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'A nossa parte da noite': Fantasia e terror no passado negro da Argentina

'A nossa parte da noite', da escritora argentina Mariana Enriquez, é um romance gótico, marcado pelo trauma da ditadura e enformado pelo terror e fantasia, estética literária que a define e que escolheu para iluminar o passado do país.

'A nossa parte da noite': Fantasia e terror no passado negro da Argentina
Notícias ao Minuto

10:24 - 22/11/20 por Lusa

Cultura Literatura

O novo romance de Mariana Enriquez, editado pela Quetzal, que a própria classifica como "terror latino-americano", é uma obra de mais de 600 páginas, na qual a autora reúne todas as suas obsessões e marcas que a acompanham desde a infância, como disse em entrevista à Lusa.

Por um lado, as heranças da ditadura, instaurada por um golpe de Estado quando Mariana Enriquez (nascida em 1973) ainda era pequena, que ficaram arreigadas ao país como "um trauma nacional coletivo que persiste e está presente na vida quotidiana".

Apesar de a Argentina ser uma democracia desde 1983, os efeitos da ditadura persistem, porque continua a haver pessoas desaparecidas, famílias sem poder enterrar os seus mortos, porque não sabem dos corpos, centenas de crianças raptadas que ainda hoje não conhecem a sua identidade, contou a autora, confessando que desde pequena vive com os efeitos deste trauma coletivo, "que é profundo e extenso".

Por outro lado, estão presentes os elementos de sobrenatural e fantástico com que se identifica e que serviram de fonte para a história, em particular, "os santos pagãos e a mitologia argentina (mas também alguns mitos sul-americanos), o ocultismo britânico, desde John Dee até às ordens vitorianas e a sua ressonância na espiritualidade juvenil dos anos 1960/70, e alguns textos de Stephen King, Mark Z. Danielewski e outras leituras de horror contemporâneas".

"Gosto do género e penso que é com isso que posso contribuir, a minha voz expressa-se bem nesse estilo. Também me interessa a política e a história, mas devido aos meus antecedentes e gostos pessoais, não só literários (estéticos, audiovisuais e outros), não quis abordá-los a partir do testemunho, do realismo, da não-ficção, como é habitual. Quis pensar sobre isto através de outros pontos de vista: um género é um ponto de vista, uma estética, uma sensibilidade", disse à Lusa.

"A nossa parte da noite" passa-se em tempos de ditadura militar e segue um pai e um filho que atravessam a Argentina de carro, desde Buenos Aires até às Cataratas do Iguaçu, na fronteira norte com o Brasil. O pai, Juan, tenta proteger o filho, Gaspar, do destino que lhe foi traçado. A mãe morreu em circunstâncias pouco claras, num acidente que pode não ter sido.

Tal como o seu pai, Gaspar foi chamado a ser um médium numa sociedade secreta -- a Ordem - com séculos de existência e dominada pela poderosa família da mãe de Gaspar, que contacta a Escuridão através de rituais atrozes, em busca da vida eterna.

A história, que cobre um arco temporal e geográfico amplo, parte da viagem inicial para uma outra com passadiços que escondem monstros, interiores de casas que comportam abismos, enigmáticas liturgias sexuais, andanças pela Londres psicadélica dos anos 1960, a ditadura militar dos desaparecidos e a incerta chegada da democracia.

Como é que Mariana Enriquez convoca todos estes elementos fazendo-os resultar num todo coerente e harmonioso é explicado pela autora como algo que se foi construindo a partir de quatro eixos principais: "a Ordem, a relação pai-filho (a filial, a herança), a história argentina, e também a estrutura em partes, que foi uma maneira de ordenar o texto e de me organizar".

Mas muita coisa surgiu durante o processo de escrita, que a foi levando por "caminhos inesperados" e de alguma forma mostrando-lhe o que queria contar.

Mariana Enriquez compara o seu romance com um álbum duplo, "os quatro lados de dois vinil, todos com texturas diferentes na seleção das canções".

A história nasceu de duas ideias, "uma de género, sobre uma sociedade secreta que se comunicava com deuses secretos, e outra mais íntima e até política, sobre a relação entre um pai e um filho - ou entre pais e filhos, sobre herança, sobre o que transmitimos aos nossos filhos, o que eles nos tiram, o que podem (ou não podem) deixar para trás, o que herdam como condenação".

A escolha da ligação pai-filho foi um afastar-se das suas "muitas narradoras e personagens femininas" dos últimos anos, uma "subjetividade que estava cansada de explorar".

Mas houve outro motivo, mais uma vez, uma "obsessão" que perseguiu: "Juan e Gaspar apareceram como personagens quando estava a imaginar esta ficção e penso que o escritor deve deixar-se levar pelo que a sua imaginação lhe impõe".

Houve também a vontade de "explorar o vínculo filial sem a leitura da maternidade, que não lhe interessava explorar", e que lhe é tão estranha como o vínculo pai-filho, porque não é mãe, contou, sublinhando contudo que este é um "vínculo pai-filho muito pouco convencional, onde coexistem violência e cuidado, amor e inveja".

Este romance sofre uma "clara inspiração" de "A estrada", de Cormac McCarthy, de quem se confessa uma "grande fã", pois embora as histórias sejam "diferentes na aparência e no género" - porque o romance norte-americano é uma distopia -, "em ambos o pai doente pergunta-se porque está a criar esta criança", num caso porque o mundo está morto, outro porque pode não valer a pena tentar mudar o destino.

Outra das grandes influências literárias confessas de Mariana Enriquez é "O monte dos vendavais", de Emily Bronte, o romance que diz que gostaria de ter escrito, e do qual faz uma leitura "muito assustadora", descrevendo-o como "um romance gótico com muitos elementos de terror".

A música faz parte da vida da escritora, que se assume "roqueira", e este romance tem uma banda sonora, que são as músicas que a acompanharam, com o volume alto, nas horas da manhã em que escrevia.

"Do folclore argentino - chamamé, que é a música da região onde o romance começa - a intérpretes do folclore sul-americano como Mercedes Sosa e Violeta Parra, passando pelo rock, especialmente o rock inglês dos anos 60 e 70 (Bowie, Led Zeppelin, The Rolling Stones), mas também bandas mais contemporâneas como Suede ou Manic Street Preachers, que têm homenagens oblíquas no romance, com letras como títulos e outros. O álbum de Suede 'The Blue Hour' foi lançado quando eu estava a corrigir o romance; as canções têm uma certa narrativa sobre a relação entre um pai e um filho numa atmosfera muito sombria, e ajudou-me muito a dar o toque final ao livro".

"A nossa parte da noite" foi um livro muito procurado durante o confinamento, o que Mariana Enriquez acredita dever-se ao facto de o terror, para algumas pessoas, ser "uma grande ajuda no processamento de traumas ou do próprio medo".

O que os leitores dizem que mais os chocou na história foram as personagens, algumas cenas bastante horríveis e a mistura da história com o horror sobrenatural, contou.

Com este romance, Mariana Enriquez venceu o Prémio Herralde de Novela de 2019 e o Prémio Nacional da Crítica de 2019, tornando-se a primeira argentina a ganhar este último e a quinta mulher em 63 vencedores.

Confessa que sente a pressão dos prémios, sente-se mais "vigiada", mas espera que isso não afete o seu trabalho.

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