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Neto desenhou mural de Simone de Oliveira. "Conviver com a minha avó"

Além de neto de uma das maiores figuras da música portuguesa, André Mano foi a nova aposta da iniciativa 'Galeria dos Inesquecíveis', da Junta de Freguesia de Alvalade, para pintar a sua avó, Simone de Oliveira. O Notícias ao Minuto esteve à conversa com o artista sobre este seu primeiro grande trabalho a solo.

Neto desenhou mural de Simone de Oliveira. "Conviver com a minha avó"

Estivemos a conversar com André Mano, o arquiteto e graffiter que pintou o novo mural de Simone de Oliveira na fachada do prédio n.º 1 da Rua António Patrício, em Alvalade. É que é, também, um dos netos da cantora e atriz.

Este não é o primeiro trabalho de André, sendo já um artista conceituado no que diz respeito ao grafitti associado à arquitetura, que é a sua formação base. Desta vez, o trabalho foi um convite da Junta de Freguesia de Alvalade, no contexto da iniciativa anunciada no Dia Mundial do Teatro (27 de março), com o nome 'Galeria dos Inesquecíveis'.

Com uma carreira já longa que podemos acompanhar nas redes sociais, André, de 32 anos, falou com o Notícias ao Minuto sobre este trabalho, que reflete a relação pessoal que tem com a avó Simone de Oliveira, uma das maiores figuras da música portuguesa. No dia em que falámos, terça-feira dia 26 de abril, estava a terminar as últimas pinceladas no seu trabalho, que será apresentado no dia 9 de maio no Teatro Maria Matos, na mesma freguesia de Lisboa.

Apesar de esta nova pintura traduzir a relação entre a avó e o neto, o artista não esquece os amigos e as suas origens na obra. São parte desta homenagem temas como o espírito do hip-hop, as construções de cidades que gosta de pintar e, sobretudo, as palavras, que nos contou ser a sua principal característica nesta arte.

Depois deste projeto, que considera “a cereja no topo do bolo”, ainda não sabe o que se segue e diz-nos que “não precisava de fazer mais nada do que pintar a avó em Alvalade”, esperando um dia poder “ter uma carreira que seja tão rica como a dela foi”. 

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A pintura em si demorou cerca de duas semanas a ser concluída e foram usadas 300 latas de tinta. Quem passar pela Avenida de Roma, no centro de Lisboa, de onde se observa melhor a pintura, vai poder ver o André a “conviver” com a avó no mural. Nesta entrevista, pode conhecer um pouco melhor este artista lisboeta que pintou a avó.

Antes de mais nada, fale-me um pouco de si. O que o trouxe a este momento em que pinta esta obra de arte a convite da Junta de Freguesia de Alvalade?

Eu desenho desde que sou criança, obviamente. Eu tenho formação como arquiteto, estudei em Lisboa e em São Paulo. Mais tarde fui para o Moçambique e depois para o Luxemburgo, e foi entre estes momentos vividos nos dois países que eu comecei a pintar mais assiduamente e me comecei a dedicar mais ao graffiti, sendo que grande parte daquilo que eu faço hoje em dia são letras.

O meu grande amor, a minha grande paixão são letras, é o graffiti puro e duro! Passados alguns anos só a pintar letras eu comecei a desenhar as cidades que faço hoje em dia. Estas cidades são um bocado o culminar das minhas experiências de vida. Porquê? Porque obviamente quem olha para elas sabe que eu sou arquiteto e consegue estabelecer um paralelo entre aquilo que eu estudei e aquilo que eu desenho hoje em dia, sendo que há uma particularidade por trás destas cidades. Cada um destes blocos que as pessoas veem, na verdade, são letras. Ou seja, são letras que eu vou empilhando umas sobre as outras e cada uma destas cidades tem uma frase escrita, e geralmente são rimas dos meus rappers portugueses preferidos.

Cidades com mensagens? Isso é visível a olho nu?

Pois, é difícil. Mas se forem ao meu Instagram e olharem para as cidades que desenho, estão lá os desenhos das cidades no início, onde se veem perfeitamente as letras. Mas a grande base do meu trabalho são as palavras. Eu sou como a minha avó, talvez, eu gosto muito de palavras e gosto muito de ir à origem etimológica das palavras para saber o que estou a dizer, quais os conceitos que eu estou a usar. E a base do meu trabalho mais uma vez é a língua portuguesa, são as palavras, é a comunicação.

O que é que o seu trabalho de graffiter tem a ver com a música?

Eu, muitas vezes, gostava de saber escrever o que muitos dos meus rappers preferidos escrevem, ou seja, existe uma relação muito forte entre o meu trabalho e o hip-hop, que é a expressão musical com a qual eu me identifico, apesar de achar que a melhor banda do mundo é e sempre será Led Zeppelin.

Em que é que o hip-hop está ligado a Simone de Oliveira?

