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"Com o tempo, apercebi-me de que a impertinência muitas vezes é boa"

'Porque o meu coração é piroso, mas' é o mote da nova exposição da ilustradora, que, durante três dias, reveste o Artroom com a sua pele.

"Com o tempo, apercebi-me de que a impertinência muitas vezes é boa"

De marcador em punho nas mãos manchadas de tinta, a ilustradora Clara Não (Clara Silva no cartão de cidadão, como diz), deixou-nos espreitar os bastidores da sua nova exposição, 'Porque o meu coração é piroso, mas'.

Com estreia marcada para hoje, dia 25 de novembro, a artista de 28 anos mostra que o empoderamento pode surgir de um coração partido, naquela que é a sua exposição mais complicada até à data. Durante três dias, o Artroom, em Lisboa, reveste-se da pele de Clara Não, numa apresentação nua e crua dos sentimentos e de todas as suas camadas – como o feminismo, a sexualidade, e o dramatismo.

Com o humor e irreverência a que já nos habituou nas suas ilustrações, a jovem portuense abriu as portas ao Notícias ao Minuto, desvendando não só os segredos da exposição 'open studio', mas também do seu percurso enquanto artista e ativista.

Explorar os sentimentos pode ser uma maneira de empoderamento e de os tornar teus

Dramatismo, humor, sexualidade e feminismo foram algumas das palavras que usou para descrever a sua nova exposição, ‘Porque o meu coração é piroso, mas’. Com esta apresentação de peso, o que é que podemos esperar deste novo trabalho?

Já tinha esta ideia há alguns anos, na verdade; como andamos sempre com os 'sentimentos à flor da pele', de uma maneira boa, – acho que toda a gente deve aceitar os sentimentos que tem e eu queria 'mostrar a minha pele' nessas camadas todas, sexualidade, feminismo. Explorar os sentimentos pode ser uma maneira de empoderamento e de os tornar teus. Por exemplo, um coração partido: podes tomá-lo como teu, porque a dor é tua, o sentimento é teu, então pode ser um veículo de empoderamento para te explorares a ti mesma. Foi com esse conceito que nasceu a exposição. 

Tendo em conta que eu tinha na cabeça aquela expressão dos 'sentimentos à flor da pele', a ideia era mesmo conseguir que as pessoas entrassem nos meus sentimentos, criar uma atmosfera de conforto, que não fosse aquela positividade tóxica gratuita de 'ah, vai ficar tudo bem'; quer dizer, às vezes fica só ok durante um tempo, e está tudo bem. É uma exploração dos sentimentos, sem filtros e sem medos, com a minha pele. Por a escrita ter um grande peso neste projeto, também vou ter pequenas 'performances' de escrita todos os dias, durante meia hora, 'na minha pele'.

Mencionou que esta é a sua exposição mais complicada até à data. É nesse sentido que surge a escrita e todas essas abordagens?

Sim, porque tenho este tecido, que chega ao chão [mostra o tecido rabiscado]. Tem que ver com a criação da exposição, para que ela fosse visitável de forma confortável, por causa destas instalações e das serigrafias, o que fez com que se tornasse mais complicado, como os sentimentos, não é? 

Notícias ao Minuto "Com um Vilacetinho na mão e um sentimento no coração", Clara Não faz performances de escrita durante os três dias da exposição.© Clara Não  

Disse que é algo que espera há muito tempo, está nervosa?

Espero que corra bem, que as pessoas gostem e que se sintam entusiasmadas. Claro que estou um bocadinho ansiosa, mas nada de especial; quero é ter tudo prontinho como eu quero. Gosto de ter tudo exatamente como pensei. Há coisas que ficaram tal e qual como queria, outras que percebi que funcionavam melhor de outra maneira, mas estou confiante.

Se tivesse medo nunca teria escrito o que escrevo, ficava quietinha no meu canto, só a fazer 'likes' e a partilhar coisas não tão políticas. Se tivesse medo não teria o trabalho que tenho

É daquelas pessoas que só fica contente quando vê a sua visão transposta no papel ou na realidade?

Há um tempo ficava mesmo muito irritada se as coisas não fossem tal e qual como idealizei. Agora, estou mais aberta a possibilidades e acabo por me adaptar mais facilmente. Tenho essa noção de que, às vezes, não é possível fazer as coisas como idealizamos, mas, se estivermos abertos e abertas à possibilidade de sermos mais adaptáveis, até podem surgir coisas mais giras. Por exemplo, pensei fazer isto com pincel e tinta, mas não era praticável; acabei por escolher uns marcadores super grossos e gosto mais do resultado.

O seu livro, 'Miga, esquece lá isso! — Como transformar problemas em risadas de amor-próprio', também aborda os devaneios do coração. É este um tema pelo qual tem particular interesse?

