência é de cerca 25%, pelo que, na ausência de estatísticas fiáveis, podemos admitir que será essa a prevalência para a população portuguesa. Contudo, pode atingir mais de 50% nas populações de alto risco, como são os doentes com a síndrome metabólica.

Quais são as principais causas?

As condições mais frequentemente associadas ao FGNA são a obesidade, diabetes tipo 2, dislipidemia (alteração dos níveis de colesterol e triglicéridos no sangue), síndrome do ovário poliquístico e os medicamentos. Convém ter presente que cerca de 20% dos casos de FGNA ocorre em indivíduos com peso corporal normal.
Na ausência de uma biopsia hepática, o que acontece na generalidade dos casos, o diagnóstico de FGNA é um diagnóstico de exclusão, isto é, o médico elimina outras doenças do fígado que podem apresentar um padrão analítico semelhante. Um especialista experiente raramente tem dificuldade em estabelecer o diagnóstico. 

Há diferenças entre sexo ou idades?

O papel do género e da idade na incidência de FGNA são controversos, contudo, parece que o FGNA afeta mais frequentemente os homens, dado que as mulheres pré-menopausa estão protegidas pelas hormonas femininas, da mesma maneira que estão da síndrome metabólica. Por outro lado, há a sugestão que a menarca [primeira menstruação] precoce pode conferir um risco acrescido de FGNA na vida adulta, enquanto a senescência hormonal (falta de estrogénios) parece, também, aumentar o risco de esteatose. Estes aspetos sugerem que, mais do que a idade, são as alterações hormonais que condicionam a incidência da doença. Outros fatores, sobretudo de natureza sociocultural, tais como dieta, exercício e qualidade de vida, são igualmente importantes nas diferenças de género. Apesar da incidência de FGNA ser mais prevalente no homem, o risco parece declinar a partir do 50 e 60 anos, em contraciclo com a mulher, que aumenta depois da menopausa.
A incidência de FGNA tem aumentado nas crianças, em paralelo com a epidemia da obesidade infantil. Um estudo recente revelou uma prevalência 1% nas crianças com menos de 4 anos, subindo até os 17% na adolescência. 

A partir de que idade é recomendável algum tipo de vigilância?

Não existe uma idade específica para rastrear o FGNA, mas deve ser pesquisado sempre que ocorrer excesso de peso, diabetes ou dislipidemia. É tratável, mas exige do doente um elevado grau de resiliência e perseverança

Quais são os principais sinais de alerta a ter em conta?

Tanto o FGNA como a esteato-hepatite não alcoólica (EHNA), isto é, a esteatose associada a inflamação no fígado, são assintomáticas. Na prática clínica, é o laboratório que chama a atenção para essas duas entidades, quer através da ecografia, que deteta gordura no fígado, quer através da elevação das transaminases que alerta para a EHNA, em qualquer dos casos o diagnóstico pode pecar por defeito.

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Quais são os principais riscos para a saúde?

Se o FGNA estiver englobado na síndrome metabólica os riscos para a saúde advêm, em primeiro lugar, das complicações cardiovasculares: infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral.

 E como pode evoluir esta doença?

As complicações do fígado são, sobretudo, o desenvolvimento de cancro do fígado (carcinoma hepatocelular) e cirrose. Uma das particularidades do FGNA, quando associado à inflamação (EHNA), tem a ver com o facto do cancro poder surgir na ausência de cirrose. 

É uma doença tratável? Que métodos existem?

Podemos dizer que sim, que é tratável, mas exige do doente um elevado grau de resiliência e perseverança, porque o tratamento com efeito comprovado se baseia na dieta e no exercício físico. Infelizmente, não estão ainda disponíveis medicamentos com capacidade para remover a fibrose (cicatriz) do fígado. Portanto, recuperar o peso normal (IMC entre 20 e 25) e/ou controlar o nível dos triglicéridos (se estes forem o agente etiológico) é uma condição essencial para se obter o sucesso terapêutico. A dieta pressupõe reduzir diariamente 750 calorias às necessidades energéticas estimadas e, no que diz respeito ao exercício, andar, em passo estugado, cerca de 200 minutos por semana.

Mas existem alguns fármacos que podem atenuá-la?

O tratamento da diabetes é obrigatório e podem ser usados fármacos que atuam na redução do peso. A cirurgia bariátrica, em doentes com obesidade mórbida, pode ser uma solução eficaz para reduzir o peso corporal e fazer regredir as alterações analíticas e, pensa-se que também, a fibrose. Em casos extremos – cirrose descompensada ou cancro – resta apenas a transplantação hepática.