Não tem nada a ver com ela. Absolutamente nada. Ela é a minha avó, mas mais uma vez por trás desta peça, na coluna da esquerda, está escrito 'Simone', e à direita dela 'Sim Sou Eu', que é o nome do último espetáculo de carreira dela. Portanto esse conceito que eu utilizo de escrever sempre alguma coisa com as minhas cidades está presente, não o hip-hop. Ou melhor, o hip-hop está presente no canto inferior direito da parede, onde nos outdoors que desenho no topo dos telhados ou dos edifícios eu escrevo palavras que as pessoas não percebem. Essas palavras são, especificamente, Observ, Eko e Mulog, que são os meus amigos sem os quais eu nunca teria conseguido levar este mural adiante, porque uns me emprestaram material e outros me aconselharam de diversas formas, ou seja, isso é o hip-hop. Mesmo com o facto de isto ser um mural da minha avó, os meus amigos estão presentes e isso faz bastante parte do hip-hop a questão de trazer quem nos é próximo conosco. 

Eu acho que deveria ser sempre assim. Para mim é apenas natural, mas se calhar esse é apenas o único paralelo que existe entre este mural, dedicado à Simone de Oliveira (minha avó), e o hip-hop.

Qual é a sua relação específica com Alvalade? Com Lisboa? Porquê este lugar?

Eu cresci em Alvalade e a minha avó também. Eu cresci na casa onde ela cresceu. E por isso não poderia estar mais orgulhoso de pintar a minha avó no bairro onde ambos crescemos. É mesmo a cereja no topo do bolo!

Na pintura estão várias palavras. Qual a razão da escolha de cada uma delas?

Estas palavras que eu escolhi eu não queria que fossem palavras diretas. Por exemplo, eu escrevo, 'Desfolhada' e 'Sol de Inverno', que são dois dos temas mais icónicos da minha avó, mas as palavras escolhidas não vêm do facto de representarem coisas icónicas na carreira dela, mas sim coisas que eu associo à relação com ela. 

Ou seja, o 'Sol de Inverno' é o meu tema favorito dela e todas as palavras que eu utilizo aqui têm alguma coisa a ver comigo e com a relação que eu tenho com ela.

A pintura representa mais uma relação pessoal do que a relação e admiração do público para com a sua avó?

Sim, sim, sem dúvida! Por exemplo, eu escrevo num dos outdoors do mural “Um cigarrinho?” e noutro “Com duas pedras de gelo”, ou seja, são expressões que só quem conhece a minha avó ao nível pessoal é que sabe que ela, de vez em quando, ainda gosta de beber um whisky e é sempre com duas pedras de gelo. Esta é, aliás, uma expressão que ela utiliza com alguma regularidade, e isto vem mesmo da minha relação pessoal com ela.

Outro exemplo: eu escrevi num dos painéis Varela Silva. Podia ter escrito outro nome qualquer, mas de facto o Varela Silva, apesar de não ser o meu avô, é a pessoa à qual eu chamo avô, ou seja, todas estas palavras têm a ver comigo, de facto.

Então o mural não é apenas uma homenagem, é também o espelho da vossa relação pessoal de avó e neto?

Sim. Este mural sou eu a conviver com a minha avó ao mesmo tempo. É ela ao centro e depois eu à volta dela, no fundo é isso.

E agora mais sobre si. Já tinha participado na pintura de um outro mural no Bairro Padre Cruz, em Carnide. O que é que vamos ver mais vindo de si? Mais murais espalhados na cidade de Lisboa? Ou este é o único?

Eu objetivamente se não pintasse mais nada na minha vida dava a minha missão como concluída e com bastante agrado. Ficava muito contente, acho que não precisava de fazer mais nada do que pintar a minha avó em Alvalade. Mas como é óbvio gostaria de continuar a pintar, a pintar e a criar. O meu objetivo não é objetivamente ser pintor, mas uma vez que tenho a formação como arquiteto e interesse em várias áreas, gostava um dia me tornar um criador multidisciplinar.

Qual é a importância de pintar um mural nas ruas de Lisboa para quem o vê? Qual é que acha que é a opinião das pessoas sobre pinturas na parede espalhadas pela cidade?

Essa é uma questão complicada e é uma discussão profunda e eu prefiro não responder diretamente à questão. Eu digo apenas que estou bastante contente que estejam a dar oportunidades aos criadores de exporem o seu trabalho, mas fico-me por esta resposta politicamente correta.

E quanto ao processo de elaboração desta obra? Foram muitas horas? Muitos dias? Muita tinta? Muito esforço? Muito trabalho? Muitos dias de pensamento?

Foram cerca de 300 latas, duas semanas, fora o trabalho todo que existe de pré-produção, porque eu não chego simplesmente à parede e começo a pintar, obviamente.