Sim, porque toda a gente passa por isso de uma forma ou outra. Também é engraçado perceberes, ao longo da tua vida, as diferentes maneiras com que lidas com os sentimentos, como evoluis e como, às vezes, é nesses conflitos emocionais que descobres mais sobre o queres, quem és e quem te acrescenta ou anula. Acaba sempre por estar presente na minha vida, mas claro que a determinadas alturas dou mais importância do que noutras – às vezes são fases, outras dias, outras horas.

Nas suas ilustrações e textos aborda também temas que ainda são tabu na sociedade, sem qualquer pudor. Não tem medo de ser mal entendida, principalmente estando no universo das redes sociais, em que tudo pode ser facilmente distorcido?

Não diria que é um medo, diria que é uma possibilidade. Sei que há possibilidade de acontecer, mas não tenho medo. Se tivesse medo nunca teria escrito o que escrevo, ficava quietinha no meu canto, só a fazer 'likes' e a partilhar coisas não tão políticas. Se tivesse medo não teria o trabalho que tenho. Já aconteceu ser mal entendida, mas tento dar a volta; se falar de um assunto importante, mas, em vez de gerar discussão, gerar insultos, não chegamos a lado nenhum.

Sinto responsabilidade, porque chego a muita gente. Há muita gente que chega a muita gente e não é ativista (...) Sinto mesmo que criei uma espécie de comunidade em que as pessoas se podem expressar

Como é que lida com as críticas ou com os 'haters'?

Honestamente, é 'cagar de alto e andar' [risos]. Quando as pessoas são mesmo muito insultuosas e não estão dispostas a ouvir-te, é um desperdício de tempo e de energia tentares batalhar. Tento mudar o que posso mudar e aceitar que algumas pessoas não são em condições, mas que as coisas podem mudar, de alguma forma. É impossível uma pessoa concordar a 100% com outra, o que é importante é perceberes o contexto, de forma empática, porque é assim que as mentalidades evoluem. Também aprendo imenso com as outras pessoas por causa das ilustrações que faço. É uma espécie de comunidade.

Sente que criou uma comunidade? Como é que vê o número de pessoas que apoia as suas 'bandeiras' nas redes sociais? Sente algum tipo de responsabilidade?

Sinto responsabilidade, porque chego a muita gente. Há muita gente que chega a muita gente e não é ativista, e não acho que essas pessoas tenham a obrigação de o ser. No meu caso, aproveito a minha plataforma – e também foi assim que ela cresceu – para falar de assuntos sociais, sentimentos, autoestima, feminismo, e sinto mesmo que criei uma espécie de comunidade em que as pessoas se podem expressar. Mesmo por mensagem privada, lido com muitas pessoas que me contam problemas pessoais e é seguro, porque elas sabem que já passei por isso. Sinto que é seguro porque às vezes é muito mais fácil falar com alguém que não conheces, mas que sabes que vai perceber o que estás a passar. Por ser uma coisa que nos últimos dois anos foi tão virtual, por causa da Covid-19, achei importante fazer um evento em que as pessoas pudessem conviver, com um Vilacetinho na mão e um sentimento no coração.

Notícias ao Minuto"Amar-te-ei sempre como se tivéssemos acabado ontem.
Arrancar-te-ei todos os pedaços que de mim levaste.
Porque o meu coração é piroso, mas"
© Clara Não  

Como e quando é que surgiu o bichinho pela ilustração e, já agora, pela escrita?

Sempre desenhei muito, mesmo quando andava no infantário. A minha mãe percebeu que eu gastava imensas folhas e, no princípio, queria limitar-mas, mas não havia volta a dar – descobri onde estava o papel, roubava e tinha uma reserva secreta, debaixo do baú dos brinquedos [risos]. Estudei artes visuais no secundário, mas depois, na faculdade, fiz a cadeira de ilustração e gostei mesmo muito; apercebi-me que era aquilo que me fazia feliz.

Quando fui para Erasmus, em 2014, troquei uma das cadeiras principais de design pela cadeira principal do curso de ilustração. Na Willem de Kooning Academie, também era obrigatório fazer escrita criativa; cheguei a ter aqueles diários de miúda e ganhei um concurso literário nacional, com um diário de uma adolescente. Depois, eu já fazia ilustração, mas era muito mais 'nonsense'; o texto era poético e muito surrealista, e o professor Luuk Bode, lá na Holanda, disse-me para experimentar contar as histórias sem texto. E pronto, quando regressei, acabei a fazer banda desenhada [risos].

No mestrado comecei a explorar muito a escrita – num trabalho em que me propus a perceber o meu cérebro – e criei eufemismos, como [o da obra] 'as nuvens são ovelhas de patas para o ar'. Como a escrita se tornou tão importante, acabei mesmo por explorar o ato de escrever com as duas mãos, para trás e para a frente, em espelho, horizontal e vertical, e em 360º. E agora, faço estas coisas [olha para a instalação do tecido].

Falando em bichinhos, já teve oportunidade de ver as suas ilustrações em vários produtos e marcas, como é o caso da agenda de 2021 da Associação Animais de Rua, em que teve um grande destaque. Mas, de todas as colaborações, qual foi aquela que mais a marcou?