É possível viver com esta doença?

Sem dúvida que é possível usufruir de qualidade de vida sendo portador de FGNA e até de EHNA, porque são doenças assintomáticas. Já o mesmo não acontece quando o fígado gordo ocorre no contexto da diabetes ou progrediu para uma fase avançada com complicações da cirrose.

Podem existir pessoas que tenham a doença sem saber?

Como se trata de uma doença que cursa sem sintomas, como de resto acontece com a maioria das doenças do fígado, o conhecimento da doença ocorre, habitualmente, após a realização de análises do fígado ou de ecografia hepática.

Que tipo de alimentos que ingerimos podem estar na origem desta doença?

Os alimentos muito calóricos, como os hidratos de carbono, são os que mais contribuem para deposição de gordura no fígado.

E como podemos preveni-la através da alimentação?

A prevenção da esteatose hepática passa por evitar os alimentos que estão na origem da obesidade. Este tipo de alimentos, que podem ser incluídos na designada 'comida de plástico', onde pontifica a famigerada ‘fast food’, são muito populares na atualidade, especialmente nas camadas mais jovens. São alimentos nutricionalmente desequilibrados, pois não contêm quantidades significativas dos três nutrientes essenciais: proteína, gordura e carboidrato. Estes alimentos, muitos deles industrializados, caracterizam-se pela abundância de gordura e açúcar: carnes com elevado conteúdo de gorduras e doces ricos em gordura e açúcar, sendo este muitas vezes à base de frutose. Proporcionam as chamadas 'calorias vazias', sem préstimo para o organismo. 

[As pessoas] nem sempre estão cientes das múltiplas funções do fígado e do quão grave é para a sua saúde a perda dessas funções

Existem outras formas de a prevenir, que não seja apenas na alimentação? O exercício físico, por exemplo, pode ser um aliado?

Sim, o exercício físico e a consequente perda de peso são uma componente essencial do tratamento. A dieta e o exercício físico podem não ser suficientes para reverter as lesões crónicas já estabelecidas ou para evitar o seu desenvolvimento em determinadas síndromes, congénitas ou adquiridas.

Como é que pode ser feito o diagnóstico?

O método de diagnóstico mais fiável para detetar a gordura no fígado e, em especial, a esteato-hepatite, é a biopsia hepática. É o método de eleição para o diagnóstico, que permite asseverar a presença de EHNA, mas como se trata de um processo invasivo, com risco de complicações, é quase sempre evitado.

Entende que esta e outras doenças hepáticas são um pouco negligenciadas?

Pode-se dizer que sim, porque sendo assintomáticas durante longos anos, as pessoas não procuram o médico. Só não são completamente ignoradas porque a ecografia abdominal é um exame frequente e as análises hepáticas são hoje uma rotina.

Considera que, por vezes, o fígado não é visto como um órgão fundamental?

Penso que, no geral, as pessoas têm a noção de que possuir um fígado saudável é sinónimo de bem-estar. Mas nem sempre estão cientes das múltiplas funções do fígado e do quão grave é para a sua saúde a perda dessas funções. Por exemplo, talvez não saibam que sempre que o fígado deixa de funcionar corretamente, seja por hepatite fulminante ou por cirrose, correm perigo de vida.

De quanto em quanto tempo é que deve ser feita uma análise ao fígado?

Na ausência de sintomas sugestivos de doença hepática, a determinação das transaminases – a análise de rastreio recomendada – deve ser realizada conjuntamente com as análises de rotina. É praticamente a única maneira de se detetar uma doença hepática silenciosa. Isto é tanto mais importante quanto se sabe que o FGNA e a EHNA podem ocorrer em pessoas com peso corporal normal e que as lesões tóxicas induzidas por medicamentos e ‘produtos naturais’ passariam, doutra maneira, insuspeitadas. Algumas análises impõem-se pela sua pertinência em determinados contextos sociais. Por exemplo: pesquisa do vírus da hepatite B num migrante da Ásia ou no agregado familiar de um portador crónico desse vírus, ou a pesquisa do vírus da hepatite C num indivíduo que tenha recebido transfusões de sangue antes de 1992 ou, então, num indivíduo consumidor de drogas injetáveis. 

Leia Também: Fígado. O sintoma comum que pode indicar doenças hepáticas

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