Houve um trabalho feito antes num estúdio de fotografia para fotografar a minha avó. Depois existe o trabalho da conceção das cidades, depois cruzar a fotografia com os blocos que eu vou desenhando. Ou seja, antes de chegar à parede existe muito trabalho e grande parte do trabalho foi feito antes de começar a pintar a parede, apesar de não parecer.

De facto, este foi um trabalho que incluiu um grande aparato na rua, teve uma plataforma de elevação para poder pintar toda a extensão da parede, interessante a parte mais complicada ser a anterior a esta fase.

A questão de pintar tem outros problemas associados, mas em termos de criação e conceção isso foi tudo feito antes. Objetivamente na parede, quando eu chego à parede, já não há assim tantas escolhas ou tantas decisões criativas a serem feitas, talvez mais em termos de tons de cores a escolher.

Fez muitas alterações durante o processo artístico? Ou seguiu sempre a mesma linha?

Não houve assim muitas alterações. Eu quando começo a desenhar geralmente sei em que direção estou a ir. Ou seja, nunca começo a trabalhar sem um conceito por detrás e sem saber em que direção estou a ir. Obviamente que existem sempre acertos, linhas a polir e formas que se podem tornar mais esbeltas, mas existe sempre uma ideia pré-concebida na minha cabeça daquilo que eu estou a fazer.

E qual foi a reação da sua avó quando soube que a ia pintar? Já levou a sua avó a ver o mural?

Não, ainda não a trouxe. Eu gostava de a trazer cá quando o mural estivesse totalmente concluído. Ele vai ficar concluído hoje [terça-feira, dia 26 de abril] e nos próximos dias eu irei trazê-la cá. Mas acho que ela está bastante contente e orgulhosa.

Vai haver alguma inauguração oficial do mural?

Dia 9 de maio, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, com um vídeo.

A nível mais pessoal, como foi crescer com esta grande figura na família? Em que é que a sua avó o inspira visto que ambos estão ligados às artes?

A resposta a essa pergunta pode parecer um bocado parva, mas a verdade é que na nossa família nós lidamos muito pouco com a Simone de Oliveira, eu lido com a minha avó e o meu pai lida com a mãe dele. Portanto, a Simone é uma pessoa que não entra muito em nossa casa. Nós queremos é saber se está tudo bem com os ossos dela, se foi às consultas, se está bem. E por isso eu nunca pensei objetivamente na minha avó como influência direta, porque aquilo que ela faz não tem nada a ver com aquilo que eu faço. Mas obviamente que eu tenho um enorme orgulho naquilo que ela construiu ao longo de 75 anos, e sobretudo fico surpreendido com a longevidade da carreira dela e com o facto de ela ser tão transversal a tantas gerações. 

Não percebo como é que pessoas de todas as idades, da minha e mais novos, sabem quem ela é ou da importância que ela representa e isso é sem dúvida uma enorme fonte de orgulho e um dia gostaria de ter uma carreira que seja tão rica como a dela foi. Se isso acontecesse, significaria que trabalhei bastante toda a minha vida, mantendo sempre os níveis de integridade para comigo e para com o meu trabalho, para com as pessoas à minha volta e sem nunca baixar os braços.

E levou esta realidade para o mural?

Exatamente! Porque eu objetivamente nunca acompanhei a carreira dela, porque sou neto dela, sou muito mais novo do que ela. Eu estive presente na vida dela em alguns trabalhos que ela foi desenvolvendo, algumas coisas importantes, musicais que fez, espetáculos de carreira, todas essas coisas, mas sim, levei tudo isto para o mural. Por exemplo, uma coisa que eu costumo dizer muitas vezes é que ela faz os melhores pastéis de bacalhau do mundo e isso é que é a minha relação com ela, e não propriamente quantos espetáculos é que fez, em quantas novelas participou, etc.

O que lhe dizem os moradores de Alvalade deste mural?

Eu estou bastante contente com o feedback que tenho tido dos moradores, que são quem é mais importante, porque são as pessoas mais afetadas pelo mural, e nesse sentido estou muito contente. Não podia estar mais orgulhoso deste trabalho, que é uma coisa que geralmente não acontece.

Não acontece?

Eu sou muito obcecado com o meu próprio trabalho, com aquilo que quero fazer, e geralmente quando acabo um trabalho já estou a pensar em outro.

Vai ter agora algum projeto futuro?

Os projetos futuros ficam agora na caixa e serão divulgados a seu tempo.

Gostaria de deixar algum agradecimento especial a alguém importante que o tenha ajudado neste trabalho?

Sim. Em primeiro lugar, aos meus amigos cujos nomes também estão na parede, Eko, Mulog e Observ (nomes artísticos), e em especial à Trajetória Studio, que é a equipa de vídeo que me está a acompanhar em todo este processo e que está a fazer o vídeo que será apresentado no dia 9 de maio no Teatro Maria Matos, a data de inauguração da parede.

Leia Também: Arquiteto e graffiter André Mano homenageia a avó Simone de Oliveira

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