O meu livro, claro. Só trabalho com marcas com que me identifico e que têm bons conceitos. Identifico-me muito com o projeto 'Enxoval', da associação PELE, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, que é de feminismo interseccional – sou responsável por fazer 'fanzines' sobre mulheres que nos inspiram. Vai sair agora a sétima, que entreguei hoje de manhã. Dá muito gosto de fazer; aproveito para explorar os padrões e métodos que quero. Também me orgulho muito da parceria que fiz com a MSD, para tentarmos, esperançosamente, erradicar o VIH e tirar os 'bichinhos da cabeça' das pessoas que acham que é um monstro de sete cabeças porque, na verdade, hoje em dia já não é nenhuma fatalidade.

Comecei a partilhar coisas porque pensei 'eu não posso ser a única pessoa a pensar isto, eu não posso ser a diferentona da vila, não faz sentido nenhum' 

Talvez a pergunta que mais lhe fazem: porquê o nome 'Clara Não'?

É muito básico. As pessoas dizem 'ah, pois, és muito reivindicativa', mas na altura não era, não tinha coragem para dizer aquilo que me irritava. Então, eu chamo-me Clara Silva e quando vim da Holanda e decidi que queria ser ilustradora, apercebi-me rapidamente que precisava de mudar o Silva, porque era muito difícil encontrar-me online. Fiz uma lista de opções, que não me lembro; só me lembro de cortar e de dizer 'ai, não, não, não, não'. Cheguei ao fim da lista e pensei 'olha, por que não?', e ficou Clara Não [risos]. No princípio era mais uma brincadeira semântica, 'Clara Não vai', 'Clara Não gosta', 'Clara Não ilustra', mas, com o passar do tempo, comecei a ganhar mais coragem para dizer aquilo que achava que estava mal no mundo, sempre chateada com razão – acho eu – e o nome fez ainda mais sentido.

Então, nem sempre foi a pessoa irreverente que tenho aqui à minha frente, é isso?

Por dentro sim, mas não tinha coragem de o ser por fora. Achava que ia ser impertinente e, com o tempo, apercebi-me de que a impertinência muitas vezes é boa.

Voltando ao seu nome artístico, consegue sempre dizer ‘não’?

Não [risos]. Tento sempre e às vezes custa-me mesmo muito. Cada vez digo mais vezes que não, mas é um processo contínuo de rejeitares fazer fretes sociais só porque sim, e acho que quando as pessoas perceberem verdadeiramente – eu incluída – que não somos imortais, vão dar mais valor ao tempo. É mais fácil dizer que sim a curto prazo, mas é muito mais complicado a longo prazo, porque vais estar a gastar o teu tempo em coisas que não fazem sentido para ti ou só para agradar as outras pessoas. Também espero pelo dia em que as pessoas aceitem melhor o "não me apetece", sem achar que é um ataque pessoal, quando não é.

Acha que muitos dos temas que aborda são também lembretes para si mesma?

Sim [risos], tenho a certeza. Comecei a partilhar coisas porque pensei 'eu não posso ser a única pessoa a pensar isto, eu não posso ser a diferentona da vila, não faz sentido nenhum', e pronto. Nunca estamos sozinhos.

Sim, é verdade. Neste momento, o que é que acha que o futuro lhe reserva? Que projetos tem ‘na manga’ e que sonhos é que tem por cumprir?

Gostava de ter a minha marca mais organizada e estou a fazer por isso. Gostava de explorar mais formas de apresentar o meu trabalho – e vou ter mais coisas giras a acontecer; vou fazer a senografia da peça de teatro 'A iguana viúva', da Raquel Serejo Martins e encenada pela Cláudia Lucas Chéu. É mais uma forma de ver o meu trabalho e vai ser a minha primeira experiência senográfica, embora já faça coisas do género em exposições, mas é diferente. Tenho também as Shuggah Lickurs – faço a imagem e a promoção. E também estou a fazer a imagem gráfica de um projeto da Rota do Românico, o Ver do Bago – são três exposições, falta a terceira, e não é a campanha 'Instagram-style' – que também gosto de fazer, gosto de ter várias coisas a acontecer. 

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De 25 a 27 de novembro, 'Porque o meu coração é piroso, mas' está em exibição no Artroom, em Lisboa. Com entrada livre, poderá contar ainda com um copo de vinho da Casa de Vilacentinho, enquanto assiste a uma das 'performances' da artista – todos os dias, das 19h00 às 19h30. Leve também um pedacinho da exibição consigo, através de novos prints, postais, tote bags e serigrafias.

Veja a exposição das 14h00 às 21h00, horário que muda apenas no dia de estreia, das 18h00 às 21h00. Se não estiver vacinado, poderá fazer um autoteste no exterior da galeria, recomendando-se também o uso de máscara. Terá ainda de apresentar certificado de vacinação e cartão de cidadão na estreia, o que já não acontece nos restantes dias.

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