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Museu de Arte Antiga mostra troca de jogos entre Oriente e Ocidente

Uma exposição dedicada ao jogo e à sua importância nas relações estabelecidas entre a Europa e o Oriente, a partir dos anos 1500, estará patente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, a partir de 15 de junho.

Museu de Arte Antiga mostra troca de jogos entre Oriente e Ocidente
Notícias ao Minuto

23:36 - 09/06/22 por Lusa

Cultura Museu de Arte Antiga

A exposição "Jogos Cruzados. Viagens entre Oriente e Ocidente", que estará patente até 25 de setembro, tem por base uma das maiores coleções privadas do mundo de tabuleiros de jogos e é comissariada por Ulrich Schädler, diretor do Musée Suisse du Jeu, e Thomas Thomsen.

Dividida em oito núcleos, esta mostra aborda a migração e troca de jogos entre Oriente e Ocidente, debruçando-se sobre este tipo de produção asiática para o mercado europeu, levada a cabo a partir do século XVI até meados do século XIX, bem como sobre a presença de jogos ocidentais na Ásia.

De acordo com a organização, esta será "uma oportunidade única para compreender como os jogos passaram a constituir um espelho da História Mundial, mas, também, um reflexo das relações estabelecidas entre a Europa e o Oriente a partir de quinhentos".

Numa visita guiada à imprensa, o subdiretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), Anísio Franco, destacou a importância do jogo ao longo da história como fator de união entre os povos, e o papel fulcral que os portugueses desempenharam durante os descobrimentos.

Ulrich Schädler afirmou que a descoberta das rotas comerciais no oriente pelos portugueses está grandemente associada às especiarias, mas "raramente se pensa nos jogos".

No século XVI, as rotas comerciais regulares para a Índia, China e Japão estabelecidas, não só por Portugal, mas por outras potencia europeias como Países Baixos e Grã-Bretanha originaram um comércio intenso com aquelas regiões, do qual os jogos fizeram parte.

"Foi um período na Europa em que os jogos eram uma das mais importantes atividades sociais, não só na aristocracia, mas também entre a classe média, que descobriu os jogos como passatempo favorito", acrescentou o comissário da exposição.

Os jogos foram desenvolvidos sobretudo nos séculos XVII e XVIII. As pessoas jogavam todas as tardes, sobretudo cartas, e havia um conjunto de regras que toda a gente tinha de saber, se queria fazer parte da sociedade, acrescentou.

Reflexo desta rota dos jogos é o facto de na Ásia se produzirem jogos para o mercado europeu, de os dominós, que se tornaram famosos na Europa, terem sido criados na China, e de o jogo de cartas ter sido introduzido no Japão pelos portugueses, exemplificou.

O primeiro núcleo da exposição chama-se, precisamente, "Jogos Cruzados" e nele se encontram dois tabuleiros de xadrez, um feito na China para o mercado europeu (na Ásia as peças dos jogos não são figurativas) com várias personagens representadas, entre elas Napoleão (como peça do rei), sinal de que "claramente tinha sido feito para a Europa".

Nesta primeira sala há também um expositor com livros de regras do jogo de cartas "Whist", que "toda a gente tinha de saber", algumas mesas de jogo de época e algumas pinturas representando cenas de jogo.

O segundo núcleo "Jogos de Cartas. Viagens ao Oriente e Ocidente", além de vários exemplares deste jogo, que chegou à Europa por via da China, mas que se desenvolveu com naipes "latinos" por influência portuguesa, apresenta também acessórios para jogos de cartas, como caixas de laca chinesas, fichas de jogo em madrepérola, ornamentadas com gravuras de decorações florais e paisagens chinesas ou tabuleiros trabalhados.

A sala seguinte é dedicada ao "Pachisi", tradicional jogo indiano, de que se mostram alguns exemplares que evidenciam a sua importância na época, constituídos por peões e dados de jade, marfim ou prata decorados com pedras preciosas e "tabuleiros" de seda bordada a prata e ouro.

Estes jogos não eram produzidos para exportação, mas durante o período colonial britânico o Pachisi viria a ganhar popularidade mundial e, através de um oficial inglês, ganharia uma versão simplificada, o "Ludo", que se tornou um dos jogos de tabuleiro mais populares de sempre.

"O ludo teve tanto sucesso que se espalhou pelos Estados Unidos, pela Europa e voltou à Índia, onde é hoje mais famoso [do que original] e muito jogado entre crianças", explicou Ulrich Schädler, sublinhando que hoje "pouca gente sabe que é um jogo indiano".

O quarto núcleo intitula-se "Go, Tangram, Quebra-cabeças e Dominó" e é dedicado a estes jogos do leste asiático, alguns dos quais com mais dificuldade de introdução na cultura de jogo ocidental, como é o caso do xadrez chinês (xianqi) e do Weiqi (Go), que já eram conhecidos pelos europeus desde o século XVI mas que nunca foram adotados.

Sendo estes jogos de inteligência e não jogos de sorte, especula-se que a falta de sucesso no ocidente se prenda com um tipo de mecanismo mental mais utilizado no oriente do que no ocidente.

Alguns exemplares destes jogos estão expostos nesta sala, juntamente com outros que tiveram a mesma origem mas conheceram grande sucesso no ocidente, como, em primeiro lugar, o dominó, e o tangram, aqui representado através de exemplares fabricados em marfim e gravados em relevo com cenas chinesas.

O famoso "Jogo do Ganso", ou "Jogo da Glória", criado em Itália, ocupa um grande expositor central no quinto núcleo da exposição, numa versão indiana feita para o mercado europeu.

A sala seguinte é dedicada ao Gamão, um jogo que tem origem no 3.º milénio a.C. em Bizâncio e na Pérsia e que chegou à China e ao Japão no século VII.

Aqui se encontram vários exemplares de tabuleiros de gamão luxuosos, um deles todo em madrepérola, acompanhados por uma versão 'fac-simile' do "Libro de Los juegos" de Afonso X de Espanha, que explica as regras do jogo num determinado padrão de tabuleiro, que terá sido produzido principalmente para a Península Ibérica.

A última parte da exposição é dedicada ao xadrez, jogo criado no ano 500, entre a Pérsia e a Índia, e introduzido no sul da Europa pelos Árabes, com uma primeira sala onde se mostram vários exemplares, desde indianos, com peças abstratas, que "não eram feitos para exportar, porque os europeus queriam bonitas peças figurativas", segundo o curador, até pequenos jogos de xadrez de viagem, nomeadamente um que se guardava dentro de uma bengala.

Aqui encontra-se também um exemplar com imagens da antiguidade clássica, feito no ocidente, mas ao gosto japonês, e outro feito na China, ao gosto europeu.

Segue-se um "anexo" a esta sala de xadrez, intitulado "A Guerra dos Tronos", que "mostra o xadrez pelo mundo".

"A inovação que o xadrez introduziu no mundo dos jogos foi a criação de peças figurativas, seis peças diferentes com diferentes formas de andar no tabuleiro", disse Ulrich Schädler.

Nesta sala encontram-se vários tabuleiros de xadrez, que mostram a versatilidade do jogo em termos de criação de figuras, com jogos cujas peças representam filósofos, ou troianos contra gregos, ratos e até insetos.

Ainda hoje, o 'merchandising' cresce à volta do xadrez, sublinhou o curador, lembrando a existência, por exemplo, de jogos com as figuras dos "Simpsons" ou das personagens do "Star Wars".

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