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'Sempre que acordo' retrata a vida de duas mulheres vítimas de racismo

A biografia de duas mulheres negras, a construção das suas identidades e o racismo de que foram vítimas são temas do peça de teatro "Sempre que Acordo", a estrear no próximo dia 21, no Centro de Artes de Lisboa (CAL).

'Sempre que acordo' retrata a vida de duas mulheres vítimas de racismo
Notícias ao Minuto

10:02 - 11/01/21 por Lusa

Cultura Teatro

"Sempre que acordo tenho de lutar pela minha existência ao impô-la", dizem as personagens no espetáculo, com texto de Lara Mesquita que o interpreta com Cirila Bossuet.

Tudo se centra nessa existência que tem de ser imposta, porque as duas atrizes se foram confrontando, desde a infância e até hoje, com o racismo, ainda que quem o pratique "muitas das vezes nem se aperceba", disse Lara Mesquita, em entrevista à agência Lusa.

"Sempre que acordo" é um espetáculo biográfico, em formato de 'conferência-performance', no qual as duas atrizes vão desfiando episódios das suas vidas e, através deles, "inventariam o trauma do racismo português".

Apesar de terem crescido em zonas diferentes -- Lara cresceu no Barreiro e Cirila, em Lisboa e Mem Martins -- as duas mulheres juntam-se em palco para partilharem experiências pessoais e histórias que lhes aconteceram, sobretudo na infância mas também no início da idade adulta, nas quais encontram pontos comuns.

A peça assenta assim no "condicionamento" a que ambas foram sujeitas pelo facto de serem negras, e na forma como esse condicionamento afetou a construção das suas personalidades, na forma como veem o mundo e nas possibilidades que têm na vida.

O "racismo invisível" de que foram vítimas -- como lhe chama Lara Mesquita --, esse racismo em que tudo "foi sempre muito dissimulado", também está presente em cena.

"Foi muito aquela zona do racismo que não é por mal; aqueles elogios disfarçados do 'mas tu não és preta' ou 'mas tu para preta és diferente'", sublinhou Lara Mesquita à Lusa.

Uma "aceitação condicionada" com que as duas mulheres se viram confrontadas e que resulta "do racismo estrutural, sistémico", que ainda existe na sociedade, embora não se admita que existe, frisou a atriz.

"Chamei-lhe invisível porque é como se não se visse. É o que de mais se vê, mas é como se não se visse, porque as pessoas que o estão a praticar às vezes nem se apercebem", acrescentou Lara Mesquita, sublinhando que "é mesmo intrínseco".

E este tipo de racismo é o "que confunde mais", argumentou. Por ser aquele que faz levantar mais questões, e porque leva as pessoas a perguntar "Será que é? Será que não é? Será que estou a exagerar?", frisou.

"E desculpabilizamos. Dizemos: 'pronto, não é por mal'", sublinhou.

Ao mesmo tempo, é um racismo que, se é comum no quotidiano, ainda é mais visível na sua vida como atrizes.

"Ser ator ou atriz em Portugal é muito difícil, mas ser atriz negra em Portugal é de uma dificuldade incalculável, porque não há papéis", acrescentou Lara Mesquita.

No teatro até podia haver mais espaço para papéis para negros, mas não há, disse à Lusa.

Os papéis que existem para negros, sublinhou, ou estão relacionados com a escravatura ou então "são papéis subalternos, de empregadas domésticas ou de limpeza".

"Papéis estereotipados que já não têm razão de ser", argumentou, lamentando que a sociedade ainda se deixe "minar" por sentimentos racistas.

"Não sei como se vai resolver esta questão, até porque não sou política. Não sei se passa por se instaurar um sistema de quotas ou outro, mas é mais do que tempo de se acordar para esta questão", enfatizou Lara Mesquita em entrevista à Lusa.

E sublinhou: "É vergonhoso" quando se liga a TV e nos apercebemos de que os papéis são todos para brancos, acrescentou.

Lara Mesquita disse à Lusa ter querido ser atriz "para ter poder, para ter voz".

"O palco dá um pouco de poder e eu, como negra, tinha as minhas possibilidades limitadas", frisou.

E se durante muito tempo achou que tinha sido vítima de racismo, foi só em 2018, depois de ler "Memórias da plantação", de Grada Kilomba, que Lara Mesquita teve a certeza de que os episódios racistas tinham marcado o seu crescimento.

"Sempre que acordo" não é, contudo, "um espetáculo com que se pretenda acusar alguém", ressalvou, a propósito do primeiro texto que escreveu para teatro.

É um espetáculo para "acontecer alguma mudança significativa". E para isso "é preciso haver algum desconforto", porque "só assim é que se pode começar a mudar", concluiu.

"Sempre que acordo" estará em no CAL, de 21 a 31 de janeiro, com sessões de quarta-feira a sábado, às 21:00, e, ao domingo, às 17:00.

Lara Mesquita e Cirila Bossuet contaram com Isabel Costa e Marco Mendonça no apoio à dramaturgia.

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